O uso desenfreado de IA transformará o mundo jurídico em chão de fábrica e a justiça num produto insosso. Do que é feito? Não saberemos dizer. O problema parecia, antes, apenas do Judiciário. Mas os olhares devem se voltar, agora, ao profissionais juramentados da instituição sui generis da Ordem dos Advogados do Brasil. E não somente àqueles que escondem prompts entre argumentações jurídicas, não só aos que fabricam jurisprudências para benefício próprio. É para o rumo que estamos, todos nós, operadores do Direito, tão silenciosamente tomando.
O que é vendido (sob muito alarde) por desenvolvedores como vantagem é o potencial assassino da justiça. O desenvolvedor nos entrega a ferramenta como se a Lei pudesse se conformar como a matemática. No mundo pratico, no entanto, 1+1 nem sempre é 2. A solução não é a média de decisões coletadas. Caberia aos operadores do Direito manterem isso em mente. Atenção: ca-be-ri-a.
Por mais que queiramos, não apenas como profissionais, mas como cidadãos, que a lei seja previsível, a industrialização da Justiça, tal como está, produzirá um só tamanho que não servirá para todos. O Judiciário brasileiro poderia perder a fama de apático e moroso com o uso inteligente e ético das IAs, mas não é esse o rumo que estamos tomando. A IA deve ser o que é: uma potente assistente. Ela é capaz de reduzir burocracias para nos fornecer tempo para o uso da razão. Uma razão feita por humanos e para humanos. Veja bem, o homem ainda é a medida de todas as coisas. O homem muda, as coisas mudam - justamente o extremo oposto da estática homogeneizada oferecida por essa lógica capitalista de hiperprodutividade e maximização de lucros que tão triunfantemente nos domina.
A injeção de prompts para ganho próprio em argumentações jurídicas, a fabricação de provas e de jurisprudências e a análise integral de processos por autômatos amorais - tudo o que pode sujar a coleta de dados das bases de múltiplas IAs atuando sem supervisão humana - são apenas a ponta do iceberg do problema ao qual os operadores do Direito estão frenéticos para aderir. E, mesmo que a IA de fulano ou de beltrano possua uma ética, por quem essa ética foi programada?
A coleta de dados do futuro, será uma batalha política. Prompts serão as armas de guerra. Dados sujos por interesses escusos. Se por bem ou por mal? Mal de quem, bem de quem? Homens apáticos aceitando os resultados dos céus algorítmicos. Seja feita Vossa Vontade! Amém.
Não é a bussola que nos conduz, nós que a conduzimos. Os homens não podem se afastar do controle do próprio destino. Os homens são plurais, tal qual seus conflitos. A Justiça é parte da nossa caminhada desde tempos imemoráveis. A justiça foi nosso algoz, nossa proteção e nossa irrevogável responsabilidade, não um deus que caminhou acima das gentes. A justiça exercida à nossa revelia não é justiça. É uma gestão algorítmica de conflitos.