terça-feira, 9 de junho de 2026

Poetria XXXIX

Amo intensamente com o freio de mão puxado

Meu bem, só me afogo onde dá pé

Caio de cabeça no almofadado

Se preciso for, dou ré

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Estou lendo o livro "Zorbás, o grego" de Nikos Kazantzakis

 Ele nasceu velho e foi se rejuvenescendo. Tinha mais energia e liberdade aos 60 anos do que aos 18. Provou dos prazeres da carne e se satisfez: Vinhos, mulheres e o trabalho. Vê o dinheiro como asas para voar, por isso o trabalho. É uma personalidade peculiar. Resumi-lo é um trabalho árduo, por isso o autor resolveu escrevê-lo em trezentas e tantas páginas.

 Zorbás: a primeira Manic Pixie Dream Girl. Porém homem, velho e másculo. Retira o protagonista intelectual do mundo metafísico e o faz invejar quem vive guiado pelos sentidos. Dualidade entre carne e espírito é unificada no corpo e mente de Zorbás, um homem que vive o corpo de alma inteira e a alma de corpo inteiro. Tudo nele é matéria. Homem prático, carnal e livre. Homem simples, iletrado, mas engenhoso e empático. 

  Ao mesmo tempo que Zorbás entende que o mundo tem lá sua ordem e as pessoas seus próprios vícios, ainda assim não deixa de desvirtuar monges e desvirginar mulheres. Ele percebeu que ele é livre e, razoavelmente, senhor de seu destino.

 Experimentou as teorias filosóficas empiricamente - e totalmente, completamente, caindo de cabeça em cada uma delas. Caiu de cabeça no patriotismo ao entrar para a guerra. Já foi sério e rigoroso. Já tirou os próprios cabelos para fazer um colar de santa para carregar no peito. Zorbás já fez crueldades pelo que acreditava, mas não se vê como cruel. 

 Zorbas fica num agnosticismo curioso: Entre não crer em nada e crer que há um Deus que é também o próprio Diabo. Acha que os humanos não aguentariam terem surgido de um ser parecido com suas vergonhas. Tem sua própria teologia. Respeita os rituais como cristão tanto quanto os pecados, como um endemoniado. Já quebrou os dez mandamentos e queria que houvessem mais para que mais quebrasse. E mesmo diante de tudo isso, ainda é um uma fera bondosa. Não quer que a vida acabe, mas com a morte não se faz malandragem. No entanto, isso não o impede de tentar. Então ele dança, toca, canta, usando todo seu vigor para experimentar cada segundo mortal.

 Extrai da comida a energia para acordar bem, do vinho para rir mais e do trabalho árduo e focado para conseguir todo o resto. Das mulheres, não extrai nada, só se entrega. Gosta de ser namorado, namorar, agradar, mas não de ficar preso. Conta que tinha um vício em cerejas, roubou dinheiro do próprio pai, comprou um saco de cerejas, comeu-as toda até enjoar. Mas das mulheres, não, não consegue largar.

 Zorbás vê as mulheres em sua essência, ele é entorpecido pelo feminino. Por vezes as vê como ninfas ingênuas, às vezes como demonios. Vê suas carnes, os seios alvos, os quadris remexendo nos vestidos, os seus sexos, mas também as vê em essência de mulher. Diz que Deus criou o matrimônio, a santidade e as mulheres feias. Tem dó das mulheres, tanto das feias quanto das bonitas. Vê as crenças materialistas delas, enxerga sua necessidade de afeto, carinho e atenção com uma curiosidade quase alienígena. "Mulheres são humanas?" - é algo que ele se pergunta. Pra ele, humanos querem ser livres, mas as mulheres querem se prender ao romance. E aí, são humanas, mesmo? Nenhuma mulher foi mostrada na inteireza da própria personalidade. Mas isso porque não é Zorbás o autor - ele é o único personagem cuja personalidade é objeto de estudo e de admiração.

 É um grande homem. Faz o que pensa e pensa o que faz. Toma a decisão de seus sentimentos. Se precisa chorar, chora. Deprime-se, irrita-se com as crueldades do mundo. Recolhe-se ao próprio íntimo quando ferido. E acorda e ri muito alto. Canta e pula até cansar os joelhos. É um homem de carne e osso.

 Há uma grandiosa diferença em toda folha em que há Zorbás, ele ilumina a vida e o mundo teórico do intelectual protagonista - que se torna seu grande amigo. Toda vez que Zorbás narra algo do passado (sob muita insistência do intelectual) leio as folhas como se estivesse no deserto e alguém me oferecesse uma jarra de água fria.

 Acabo me identificando muito pouco com Zorbás, como o despertar dele, que é lento e só acontece após um bom café, assim como eu. E me sinto mais identificada com o mundo teórico e metafísico do intelectual. Por exemplo, quando o intelectual não consegue conceber o sofrimento na carne, o transforma em ideia, o fragmenta em filosofia e o dispersa. Captura a riqueza da realidade e a aprisiona na própria mente. 

 Eu queria sentir, mesmo, o prazer de Zorbás em comer, beber e viver - que sei bem que vem com a consequência da dor que o intelectual não consegue suportar.

 É um enorme prazer estar conhecendo Zorbás.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um alien no Brasil

 Viajava pela galáxia quando sentiu sono. Avistou um planetinha aguado, pequeno, mas com terra suficiente para um pouso seguro. "É o que tenho para hoje", pensou. Desviou, então, de uma luazinha esburacada e entrou na atmosfera. Sentiu vontade de espirrar, mas não podia tirar nenhum dos oito olhos do volante, motivo pelo qual pressionou as antenas com seu quarto dedo polegar opositor - é por lá que espirrava. Pousou em uma pequena cidade do interior, ligou o pisca alerta e tirou um cochilo de 273 dias terráqueos. 

 Acordou desconcertado, acelerando o passo, religando as engrenagens. Precisava entregar o zinco e tinha apenas novecentos anos para chegar até o outro lado do universo. Não dava tempo pra nem mais um café. Ligou e alçou voo. Teria que sair devagar - na velocidade da luz, bastava. Andaria na maciota porque o propulsor ultrassônico tinha sido furtado há duas galáxias atrás. "Se ainda o tivesse, chegaria em 30 anos!". Meio sonolento, demorou para notar que a paisagem não se alterava. Tentou subir com o segundo motor de arranque, mas logo se espatifou no chão, caindo da poltrona com o baque. Suspirou, então espirrou, limpou a antena na camisa e pensou que talvez fosse alérgico a oxigênio. Foi ajeitar-se para descer da nave, talvez um galho preso no bico de escapamento. Arrastou-se, colocou o capacete, abaixou a tampa enferrujada da caçamba e desceu os degraus.

  Três engenheiros caíram da abertura, com seus maçaricos. O Prefeito arregalou os olhos, apoiou o braço na assessora. A assessora permaneceu firme. Celulares e mais celulares apontados para a comporta. Mais de vinte mil lives transmitiam um genuíno alienígena aparecendo em terras brasileiras. Havia uma quermesse. Os espetinhos queimaram. Copos de cerveja foram derrubados. Oitocentos e trinta e uma pessoas colocaram as mãos sob suas armas. Os vereadores boquiabertos. O mundo parou por dois segundos. O alienígena também. 

 Ele tentou fechar a porta. Tarde demais. O prefeito já chamava a equipe de marketing. Punha o pé direito na plataforma. Trazia um sorriso no rosto. Falava em códigos. O som saía de um buraco no meio de um rosto. O alienígena nunca havia visto algo tão feio, tão de perto. E ainda cheirava à cebola!

 A assessora atrás, tomando nota. Lhe assustava mais o desemprego que aquela coisa desengonçada e cheia de olhos. Na internet já lhe chamavam de polvo com dedos. Disseram as notícias "finalmente conhecemos o Bilú!". A oposição já rascunhava argumentos políticos. 

 No Japão, um criativo pensava num enredo para anime. Steven Spielberg mandou agentes para capturarem com câmeras de alta resolução. Uma das mulheres da plateia se apaixonou imediatamente. O nome 'Etevaldo' disparou no IBGE, ultrapassando Enzo e Valentina. 

 Um homem compôs uma letra de funk, quatro duplas sertanejas goianas adaptaram a canção, trocaram "buscar conhecimento de fumo com Bilú" por "Descer pra buscar conhecimento em BC com Bilú", mas o arrocha é que, efetivamente, embalou as danças no TikTok.

 Agora, Bilú tinha nome. Foi alvo de grandes debates filosóficos. Viajou pelo mundo sendo estudado. Pensava que seriam boas aquelas férias. Foi ficando fluente em português, mas não conseguia falar, seus dedos não seguravam caneta, então ficava ali em silêncio enquanto recebia visitas de figuras importantes em sua nave. Um influenciador digital explorou a nave, a lei da proteção extra-terrestre foi fruto de discussão no Senado. Ganhou um carro alegórico no carnaval carioca. Passou o verão em Trancoso com artistas e influenciadores. Apesar da moeda corrente ser o real, sempre lhe cobravam em dólar. No Rio, os ambulantes lhe chamavam de gringuex. Comeu pão-de-queijo em Minas Gerais. Experimentou tereré no Mato Grosso do Sul - achou amargo. Gostou, mesmo, é do açaí.

 Foi a um programa de auditório. Gravou clipes musicais de Trap. Teve duas namoradas. Uma lhe ensinou samba de gafieira. A outra, abriu para ele as redes sociais. Bancos se digladiaram para que Bilú tivesse uma conta-corrente, queriam que fosse ali feito o primeiro PIX. Publicitários já preparavam piadocas com parcelamentos no crédito. Não houve sucesso na abertura da conta, faltava à Bilú um CPF.

 Sem documentos, sem origem conhecida, os cursos de Direito preparavam pós-graduações sobre direitos inumanos, para definirem se Bilú era ou não era coisa, a quem pertencia e se alguém poderia ser preso por homicídio contra extraterrestres. O Detran refletia se multava a nave, o IBAMA, se protegia o habitat. Mecânicos se perguntavam como poderiam fazer um Fiat Uno voar. Xuxa Meneguel gravou stories por lá, atrapalhando duas potencias mundiais de sequestrá-lo.

 Ganhou uma barriguinha pelos excessos e foi convidado por marombeiros para passar por uma transformação física a ser acompanhada pelo YouTube. Sem sucesso. Gostava muito de açaí e fingia incompreensão quanto a esse ponto da ficha da dieta.

 A Elite parou de visitar Bilú depois que a classe média conseguiu passagens aéreas para turistarem na nave. A classe média parou quando programas governamentais permitiram o acesso via ônibus pela classe D. O dono do lote procurou os advogados, o tempo estava propício e precisava plantar soja. Os movimentos sociais defenderam a estadia de Bilú. A nave era muito pesada para os guinchos da execução judicial. E Bilú, que já tinha um laranja, seu empresário, fugiu de diversas execuções por danos materiais contra o produtor rural.

 O empresário laranja lhe vendeu um Peugeot 207 por quinhentos e sessenta mil reais à vista - o que Bilú achou boníssimo negócio. Entrou no sedã com certo orgulho por ter feito o empresário de otário.

 As visitas cessaram. Ano de Copa e só se falava de hexa. Bilú já estava sem tempo, mas aprendeu a não ficar ansioso por meros quinze minutinhos a mais. Decerto o patrão relevaria. Retirou o motor do carro e finalmente conseguiu voltar a ter um propulsor ultrassônico funcionante. "E por uma pechincha!", pensou.

 Partiu da atmosfera ouvindo Dominguinhos na JBL.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A arte de recordar

 A vida é tênue, frágil como... 

como aquele...

aquele negócio de neve. Grão? Não é não.

Onde já se viu grão de neve? É redondinho e geométrico.

Eu nem sei quantas formas tem. Cada um vem de um jeito.

Derrete quando paira do céu e cai no dedo.

Está em todas as decorações de natal brasileiras...

Não sei por qual razão, o natal daqui é quente, quente.

Definitivamente não é grão. Grão é de areia, de arroz, mas não de neve.

No momento, a vida é um grão de areia no shorts de praia...

Deixa pra lá essa analogia.

...

Não consigo pensar em outra coisa! Que ridículo.

Neve. Nevasca. Pense gelado. Vamos lá...

Bolotinha de neve?  Santo deus! É um negocinho meio translúcido.

E não é grão!

Pão de neve?

Nevinha?

Nevita?

Ah, esquece! Segunda tem Fla x Flu.

No Brasil nem neva. Diabo de analogia.

Vou é assistir comendo um pote de sorvete.

Sorvete de flocos.

Floco!

A vida é um floco de neve. Amém! 

Mas por que, mesmo?

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Pq?

 Só me sentirei verdadeiramente adulta quando não precisar pesquisar os quatro porques: por que, porque, por quê, porquê. Esse é o ritual de passagem que defini há não sei quantos anos... talvez, desde que descobri que "há" não significa só "existir", mas também tempo decorrido. Talvez, antes ainda, quando achava que era ezistir. Som de zê, deveria se escrever com zê, oras! Se não sei minha língua materna, sobre o que sei da vida? Nada. 

 E foi com essa reflexão em mente que declarei meu primeiro Imposto de Renda:

Pq?