sábado, 11 de abril de 2026

Matadores em série

  Deparei-me com a notícia de que há menos matadores em série hoje, no mundo, que nos anos 1980. Os EUA são o maior exemplo disso. E se há uma queda acentuada por lá, há uma queda acentuada global por consequência porque, curiosamente, lá é que se encontra o maior número desse perfil criminoso. Têm muitas teorias sobre o declínio na terra do Tio Sam: eficiência policial, a liberação do aborto e os muitos avanços forenses genéticos que impedem que um assassino faça muitas vítimas.

  No entanto, cá no Brasil, o aborto ainda é crime, a polícia trabalha com os recursos de um palhaço de circo e no presídio só cabem detentos desalmados (com alma, dá superlotação). Então, pensei com meus botões, porque por aqui não vemos tanto esse tipo de crime? Meu amigo, concluí que é a escala 6x1. Acompanhe-me:

 Para ser um matador em série é preciso, acima de tudo, de tempo. Não dá para perseguir uma pessoa após 8h de expediente e nem perder o descanso do domingo mutilando um defunto. Quem é que tem horário, neste país, de sair do ponto de ônibus, vigiar a vítima, correr atrás dela, arrastar um corpo de 70kg e ainda ter de descongelar o frango para a janta?! É simplesmente impossível. É um tipo de crime de países mais desenvolvidos, sabe como é? 

 Pode argumentar aí que temos crimes de sobra no Brasil, que todos nós já passamos por algum assalto na vida. Mas repare bem que ladrão brasileiro não é vagabundo. Repare bem que ele assalta após o horário comercial ou nos feriados e finais de semana. Tanto é que um foliante, no carnaval, já vai preparado com dois celulares para a folia (um pro assaltante). O crime neste país é uma das poucas coisas que são organizadas!

 Matar em série, por outro lado, exige maior comprometimento que um assalto que acontece em 5 minutos, ou até mesmo um sequestro relâmpago que, como o nome já diz, exige uma menor jornada de serviço. 

 Olhe, se o psicopata for realmente comprometido com sua vilania, neste país tropical, fica sem ter como pagar o aluguel. Nenhuma empresa toleraria tanto atraso! Ao contrário dos seriais killers norte americanos que sempre tiveram, às custas da exploração imperialista, tempo suficiente para suas tramóias! Isso é desigualdade na prática.

 É dos ianques os maiores nomes sanguinários que matam sem intenção útil. Enquanto no Brasil, os psicopatas matam como meio para algo: herança, tráfico, uso de drogas, pagamento de agiota e crime do colarinho branco, for the americans, é a morte pela morte. O american way, talvez seja tão consumista, que a contracultura seja o prazer de caçar sem finalidade de lucro.

 Pois bem, a notícia ruim é que na terra da liberdade houve queda dos serial killers mas aumento dos mass murderes. Quase 4 mil assassinos em massa registrados! Registrados, veja bem — porque lá até isso tem controle. Por lá já estão cheios de detectores de metal nas escolas fundamentais. E no nosso país? Neca de pitibiribas!

 A não ser que haja um sindicato dos matadores em série, neste Bananil, teremos que nos contentar com mais um documentário sobre a Richthofen. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Arriscado

Hoje, tenho mais medo que ontem

de subir em lugares altos

de quebrar um osso

de andar sozinha na noite escura

de perder um amigo


Hoje, tento mais que antes

controlar a altura dos meus pulos

a rigidez dos meus movimentos

andar só à luz 

calar o que sinto.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Sobre poesia

Tirei de uma cena da adaptação de "Persuasão" que a poesia raramente é apreciada com moderação por aqueles que a desfrutam por inteiro e que só quem conheceria a perda conseguiria apreciar Byron a ponto de ficar depressivo. E concordo. 

A poesia é potente! Ela potencializa nossas emoções porque conversa com elas intimamente, nua. Um bom poema nos faz encenar, por dentro, os mecanismos que a neurociência estuda. 

Um tal Pavese meditou que escrever é como conversar sozinho com uma multidão. Disso, é fácil inferir que poetizar é como revelar grandes segredos em voz alta e contar fluentemente sobre o que é indizível. 

Note que o que se sente durante um episódio de raiva está além da definição estabilizada do dicionário ou da neurociência. Sentimos aversão e nossos neurônios se agitam? Sim. Mas, e o ódio de Banchs? Já sentiu assim?

(...)

El reposo en la selva silenciosa.
La testa chata entre las garras finas
y el ojo fijo, impávido custodio.

Espía mientras bate con nerviosa
cola el haz de las férulas vecinas,
en reprimido acecho... así es mi odio.


Lou Salomé e seu existencialismo filosófico. Já sentiu?

  As truly as I'd love a friend, 
I have always loved you, riddling life
whether I've laughed with you or wept, 
whether you've brought me pleasure or strife.
(...)

A melancolia  de Cecília Meireles?

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens 
e sentir passar as estrelas 
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. (...)

E aquela frustração de Camões?

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho 
Destemperada e a voz enrouquecida, 
E não do canto, mas de ver que venho 
Cantar a gente surda e endurecida. (...)

E os dias de autoestima de Maya Angelou?

Men themselves have wondered   
What they see in me.
They try so much
But they can’t touch
My inner mystery.

When I try to show them,   
They say they still can’t see.   

I say,
It’s in the arch of my back,   
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I’m a woman
Phenomenally.


A poesia traduz, sem tanta precisão científica, o mundo secreto dos sentidos e define, à sua maneira, o que precisar se dizer dele. É uma forma de comunicação que conversa conosco utilizando-se de um algo além das leituras rigorosas as quais estamos acostumados e ainda nos faz compreender muitos outros sentidos que podem ser extraídos de uma mesma palavra.

A poesia também tem uma musicalidade que só é entendida pelas mentes humanas. Não é ouvida pelos ouvidos. Não há, para ela, teoria musical. Há um ritmo agregado a cada uma. O ritmo de Shakespeare, a exemplo, pulsa como um coração. A cada batimento a palavra é dita com sinceridade e drama:

Tempo voraz, corta as garras do leão,
E faze a terra devorar sua doce prole;
Arranca os dentes afiados da feroz mandíbula do tigre,
E queima a eterna fênix em seu sangue;

Mesmo que não se seja um bom ator para proclamar com destreza o ritmo poético, a experiência própria é quem faz o letramento musical dentro de nossas mentes. Dentro de mim, ouço trovões ao ler o soneto 19 de Shakespeare, por exemplo.

A contradição da poesia mora no fato de que ela traduz muito, mas é muitíssimo difícil de ser traduzida para outro idioma. A leitura de um poema fica preciso em sua lingua de origem. A musicalidade daquele idioma é única e a significação das palavras que provocam coesão são traduzidas deixando muito do conteúdo pra trás. Se se traduz as palavras literais, nada mais haverá da música e dos sentidos. E por isso adoro a tradução do Soneto 19. É belíssima!

Outro paradoxo é que, apesar de tratarem, muitas vezes, de sentimento universais e atemporais, é preciso estar contextualizado para conseguir extrair mais sentido dos poemas, como o poema "A Pulga" de John Donne:


Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Na época do poema as pessoa que o leram já sabiam do lugar-comum proposto por Donne. Ou seja, saberiam que a união do sangue de duas pessoas era uma intimidade como o sexo - e elas conseguiram entender mais plenamente a sagacidade de "A Pulga" do que um leitor moderno e seu anacronismo acidental.

No poema, a intervenção da pulga que uniu o sangue dos amantes já teria "pulado para a etapa mais importante", que seria a união do sangue, e justamente por isso, o eu lírico solicita o encontro sexual (a etapa deixada de fora), invertendo a ordem moral para se servir de uma tática de sedução.

Durante o poema, ele vai entregando argumentos para conseguir transar com a sua amante, como a premissa implícita que a pulga não provocou a perda da virgindade dos amantes, que a troca de sangue já teria sido feita sem pecado ou perda da virtude e que agora só faltava concretizar o ato sexual.

Os poemas mais antigos eram curiosos por serem como jogos de palavras a serem desvendados. 

"A cada parto agudo é necessária a novidade sem a qual a maravilha desaparece e, junto com ela, a graça e o aplauso" (Tesauro)

A graça era (e ainda é) ler um poema que desenvolve um argumento fazendo uma correspondência inesperada de palavras aparentemente desconexas. 

Nos poemas, lemos palavras dessemelhantes sendo usadas para desvelar uma perspectiva íntima ou até mesmo existencial. É divertido extrair um sentido de um poema engenhoso, mas é também revigorante ter uma perspectiva abraçada pelas palavras de um poeta ou até mesmo descobrir elocubrações que nunca antes participaram da nossa própria experiência. 

Cada tipo de arte possui uma digital incomparável. A poesia nos dá uma companhia única, que não é encontrada numa música, num filme, no DSM-5 ou em tratados filosóficos.  A  poesia significa mas sem a pretensão científica ou filosófica de estabilizar sentido. Ela te faz sentir o que ela sentiu, mas sem te explicar o que foi. É um micro-cosmos inalcançado pelos átomos.

quarta-feira, 4 de março de 2026

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Divórcio

Sentaram-se lado a lado. E então viraram os rostos. Ela olhou para o chão. Ele, para ela. Ela para ele. E ele para o chão. Ruborizaram.

 Ela quem tomou o primeiro fôlego:

- Como posso te dizer?

- Dizendo-me. - As mãos dele suavam.

- Então te digo: Eu te amo. E sinto...

- E eu já não sinto mais o mesmo.

- De me conhecer? - respondeu, surpresa.

- Não, do início, do nosso primeiro beijo, aqui, neste mesmo banco.

- Mas... nunca nos beijamos. - disse-lhe, confusa.

- Sabe como é... na minha mente, já nos divorciamos.

Ela riu.

- Sim - ele prosseguiu - Foi tudo muito bonito. Nosso primeiro beijo foi logo aqui, após confessar que me ama e eu retribuir com um beijo. Guardei esse beijo por tantos anos, desde a primeira vez que te vi. Sempre soube que nos casaríamos, mesmo antes, quando não passávamos de estranhos. Deste banco, te levei para tomarmos sorvete, uma coisa leva outra, então para um lanche, para alugarmos nossa primeira casa, juntarmos nossas vidas, conhecermos nossas famílias. Fomos muito felizes.

- E como é que essa felicidade toda aí foi embora?

- Bom, eu queria casar no altar, você em alguma noite embriagada de Las Vegas. Eu desejava filhos, e você não queria nem mesmo mudas de plantas, entende?

- Mas você disse que nos casamos.

- Nós casamos.

- Onde, afinal?

- No altar. 

- E como é que troquei Las Vegas por isso?

- É daí o nosso fim. - disse, segurando a mão dela com firmeza - E sentados aqui, já percebo a razão. Acho que você foi a primeira a não sentir mais.

- Como é isso?

- Eu queria filhos, então essa foi sua concessão à minha felicidade. E a minha concessão à sua felicidade foi sentir um grande vazio, sem nunca poder ver nossa prole brincando pelos jardins que não tínhamos em casa.

- Em que momento lhe dei um filho?

- Olha só, você adivinhou... Bom, alguns anos depois, quando já não conversávamos mais sobre qualquer coisa além de impostos.

- E conversamos por meio de nosso filho por quanto tempo?

- Por tempo demais.


Levantaram-se. E nunca mais olharam para trás.