terça-feira, 15 de outubro de 2024

Times New Roman 12

  O intelectual é aquele ali: o otimista adulto demais para ser otimista, o que está encoberto de uma atmosfera lúgubre e vive em seu refúgio natural: o cérebro. O intelectual é distinto, sua intelectualidade não se confunde, é o sarcasmo, é não rir além dos dentes, é estar constantemente insatisfeito com o que é bom. Ele já nasce com a maldição de ver tudo o que não se conquistou, o que se deixou de fazer, os buracos da trama e o futuro brilhante apagado pelo imutável passado. 

 Trata-se de condição de sua espécie compreender que só se é verdadeiramente intelectual aquele que é triste. É assim que se reconhece como parte do grupo. Essa tristeza sem lágrimas é tida como a marca do verdadeiro amadurecimento. Observe que a infância é o deslumbre, a esperança e o sorriso de um córtex pré-frontal não completamente formado. Logo que há o reconhecimento das incoerências do mundo, nasce-lhe a raiva, por conclusão lógica. A melancolia é consequência direta do apaziguamento da revolta juvenil. É com a tristeza, talvez um par de óculos e uma pele pálida que se o reconhece.

  O intelectual, por rotina, se senta em sua mesa de estudos, injuria o mundo, maltrata a esperança e desumaniza a felicidade. Ele digita que tudo está fora de controle e que o azar é uma construção há tantos anos que se perdeu de seus rastros. Em sua conclusão: desista, e referencia a si mesmo. Ele sabe tudo que se há para saber, mas não é o que responde quando lhe perguntam.

 O cruel mundo gira, o sol que explodirá acorda pela manhã em contagem regressiva, o leite da geladeira coalhou, e lá vai o intelectual forçado ao mundo, buscar o café da manhã. No trajeto à padaria, vê quem sorri com ironia, pensa-se seguro, acima daquela ignorância toda. Caminha pomposo por entre as gentes, tem dó dos empobrecidos tristes - seu objeto de estudo para mais tarde. O intelectual não se sente muito a vontade em conversar com o objeto de estudo, no entanto, arranja o seu jeito: fala em tom de condescendência, e isto, sim, funciona muito bem. Retorna o intelectual com o leite e um olhar orgulhoso para seu refúgio.

 O refúgio do intelectual é bastante distinto, tido que lhe abriga com uma segurança mui peculiar: apaga-lhe o sorriso e a felicidade, sintomas da indesejável imaturidade. No refúgio, só os maduros! No refúgio ele percebe que não disse ao moribundo, olhando nos olhos, sobre seu destino fatal, sente-se covarde por um momento, mas como escreverá sobre, com nota de rodapé, sentiu-se bem logo em seguida. O intelectual é o herói que preserva a verdade das mentes pequenas e as expande em times new roman 12, em Qualis A1. O que importa não é o pouco, é o muito, é a larga escala, é o grande esquema das coisas. 

Eis o que é verdadeiramente grande: é a justiça, pensa ao encostar a cabeça no travesseiro, é importante apesar de não ter logrado conceituá-la muito bem naquela introdução. Remói por hábito, mas agora lhe chama atenção a estranheza de sua guerra em prol da justiça num mundo tão condenado.

Não há nada o que se dizer de original, sonolência, as mãos atadas a referências, o leite coalha, Comic Sans... Dorme o intelectual.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Curiosidade hedônica

 Estou num período de intenso preparo físico. Tive muitas versões de mim mesma, as primeiras versões não se impressionariam com a disciplina de hoje, já as intermediárias ficariam impactadas, perplexas e até frustradas. Em alguns momentos minha febre pela disciplina sumiu completamente ao ponto de me causar desprezo. Mas essa ojeriza só aconteceu porque eu olhava ao redor e via pessoas que conseguiam existir sem pensarem tanto sobre o que estavam fazendo. Essas pessoas pareciam tão alienígenas! Foi incrível a descoberta de que há vida fora do planeta! E minha curiosidade me levou a buscar o conhecimento prático da coisa, com um foguete. Pensar demais, refleti à época, atrapalhava a experimentação completa da vida. 

 Para conhecer os céus, quis bisbilhotar os infernos. E tive uma vista... interessante.

 De quantos copos, taças e canecos já bebi? E estes dedos seguraram quantos cigarros de seda, de palha, de papel? Acho que me dediquei demais aos meus objetos de estudo por causa dessa tal curiosidade. Não é preciso tanta dedicação prática quando se pode fazer uma busca mais bibliográfica, não é mesmo? Olha, não é como se eu estivesse num confessionário, aqui, não me arrependo de uma só gota, nem de qualquer um dos tragos! Pelo contrário, acho que experimentei muito da vida, mas descobri que era do todo uma só parte. Os psicodélicos, psicotrópicos, psicoativos de toda natureza que passaram pela minha garganta, língua e nariz me deram lições interessantes sobre partes de mim que descobri que conseguia expandir ou retrair. E os ambientes esquisitos e futilidades me deram desgostos como também me deram prazeres. Abracei e estapeei mais dilemas morais do que posso contar.

  Das drogas mais pesadas, a minha curiosidade foi a maior, como se pode ver, foi ela a porta de entrada para todas as outras. Depois dela que me corrompi, e depois dela que percebi que corrupção não é aquilo que consta do dicionário, depois risquei e pensei que talvez corrupção seja o que significa no dicionário, depois coloquei aspas e troquei os sinônimos. 

Foi pela curiosidade que eu quis me tornar uma adicta, mas por uma ironia da vida, meu corpo não me deu esse gene (ufa!). Quis me tornar isto ou aquilo e de fato busquei a experiência. Pela curiosidade quis machucar o corpo para acalmar a mente. Depois inverti e quis salvar o corpo de perturbar a mente. Pela curiosidade descobri que mente e corpo são uma coisa só, que meu cérebro é matéria, que sou eu, tanto quanto meus dedos, olhos, nariz e boca. E que não se cuida de um fígado como se cuida das unhas na manicure!

 Não há vida apenas fora do planeta, aqui no meu também há: sou eu, oras! Este planeta estranho, feito de quebra-cabeça, com peças pequenas, talvez algumas perdidas por aí, outras inexistentes, outras em outro quebra-cabeça - e que saudade de algumas delas!

Provisoriamente penso que sou eu que ordeno as peças que tenho, até mesmo o espaço vazio. Sou eu que escolho a lição que tiro das experiências quando um trauma não a escolhe por mim. E mesmo quando há um trauma, e que a culpa não seja necessariamente minha, a responsabilidade é - e disso não tem como fugir (digo porque tentei). Mas é provisório o pensamento. 

A curiosidade sobre o livre-arbítrio perpassa por entre minhas sinapses dançando tango com outros mil assuntos correlacionados enquanto assuntos aleatórios pulam carnaval.

E agora, ao final, não sei quem escreveu este texto, se eu ou ela. 

Talvez nenhuma de nós.

Talvez o sono.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Poetria XXXV

Quem não sabe, presume

E presume com o que se sabe

Quando o saber, a nada, se resume!

Se se presume o saber por costume

Se sabe ainda menos do que se sabe.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Cor-de-rosa ainda tem hífen!

 Sabe-se-lá por que, de todos os aniversários, o próximo é o mais esquisito de todos. Ver tão logo à frente trinta anos de minha vida chegando é uma mistura de frustração de expectativas e de felicidade por ter sobrevivido dietas malucas e bebidas suspeitas. Mas também pavor. Como toda boa millenial não me enxergo com essa idade que chega aí, não era para eu ser já uma velha sábia?

 Me é bem-quisto que os mais jovens estão reavivando os anos 2000, fico já toda nostálgica quando me deparo com as cinturas baixas e sobrancelhas finas. Os anos 2000 foram os anos dos flip phones raiz, da trema na língüa portuguesa, dos "Beijos, Blues e Poesia", quando eu ouvia músicas românticas imaginando como seria amar pela primeira vez. E mais: os hífens se acomodavam em lugares diferentes entre as palavras... o cor-de-rosa, no entanto, permanecem os dois nos mesmíssimos cômodos.

Eu amava todas as cores do arco-íris, mas o rosa <3... No início deste século (apesar de parecer que já se foram dez) eu tinha uma caixa de sapatos cor-de-rosa, que me era muito querida por ter tantos tons da minha cor favorita. Ali eu guardava muitas cartas de mim para mim mesma e alguns diários super-secretos contando as histórias de primeiras paixões e intermináveis tragédias infantis: não dava para voar, mesmo que eu pulasse realmente muito alto do sofá de casa. Algumas folhas foram escritas em estado de êxtase porque eu estudaria com as mesmas amigas da 4ª série do ensino fundamental, outras foram escritas mais tarde na vida, em estado de embriaguez, chorando as pitangas por não estar tão bem socialmente encaixada como eu gostaria.

Nesse meio-tempo, a caixa se despedaçou, troquei por uma caixa de madeira com cores mais radicais. Eu não queria mais gostar de cor-de-rosa, eu gostava é de vermelho. Gostava tanto que comprei uma caixa de tinta e coloquei aquela cor de sangue nas minhas longas madeixas. A cor e a minha intensidade combinavam. O pigmento rebelde era também a cor da minha aura. A pimentinha estressada, intensa, rebelde, que pegou R$ 50,00 furtivamente da própria mãe para colocar na nuca um símbolo de sua intensidade adolescente: uma tatuagem de raio. O dinheiro acabou no contorno da tatuagem e a rebeldia para surrupiar mais dinheiro para a colorir no tom intenso cessou por ali também: pensei na minha ética. Não é o vermelho um tom mais pigmentado do cor-de-rosa?

Ex-presidenta Mundial, muito prazer! Eu tinha outras expectativas de quem eu seria naquela época, quanto mais hoje em dia! Nas memórias mais distantes eu achava que o mundo não deveria possuir fronteiras e que uma presidente mundial de coração grande e sem ganância deveria ocupar esse cargo. Mas ali pelos 9 anos percebi que a humanidade dividida era melhor administrada... Talvez eu devesse ser como o Marcos Pontes, cursar física, trajar as vestes de astronauta e ver minha casa lá da lua! Pensei depois em ser mais do que eu, em usar minha imaginação vestindo a carcaça de outras personagens, e me brotou a idéia (com acento) de ser atriz de Hollywood. O último sonho da primeira metade dos anos 2000 foi revolucionar o ordinário como a estilista do punk Vivienne Westwood, e tentar a carreira no Estados Unidos da América.

Até que "fodam-se os estado unidenses!". Sobre os anos 2010, já não havia como fugir das trocas dos hifens, o dinheiro para se ir à lua era inútil, eu buscava a distribuição da renda; a revolução fashion deveria ser mesmo é social, o cabelo saiu de vermelho para laranja, que contrastava com o cinza da fumaça de muitos cigarros que foram acessos, e tudo era política. Inclusive a franjinha nova e minha ânsia por não ser eu um alguém individual, mas uma engrenagem de um coletivo.

Vim envelhecendo a conta-gotas, mas me altercando como num maremoto. Os pigmentos do cabelo saíram, permanecem na cor do meu batom nas ocasiões especiais. Mais de uma década depois: me tornei mesmo é advogada e professora de um sistema que eu própria queria derrubar para estabelecer aquele governo pacífico e mundial sem fronteiras. Ir à lua importa. A revolução começa por mim, quando olho fundo para aquela caixa cor-de-rosa.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Parafraseando a realidade enquanto ouço um sabiá com certidão de idade

Ontem sonhei que eu era uma pessoa mais simples, a nada questionei. Como foi incrível olhar aquele éter lúdico de sonhos com olhos tão humildes. Não sei se caminhava ou se estava parada, se eu caía ou voava, nem mesmo se eu era eu mesma: humana, viva, mulher. 

Os sonhos talvez sejam quebra-cabeças feitos em desordem, que remontam o dia, a rotina, os anos e os desejos em uma estranha linguagem intuitiva e familiar. Existe quem pense ser possível extrair dos sonhos previsões do futuro ou códigos da alma. No Japão, está em desenvolvimento uma máquina que busca representar os sonhos integralmente mediante fotografias. Ninguém entenderia os meus sonhos impressos. O fato é que o mundo dos sonhos só se entende, realmente, sonhando. Gasto as palavras tentando decifrar o que me acontece por lá todas as noites. É como se suas razões peculiares precisassem de palavras que não existem, de cores não descobertas, de sons que nunca ecoaram fora da imaginação arbitrária.

Platão entendia que se algo existia no mundo das ideias, poderia existir no mundo real. Talvez não sejam vãs as minhas tentativas de dar palavras, cores e sons para os meus sonhos... talvez esteja tudo aí ao acesso do possível.

O que consigo dizer é que sonhei que eu era mais simples do que sou aqui, agora, digitando, e o que  resta para os meus neurônios é parafrasear a realidade.

Nos ocorre ver a vida com esses olhos simplificados em certas ocasiões... Nessas raras ocasiões em que focamos os olhos para entendermos uma imagem que se forma à medida que a compreendemos. Começamos pelo som, cor, e pela forma: é humana ou um objeto? O estranhamento é um relapso meditativo, é a concentração intensa no que nos acontece de imediato - nem sentimentos são formados, porque sua formação dependeria de uma conclusão observacional. No puro estranhamento nos faltam estímulos suficientes para a formação de qualquer convicção. Ele dura tão poucos milésimos de segundos! São tão rápidas as sinapses que formam o medo ou a alegria, ou a tristeza que o engole.

Os sonhos são os portais para um mundo de estranhamento contemplativo. Nos permite segurar a atenção no caos sem que o reconheçamos como tal. E por isso, talvez, seja um exercício tão complexo traduzir seus hieróglifos. Mas no que podemos descrevê-los, como humanidade, descrevemos. Nesse texto me inspiro nos grandes tradutores que tentaram.

E venho eu aqui, as 01h07min de uma quarta-feira ocupada, respirando o mesmo ar de Salvador Dalí, Picasso, Marta Minujín, só que mais poluído... no mesmo mundo que ecoou o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, a discografia dos Pixies, com os olhos de quem assistiu aquele filme "Comet", falando a mesma língua de Murilo Mendes e tantos outros bons poetas, descrever que ser simples é estar em estranhamento.

Ai quem me dera eu pudesse traduzir meus sonhos de verdade!