__Rascunhologia__
Talvez você retorne aqui e todos os textos tenham sumido ou note que as palavras foram trocadas e o sentido de um poema, de um texto, de uma frase, de um aforismo foi totalmente invertido. Aqui é RASCUNHOlogia, não Definitivologia.
domingo, 25 de outubro de 2026
Estranho
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Não sujo meu batom fumando apenas um cigarro
Chão de Giz é uma composição velha e popular. Ouvi muito cedo, quando não entendia nada do mundo. A letra era um mistério. Sabia que ouvia algum segredo. Algum, bem do bonito. Não beijar só para gastar batom... Lindo! Gastei muito, até entender que às vezes não nos falta gramática, nos falta experiência.
Lembro bem, ali nos vinte anos, quando a vitalidade é abundante, que buscava eletrizante alguma festa que realmente fosse digna de ser assim chamada. Como era raridade, me contentei com muitas sarjetas e aceitei me encaixar em grupos estranhos a mim. Não me arrependo. Custa energia me arrepender.
Sou bem mais recatada do que fui. Minto. Sou uma aloucada que está em modo de hibernação. Atualmente, em dieta, restringindo-me, abraçando a resiliência, a disciplina. Quando me oferecem um trago de fumo, um gole de cerveja, um drink fraco... Não, não é o que quero. Não é um convite para um brinde que me religaria.
Certa vez, fumei dois maços de cigarro barato numa noite só. É isso que quero. Quero dez. Quero me tornar tabagista. Sem volta. Não aceito um copo de cerveja quando prefiro whisky. Sem gelo. Quente. Nem mais uma festa de noivado. Quero quarenta e oito horas naquela rave psicótica em meio à terra árida. Sem hora para voltar. É frustrante cometer meio pecado quando o karma vem à vista. Isso que aprendi.
Vejo minha bagunça. Sou bagunceira. Endireitá-la me exigiria muito. Aceita a proposta, me entregaria até as cinzas. Ainda tenho muito da minha intensidade. Só durmo com o silencio e a escuridão de um túmulo. Só tenho raiva do que posso esganar. Não me dispo mais sem intenção. E, se a ocasião me exige moderação... Não, não quero. Passo. Deixe que dou conta dos meus limites.
Hoje entendo o Zé. Se não posso me entregar completamente, o coração bate à meia-luz.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
O deus que caminha acima das gentes
O uso desenfreado de IA transformará o mundo jurídico em chão de fábrica e a justiça num produto insosso. Do que é feito? Não saberemos dizer. O problema parecia, antes, apenas do Judiciário. Mas os olhares devem se voltar, agora, ao profissionais juramentados da instituição sui generis da Ordem dos Advogados do Brasil. E não somente àqueles que escondem prompts entre argumentações jurídicas, não só aos que fabricam jurisprudências para benefício próprio. É para o rumo que estamos, todos nós, operadores do Direito, tão silenciosamente tomando.
O que é vendido (sob muito alarde) por desenvolvedores como vantagem é o potencial assassino da justiça. O desenvolvedor nos entrega a ferramenta como se a Lei pudesse se conformar como a matemática. No mundo pratico, no entanto, 1+1 nem sempre é 2. A solução não é a média de decisões coletadas. Caberia aos operadores do Direito manterem isso em mente. Atenção: ca-be-ri-a.
Por mais que queiramos, não apenas como profissionais, mas como cidadãos, que a lei seja previsível, a industrialização da Justiça, tal como está, produzirá um só tamanho que não servirá para todos. O Judiciário brasileiro poderia perder a fama de apático e moroso com o uso inteligente e ético das IAs, mas não é esse o rumo que estamos tomando. A IA deve ser o que é: uma potente assistente. Ela é capaz de reduzir burocracias para nos fornecer tempo para o uso da razão. Uma razão feita por humanos e para humanos. Veja bem, o homem ainda é a medida de todas as coisas. O homem muda, as coisas mudam - justamente o extremo oposto da estática homogeneizada oferecida por essa lógica capitalista de hiperprodutividade e maximização de lucros que tão triunfantemente nos domina.
A injeção de prompts para ganho próprio em argumentações jurídicas, a fabricação de provas e de jurisprudências e a análise integral de processos por autômatos amorais - tudo o que pode sujar a coleta de dados das bases de múltiplas IAs atuando sem supervisão humana - são apenas a ponta do iceberg do problema ao qual os operadores do Direito estão frenéticos para aderir. E, mesmo que a IA de fulano ou de beltrano possua uma ética, por quem essa ética foi programada?
A coleta de dados do futuro, será uma batalha política. Prompts serão as armas de guerra. Dados sujos por interesses escusos. Se por bem ou por mal? Mal de quem, bem de quem? Homens apáticos aceitando os resultados dos céus algorítmicos. Seja feita Vossa Vontade! Amém.
Não é a bussola que nos conduz, nós que a conduzimos. Os homens não podem se afastar do controle do próprio destino. Os homens são plurais, tal qual seus conflitos. A Justiça é parte da nossa caminhada desde tempos imemoráveis. A justiça foi nosso algoz, nossa proteção e nossa irrevogável responsabilidade, não um deus que caminhou acima das gentes. A justiça exercida à nossa revelia não é justiça. É uma gestão algorítmica de conflitos.
sábado, 3 de outubro de 2026
Pião de madeira
Os tempos são cada vez mais outros. Meu irmão queria de presente um pião de madeira para brincar. Peão de madeira? E ele: “É um pião de madeira.” “Onde?”, perguntei. “Na internet”, ele respondeu. “Mas aqui na cidade tem e não se paga frete.” E fui eu atrás de um pião de madeira.
Na loja de brinquedos tem de tudo, jogos de tabuleiro, skates elétricos e até óculos com fone de ouvido Bluetooth embutido. “Sem pião”, disse o vendedor. Noutra loja, o vendedor pensou que era um peão de rodeio. “É pião com i.” Passei em outras lojas; um vendedor idosinho me respondeu que isso era coisa velha. “Só pião elétrico, não quer?”
O mercado do pião de madeira entrou em queda; foi substituído pelo maior e mais luminoso Flash Light Spinning Pião Toy. Ele não tem corda, vem com um lançador automático e toca música enquanto gira. “Mas não é o que quero.” O vendedor orientou a tirar a bateria.
Os lojistas do camelô, um gritando para o outro, como se fosse aquela brincadeira de telefone sem fio: “Tem pião de madeira aí?”. Nada.
Cheguei numa outra banca de camelô. Ele, que já tinha ouvido a mensagem, já veio me adiantando que não havia essa mercadoria, que eu não deveria seguir perguntando por ali. Me orientou a buscar uma lojinha no mercado municipal.
Antes tinha tudo quanto é pião exposto em cestos, em todo canto, à venda a preço módico. Não era sequer para criança rica; criança rica brincava com plástico.
Pois chego na tal lojinha do mercado municipal e, lá dentro, muitos artesanatos de madeira, mas estava fechada. Na porta: vende-se esta loja.
Madeira, um metal e um barbante fazia crianças se interessarem por horas a fio. Para comprar, antigamente, era só solicitar um pião. Ninguém perguntava se era de madeira - a madeira era implícita. Quando foi a última vez que vi um pião de madeira? Na época em que ele não tinha adjetivo.