segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sísifo no RH

 Para obter recursos para sobrevivência e para o lazer, é preciso se submeter a certas coisas que só ficam toleráveis mediante certos valores modernos que fariam Aristóteles hiperventilar. A vida feliz no capitalismo exige o valor da ganância, coisa que eu não tenho. Eu não acho o valor ruim, aliás, preciso de um pouco disso para desandar para o sucesso. Ando incluindo na minha rotina uma parte para meditar sobre: o que quero para o futuro? Aonde me vejo daqui a 5 anos? Tenho plano de carreira? Qual o meu salário ideal? Não me julgue. Perguntas de RH são tudo o que sei sobre essa questão tão essencial à vida moderna, e são o caminho que encontrei para pensar sobre planejamento.

 Meu irmão caçula tem aulas, veja bem, de "Projeto de Vida"! Ele já sabe que existe um mar que não está para peixe aí à frente, e desde os 8 anos já está sendo programando para o futuro. Sabe onde aprendi a projetar a vida? Clube da Luta. Eu não queria ser o Narrador. Eu tinha uma ojeriza em me tornar um adulto mecanizado, classe-média, orientado ao trabalho, dopado por antidepressivos, assistindo TV, sozinha, no meu apartamento próprio e razoavelmente bem localizado em Los Angeles. Não! Pelo amor de Deus! Qualquer coisa, menos isso. 

 Em retrospecto, percebo que queria ser o Tyler Durden - mas não tem plano de saúde. Por quanto tempo vivi sob essa esperança de não ser um grão entre as massas e poder sair por aí dando socos e fazendo negócios ilícitos? Agora, pra lá dos 30, sinto como se fosse eu um bebê dando os primeiros passos na disciplina. 

 Disciplina é, justamente, robotizar-se, fazer o mesmo todo dia, é se incomodar em passar o natal com a família porque eu deveria estar fazendo um revisaço de Direito Civil. Penso que, com a ganância, com a vontade de ter mais, ser mais, mostrar mais, tudo isso serve de motivação para se manter ali, naquela rotina exaustiva de estudos, depois de 8h de CLT.

 Assisti a um vídeo de uma menina jovem adulta que estava aos prantos porque percebeu que não seria atriz e que teria que se dedicar a um emprego normal, o que mataria aquele tipo de sonho que deveria ter sido abortado, mas foi deixado para nascer com má-formação, aos berros do sofrimento. Já me vi no lugar dela, porém sem nenhum sonho. Zero. Mesmo. E por isso, na época dos meus vinte, eu nem consegui chorar. Chorar por perder quê? A liberdade de beber 12 litros de cerveja mensalmente? Fala sério...

 Um grande problema é que eu não vejo o labor como a parte da minha vida que me completará como ser humano, e muito menos penso nas minhas paixões como fontes de renda. O trabalho é só um meio para a finalidade de comprar lápis de cor profissional. Apesar de ser muito saborosa a sensação de ver minhas pinturas comissionadas circulando por aí, trabalhar diretamente com arte está muitíssimo fora do meu alcance, além do que meu timing já passou, com a vinda das IA's.

 Eu me aprumei na vida por não ter outra coisa a ser feita dela. Além disso, já estava entediada com a rotina antiga. Nos últimos anos venho tentando ter a tal da ganância, desenvolvê-la sem medo de ultrapassar a justa medida. Por indicação de um amigo, numa certa vez, colei o salário da carreira pretendida em frente ao meu campo de visão da mesa de estudos. Não deu certo. Tenho a sede de vencer de um afogado. O que anda dando frutos é pensar que um esforço aqui, me poupará, lá na frente, de passar tanto perrengue - e que, novamente, não há outra coisa a ser feita.

Dentro do possível, mentalizo que darei conta, sim, de administrar situações difíceis da vida, como a de me focar numa certa carreira, com suas responsabilidades e tal. E uma forma boa é pescar, na memória, situações em que consegui me safar por ser engenhosa ou espertinha. A confiança depende do percentual de acertos no site de questões. Ultimamente, baixíssima. Ando cansada, de um período de esgotamento físico, e me pego sonhando com gloriosos tempos de aposentadoria por idade que conquistarei.

Há que se imaginar Sísifo lendo o Vade Mecum. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

TV

 O mundo me foi apresentado pela tevê de tubo, antes do livro ter uma chance. Foi num canal chamado TV Cultura que descobri que eu era analfabeta, que existiam as ciências, que existiam cientistas que faziam mágicas com seu engenho e que o mundo era infinitamente maior. Ali que soube que tinha gente que dançava sincronizada, que existia sapatilha, bailarina, música clássica e instrumento musical. Eu não tinha nada disso no auge dos meus 5 anos de idade. Ou tinha, mas não notava. 

Foi a tevê que me fez notar a estante de livros, para além da estante. E por não saber ler, eu subia, pegava um livro, via a imagem, cheirava as páginas. Eu brincava com a caneta, fingindo escrever em letra cursiva, e torcendo para ter escrito algo, de verdade, por acidente. Mas eu mostrava meu eu lírico para o adulto, e ele só sorria e abanava. É... não foi dessa vez, eu pensava.

A ficção foi-me apresentada, também, primeiro com narrativas simples, personagens doces, éticos, nerds, curiosos, assim como eu queria ser. Mas que baita contraste comigo! Bem ao contrário do Smilinguido, eu perdia a paciência, mostrava a língua, jogava a chave da casa da vizinha no mato, beijava o meu coleguinha na boca, era egoísta, brigava com meu irmão, me desentendia com os moleques da rua, furtava remédio de tutti-frutti do armarinho de primeiros-socorros, quebrava os brinquedos para ver o que tinha dentro, comia sabão, caca de nariz e sentia inveja. Que horas que eu iria evoluir se levava bronca e surra todo dia? 

Os anos 2000 vieram, os canais mudaram, e tive acesso à MTV. Num primeiro momento, em que vi homens adultos com roupas de couro, maquiagem e todos aqueles sons estridentes das guitarras, eles me causaram um estranhamento enorme. Chocaram meu mundo. Percebi que as coisas poderiam ser diferentes, chamativas, contracultura, dramáticas e... legais. 

Foi algum acorde alto que me gritou o que, até então, eu não tinha percebido: os personagens monocórdicos de outrora, só eram possíveis naquele mundo ficcional preto e branco, em que as leis sociais eram rígidas como as físicas. Tudo era harmonioso e inalcançável! Nem sempre o adulto quer te ouvir, seguindo o roteiro da expectativa, nem sempre você não quer mostrar o dedo do meio para ele!

Quanto mais o rockstar era estranho, mais eu me esforçava para ultrapassar a estranheza, porque eu sentia (muito mais do que sabia) que neles habitava esse tanto de ódio que eu tinha. E como eram raras as representatividades de rebeldes nas novelas, nas séries e na vida! Eu os admirava tanto, que trabalhava com o material que me era fornecido. 

A certa altura acreditei que o estilo era a única alternativa a uma vida patética, no meio das massas. Se me punha à frente da TV numa sexta-feira chuvosa, o Matanza me vinha aos ouvidos dizendo que era deprimente, com tantas caixas de cerveja, barris de whisky, carne vermelha e cheiro de bagulho do outro lado do portão. "Vai ficar aí, mané?". E lá vem a memória de Bom é Quando Faz Mal tocando na maior altura, dentro da brasília dos pais de algum amigo.

Por um bom tempo, eu emulava aquela ideia de rebelde, com o que eu sabia da rebeldia. Só para testar. Só para saber a sensação de conviver amarrada aos meus defeitos e longe daquele medo do conflito, tão induzido nas criações femininas. Às vezes me colocava em perigo, às vezes em depressão - mas se me mantive naquele estilo de vida por tantos anos, é porque antes de ficar massante, era massa. 

Mas o arquétipo da rebeldia inconsequente chega a ser mais ingênuo que o das princesas encantadas. Primeiro porque depende do mundo inteiro sendo tolerante com os erros. Segundo, é que a raiva é sintoma de alguma esperança em ser. E nossos fígados só aguentam até um certo ponto. Há que haver um meio-termo! 

Não tem uma só versão anterior minha que não ficaria absolutamente indignada com quem sou hoje.  Puxa, quantos defeitos venho carregando de lá para cá! Quanta coisa deixei de fazer, planos que mudei, oportunidades que recusei, desafios que desisti. Estou entre as massas, não mudei o mundo. E esta sou eu, em toda a minha presença.

Consigo ver aquelas tantas caras decepcionadas através do espelho. Para algumas eu dou razão, para outras, o dedo do meio. As tevês morreram!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Little birds

Culpa e prazer, prazer e culpa. Essa é a segunda vez que escrevo algo sobre sexo que não seja uma piada ou um assunto muito sério e acadêmico que envolva violência de gênero. A minha primeira vez foi num poema que está perdido por aqui. A minha segunda vez é esta.

Há anos atrás li uma frase que dizia que a vergonha seria uma mentira que alguém conta para nós, sobre nós mesmos, assinada por Anaïs Nin. Um pouco de pesquisa: Autora de livros eróticos. Ora, pois nunca eu tinha lido um, e nem me interessava. 

Não me interessava por dedução. Quando se escreve sobre sexo, na maioria das boas obras literárias, ele fica ali mais de plano de fundo. Nas más obras: é o epicentro, usado como isca para manter o instinto primitivo do leitor concentrado para a próxima página. Usa-se muito como gancho para sustentar histórias ruins, ocultar erros nas construções dos personagens, é um tipo de truque que se desgasta rápido e fica entediante. Sim, já sei autor, agora ele engole a saliva, e ela o admira com medo. Daí que colocam vampiros de 200 anos sexualmente interessados na Taty, estudante de ensino médio do interior do Tocantins. Vão-se 10 tomos e ela ainda não sai dos 15 anos. Quem é o vampiro, afinal?

Mas a frase de Nin não parecia com as frases prontas dos livros da minha adolescência, me trazia algo de mais instigante. Ela escrevia contos eróticos, mas não só. Era uma poeta, também. E uma poesia boa, sensível, algo que a distinguia de outras autoras de livros de "fantasia". A curiosidade me seduziu. Li a versão em inglês disponível no Kindle, do livro Little Birds. Não vi se há versão em português. Com exceção de um texto ou outro muito bizarro e obviamente problemático (busco aqui não ser anacrônica), outros foram ótimos de ler. Sensíveis e sensuais de se ler.

    “It was a period of drunkenness, of blindness, of living only with the hands and mouth and body.” 

Na obra da Anais, o sexo é a história per se. Em Little Birds, ela aborda essa sensação misteriosa do autodescobrimento, sendo corajosamente explícita sem perder uma boa construção de contos, personagens críveis e humanos - é como se estivesse observando as memórias nostálgicas de alguém que encontrou o prazer e a libertação, que aproveitou a juventude longe da vergonha. É sedução com elegância, com um je ne sais quois: 

"There are women’s voices that sound like poetic, unearthly echoes. Then they change. The eyes change. I believe that all these legends about people changing into animals at night — like the stories of the werewolf, for instance — were invented by men who saw women transformed at night — from idealized, worshipful creatures into animals and thought that they were possessed.” (a. n.)

Aliás, a palavra "shame" aparece pouquíssimas vezes nos treze contos. É um livro bem pouca-vergonha. 

Anais me fez lembrar de um bom filme chamado 'O amante' (1992), que assisti há uns dois anos. É cultzão e serve a poucos gostos. Mas tem o sexo perfilando cada cena. Pois bem, zanzando pela internet descobri que se tratava de uma adaptação do livro, de mesmo nome, da romancista francesa Marguerite Duras. 

A leitura de 'O amante' foi saborosa. Duras é também uma autora explícita e poética, sensível e envolvente. Não senti ter lido um romance, mas um diário, uma reconstrução feita à base de memória inconstante, melancólica e saudosa:

"Durante séculos, os navios fizeram com que as viagens fossem mais lentas e mais trágicas do que são hoje. A duração da viagem recobria naturalmente a extensão da distância. As pessoas estavam habituadas a esses lentos ritmos humanos na terra e no mar, a esses atrasos, a essa espera dos ventos, dos céus abertos, dos naufrágios, do sol, da morte" (m. d.)

As duas autoras já se encontraram, colaboraram em projetos, e me parece que tiveram uma certa divergência artística. Após ler as duas autoras, sei bem a razão. É filosófica. Se Nin via no sexo o prazer da liberdade, Duras via o preço da liberdade. Uma era nostálgica, a outra saudosista. Diferenças cruciais e interessantes sobre como encaramos o nosso próprio instinto, nosso prazer, desejo e a cultura.

Acho que Duras acreditou mais nas mentiras que contaram sobre ela mesma. Nin, criou o próprio mundo para que não morresse no dos outros.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Autoflagelatoria

 Sempre me vem a vontade de escrever pela madrugada. Mas para escrever, preciso do meu notebook, do silêncio e da companhia da solidão. E tempo. Me vejo ocupando o ponteiro do relógio com outras mil coisas improdutivas. Ando consumindo muito: das compras de final de ano aos conteúdos da internet. Consumo. Consumo e consumo mais um pouco. 

 Alie isso ao fato que, por ver tanto, ouvir tanto, já não consigo lá bem distinguir algo que me inspire a iniciar uma digitação. E é por isso que não escrevo tanto. São múltiplos os fatores para não criar. Mas eis-me aqui. Escrevendo, vagarosamente, protelando para produzir. Produzir... Não... eu deveria estar pensando mesmo é em criar!

 Produzir tem dessa polissemia de trabalho, de capitalismo selvagem, de blockbuster. Como se pudéssemos quantificar a necessidade de autoexpressão numa cifra em dólar. Vira tudo uma alíquota ou algum outro termo mercadológico que nos permita precificar e comparar a produtividade de um artista em relação a outro. Acho que me reinfecto com esse vírus da produtividade quando me deparo com tantos bons textos, bons trabalhos, tanta gente tão melhor, em seu mínimo, do que o máximo que eu poderia ser. 

 Produção é coisa cansativa, desgastante, tem cheiro de burnout, tanto é que caio nessa procrastinação autoflageladora antes mesmo de colocar o pincel na tela. Me estressar tanto para não receber nem um mísero centavo? A produtividade artística com certeza sairá numa sequência de 'Sociedade do Cansaço': a 'Sociedade da Exaustão'.

 Algo que venho pensando há algum tempo é que criar é um privilégio. Mesmo que essa criação seja ínfima, ortograficamente questionável e esteticamente entediante. O artista não deve deixar a mão enferrujar completamente. O excesso de consumo talvez o faça entender que tudo que é preciso ser expresso já o foi. Não foi. Cada humano é feito de uma infinidade de sensações combinadas que são únicas, como as digitais do dedo anelar. 

 Nem sempre nos é possível chorar a lágrima de alguém; é preciso sentir a umidade na nossa própria pele, para que nos venha o suspiro do alívio. O amor, por mais que Neruda tenha apontado sua direção secreta, ali entre a sombra e a alma, talvez esteja no coração. Talvez mais à esquerda.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Vai indo a Dete, vai indo eu

 Já não fala nada com nada, os dentes postiços balançando na boca. O cabelo metade raspado, metade embolado - seria isso um erro crasso do cabeleireiro? É falta de habilidade para conseguir cortar os cabelos de uma idosa hiperativa caducando? Minha avó não soube me dizer. Só soube me dizer "É... o tempo tá passando. Vai indo a Dete, vai indo eu".

 Minha avó e suas tantas amigas Betes, Marlenes, Ednas, Suelis, eu considero com carinho, como se fossem minhas avós. Queria poder encarar esse futuro como essas mulheres. Elas vão mais a velórios do que a casamentos e já não cuidam dos netos, mas dos bisnetos. Umas amam ser viúvas, ou queriam ter ido com o marido, ou queriam que o marido se fosse logo... Outra nem sequer se lembra de ter casado. Literalmente.

 Elas estão enfrentando, mais ou menos juntas, desafios já conhecidos da terceira idade. Já conhecidos porque já estão nessa há tempo suficiente para saberem que os joelhos doem com a friagem e que omeprazol é uma vez ao dia. Criança chora mesmo, homem dá trabalho, e que só não há solução pra morte. Apesar de tudo, vivem com humor. E se não humor, com carisma... ou só vivem, que já tá bom.

 Uma ou outra amiga veio perdendo uns parafusos nesses muitos anos de vida que se empilharam e as que não, já estão bem cientes que possuem mais passado do que futuro. Desparafusadas ou não, reúnem-se para um tereré ou chimarrão, sentadas nas cadeiras de área. Falam da igreja, da célula, do passado, dos netos e daquela mulher ali passando na rua com aquele vestido esquisito. Ainda fazem suas apostas sobre o mundo espiritual: nos braços do Pai.

 A Dete perguntou mil vezes se minha avó quem cortou cabelo dela. "E eu lá sou cabeleireira, Dete?". E a Dete perguntou se a minha avó sabia quem tinha trocado o lençol da cama. "Ah, agora sou camareira?". E a Dete, confusa, sorri, e olha o movimento da rua.

 A Dete foi minha professora substituta por uns meses, quando eu estava lá no ensino fundamental e ela não tinha nenhuma manchinha no eletroencefalograma. Acho que foi ensino religioso. A aula consistia na leitura da bíblia para os alunos, mas para mim e ela: conversas fiadas. Ela chegava e eu já puxava a minha cadeira para a mesa da professora. Até hoje tento buscar sobre o que tanto conversávamos naqueles dois tempos de aula. E ainda voltávamos a pé, para casa, papeando sobre deus sabe o quê. Ah, se nem eu me lembro, quem dirá ela...

 A minha avó também tem as Marlenes. A cada interação que presencio fico entre anotar a conversa ou me entreter. Até hoje só me entretenho. Metade da fofoca eu nem entendo, não sei quem é Magali, filha do Salvador da loja de estetoscópios, mas o jeito que elas conversam me faz imaginar vividamente que a Magali seja magrela, esquálida, mas de um olhar bondoso e o Salvador alto, meio careca, pele bronzeada e gago. Era bondoso, porque o funeral estava cheio. Deve fazer bem conhecer gente que conhece gente que quase ninguém mais conhece. 

 Já diz a ciência que os bons amigos, casamentos estão ligados à longevidade - talvez tanto quanto a boa alimentação e o exercício físico. E fica provado que de nada adianta correr por 42km sem poder contar com amigos por 42 anos. Mesmo que com uns desentendimentos aqui e ali, isso é bom gerador de assunto. Não há árvore que pare em pé sem suas raízes.