quarta-feira, 15 de julho de 2026

Poetria XL

Esse é meu jeito 

assim é que sou

não faça estardalhaço

não corte o meu voo

me deixe quieta no meu canto

dance comigo o rock and roll

baixou a poeira, não se espante

vou bem por onde vou

se me persegue, não me alcance 

pare sozinho, desencane

que volto de onde estou

dou-lhe a mão num mesmo instante

veio a noite, hora do soul.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sorria, você está sendo filmado

 Não é que não haviam câmeras na minha época. Pelo contrário, havia muitas delas! Mas guardadas nos bolsos e gavetas. As de vigilância também eram incomuns. Só as pessoas mais ricas que eu conhecia tinham câmeras nas campainhas, mas mesmo assim era normalíssimo que as lentes estragassem e ninguém se lembrasse muito de consertá-las. 

 Nessa época, os comerciantes compravam câmeras de brinquedo e punham uma plaquinha logo embaixo informando "Sorria, você está sendo filmado", para pôr medo nos mãos-leve da cidade. Não sei se no Brasil todo, mas no interior era assim. E não é porque as pessoas tinham menos medo - e estava ali a indústria das câmeras de mentirinha para provar meu argumento. A questão é que era caro ter sistema de segurança. Era caro ter câmeras. Finito.

 Hoje, olho em volta e há câmeras em todos os lugares, em todas as salas, os comércios, casas, terrenos baldios. E a plaquinha pedindo nosso sorriso está rara. Certa vez, vi uma câmera envolta numa grade de ferro. E já vi sistemas de câmeras filmando os próprios sistemas. A segurança precisando de segurança... 

 Os olhos biônicos não se limitam aos prédios: existem câmeras pequenas embutidas em óculos, relógios, até anéis. A tecnologia dos espiões foi tão democratizada que nem sei o que resta para a profissão deles. 

 E atualmente tudo é muito inteligente. Geladeiras, fogões, cadeados e câmeras de segurança inteligentes que possuem detecção de rostos. Lembro de assistir CSI: Nova Iorque e pensar que nada disso seria possível, mas é! A China ta aí para embasar meu argumento. Onde a gente vai, é registrado e armazenado num banco de dados.

 A rua da minha casa, cheia de viúvos, foram-se os cônjuges, vieram as câmeras. Acho que foi em 2018 a última vez em que saí seminua de casa para estacionar meu carro, sem o menor receio de ser vista. Tem uma outra rua que, lá em 2009, eu e meus amigos apostamos corrida, de calças arriadas, mas que hoje também está toda vigiada. 

A três ruas daqui, beijei uma menina, na minha fase de bissexual festinha, e sei que nada daquilo foi visto por ninguém. Numa avenida, troquei beijos com um ficante da escola, matei aula numa esquina, fumei um baseado no terreno baldio no final da cidade e já dancei inúmeras vezes enquanto fugia de casa para encontrar a Mari. E adivinhe só como estão essas ruas hoje? Câmera. Câmera. Câmera. E mais câmera!

   Lá em 2010, quando eu, o Gordo e o Caveira fomos acender um cigarro numa sarjeta deserta, que o Gordo chamava de "Pico da Lua", fomos parados por policiais à paisana. Naquele dia, me recordo bem, achei que tínhamos atingido o apogeu da hipervigilância. Lembro de pensar que nunca estivemos realmente livres para fazermos o Nada, parados, num lugar incomum. Sempre temos que ter uma justificativa para o nosso próprio comportamento. E só de pensar que aquela abordagem não representa 1/3 do que vivemos hoje...

 Para sentir algum tipo de liberdade, gosto de comprar um lanche, um refrigerante, parar meu carro num lugar mais escuro, e ficar vendo a humanidade passando pra lá e pra cá. Ou vou num canto mal iluminado, no final da cidade e fico vendo o nada, fazendo nada, comendo batata frita com a perna esticada no painel. Dentro do carro. Trancada. 

Há dias em que vou de bicicleta. À noite. No escuro. Desafiando minha ansiedade para matar a saudade de deitar na grama e olhar pro céu. Saudade daquele tempo antigo das câmeras de brinquedo. É preciso aproveitar, antes da instalação das lâmpadas de Led públicas. Drones de policiamento serão uma realidade? Quem sabe? A lua segue límpida no céu.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Brasil e Japão

 Ao invés de assistir ao jogo, prefiro acompanhá-lo pela janela: vuvuzelas, os pulos de alegria, Vai Vini!, É o Casemiro! Com a vitória, sei que vou sentir cheiro de churrasco saindo de todas as casas. 

As pessoas estão em casa, vibrando pelo futebol brasileiro. Consigo ouvir os papos, a movimentação dos carros. Vi que a companhia de internet está trabalhando incansavelmente para recuperar cabos de internet que foram furtados na noite de ontem. Os coitados, com o uniforme da seleção, suados, temem que eles mesmos percam a transmissão. Os ladrões, talvez, sejam as únicas pessoas sem fé no hexacampeonato.  

Sentada em silêncio, posso ouvir homens e mulheres gritando, como se fossem eles próprios os donos da bola. Por baixo das cadeiras de plástico, sei que chutam o ar, viram o tronco, cabeceiam, alguns quase arrancam os poucos cabelos que tem.

Um grande silêncio repentino, sei que o gol não foi nosso, mas do Japão. O brasileiro está espantado e receoso, e assim permaneceu por trinta minutos. 

Ouço um uníssono "uuuuUU!" se agudando, e sei que o gol foi quase nosso. 14h18, e a alegria se derramou pelas ruas da minha cidade. Quem assiste pela TV gritou depois de quem assistiu pela internet e o efeito sonoro veio subindo a Avenida feito uma onda.

 Mais um gol, e um daqueles! Feito em tempo de prorrogação. Aplausos, gritos, fanfarra, tambores. Mais uma esperança me é trazida pelos ventos: será que vem mais um? Não veio. Apita o árbitro lá no campo, apitam os árbitros de suas casas: é fim de jogo. Vitória! Uns torcedores buzinaram pela praça, outros retornaram à labuta mais felizes que antes, assoviando que a Taça do Mundo Será Nossa. 

Os técnicos de internet respiram aliviados - os ladrões, também.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Poetria XXXIX

Amo intensamente com o freio de mão puxado

Meu bem, só me afogo onde dá pé

Caio de cabeça no almofadado

Se preciso for, dou ré

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Estou lendo o livro "Zorbás, o grego" de Nikos Kazantzakis

 Ele nasceu velho e foi se rejuvenescendo. Tinha mais energia e liberdade aos 60 anos do que aos 18. Provou dos prazeres da carne e se satisfez: Vinhos, mulheres e o trabalho. Vê o dinheiro como asas para voar, por isso o trabalho. É uma personalidade peculiar. Resumi-lo é um trabalho árduo, por isso o autor resolveu escrevê-lo em trezentas e tantas páginas.

 Zorbás: a primeira Manic Pixie Dream Girl. Porém homem, velho e másculo. Retira o protagonista intelectual do mundo metafísico e o faz invejar quem vive guiado pelos sentidos. Dualidade entre carne e espírito é unificada no corpo e mente de Zorbás, um homem que vive o corpo de alma inteira e a alma de corpo inteiro. Tudo nele é matéria. Homem prático, carnal e livre. Homem simples, iletrado, mas engenhoso e empático. 

  Ao mesmo tempo que Zorbás entende que o mundo tem lá sua ordem e as pessoas seus próprios vícios, ainda assim não deixa de desvirtuar monges e desvirginar mulheres. Ele percebeu que ele é livre e, razoavelmente, senhor de seu destino.

 Experimentou as teorias filosóficas empiricamente - e totalmente, completamente, caindo de cabeça em cada uma delas. Caiu de cabeça no patriotismo ao entrar para a guerra. Já foi sério e rigoroso. Já tirou os próprios cabelos para fazer um colar de santa para carregar no peito. Zorbás já fez crueldades pelo que acreditava, mas não se vê como cruel. 

 Zorbas fica num agnosticismo curioso: Entre não crer em nada e crer que há um Deus que é também o próprio Diabo. Acha que os humanos não aguentariam terem surgido de um ser parecido com suas vergonhas. Tem sua própria teologia. Respeita os rituais como cristão tanto quanto os pecados, como um endemoniado. Já quebrou os dez mandamentos e queria que houvessem mais para que mais quebrasse. E mesmo diante de tudo isso, ainda é um uma fera bondosa. Não quer que a vida acabe, mas com a morte não se faz malandragem. No entanto, isso não o impede de tentar. Então ele dança, toca, canta, usando todo seu vigor para experimentar cada segundo mortal.

 Extrai da comida a energia para acordar bem, do vinho para rir mais e do trabalho árduo e focado para conseguir todo o resto. Das mulheres, não extrai nada, só se entrega. Gosta de ser namorado, namorar, agradar, mas não de ficar preso. Conta que tinha um vício em cerejas, roubou dinheiro do próprio pai, comprou um saco de cerejas, comeu-as toda até enjoar. Mas das mulheres, não, não consegue largar.

 Zorbás vê as mulheres em sua essência, ele é entorpecido pelo feminino. Por vezes as vê como ninfas ingênuas, às vezes como demonios. Vê suas carnes, os seios alvos, os quadris remexendo nos vestidos, os seus sexos, mas também as vê em essência de mulher. Diz que Deus criou o matrimônio, a santidade e as mulheres feias. Tem dó das mulheres, tanto das feias quanto das bonitas. Vê as crenças materialistas delas, enxerga sua necessidade de afeto, carinho e atenção com uma curiosidade quase alienígena. "Mulheres são humanas?" - é algo que ele se pergunta. Pra ele, humanos querem ser livres, mas as mulheres querem se prender ao romance. E aí, são humanas, mesmo? Nenhuma mulher foi mostrada na inteireza da própria personalidade. Mas isso porque não é Zorbás o autor - ele é o único personagem cuja personalidade é objeto de estudo e de admiração.

 É um grande homem. Faz o que pensa e pensa o que faz. Toma a decisão de seus sentimentos. Se precisa chorar, chora. Deprime-se, irrita-se com as crueldades do mundo. Recolhe-se ao próprio íntimo quando ferido. E acorda e ri muito alto. Canta e pula até cansar os joelhos. É um homem de carne e osso.

 Há uma grandiosa diferença em toda folha em que há Zorbás, ele ilumina a vida e o mundo teórico do intelectual protagonista - que se torna seu grande amigo. Toda vez que Zorbás narra algo do passado (sob muita insistência do intelectual) leio as folhas como se estivesse no deserto e alguém me oferecesse uma jarra de água fria.

 Acabo me identificando muito pouco com Zorbás, como o despertar dele, que é lento e só acontece após um bom café, assim como eu. E me sinto mais identificada com o mundo teórico e metafísico do intelectual. Por exemplo, quando o intelectual não consegue conceber o sofrimento na carne, o transforma em ideia, o fragmenta em filosofia e o dispersa. Captura a riqueza da realidade e a aprisiona na própria mente. 

 Eu queria sentir, mesmo, o prazer de Zorbás em comer, beber e viver - que sei bem que vem com a consequência da dor que o intelectual não consegue suportar.

 É um enorme prazer estar conhecendo Zorbás.