quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Assisti Hamnet para que você não assistisse

  Hamnet. Filme premiado, conta sobre o casamento de Shakespeare e Agnes, imaginado por uma autora tal aí, que inclusive participou da elaboração do roteiro. E quem é que foi escalado para representar justamente um dos maiores gênios da literatura? Mescal.

 Paul Mescal. Um ator sem variedade emotiva. Só sei que ele sente satisfação com atuação por sempre estar envolvido numa produção nova. De fato, ele não me prometeu nada e entregou-me exatamente o prometido. Transfigurou Shakespeare num homem performático. E a cena em que ele recita 'to be or not to be' foi escrita para ele, pelas mãos do próprio diabo.

 Tudo piorou quando Agnes o chama de "Will". Não se fala o nome dele por várias cenas, para dar ênfase ao momento em que ela finalmente o chama assim. Will... Will?! Essa aí foi para fazer algum espertalhão no cinema dizer à acompanhante entediada: "É Will de William Shakespeare™." 

 Aliás, a chuva de referências cultas em meio a cenas nada a ver, para fazer o espectador se sentir inteligente porque reconheceu que tal frase é de Hamlet, tal outra de Macbeth, tira totalmente a concentração de uma atuação já aparvoada.

 A história é estupidamente moderna. Poderia sequer ser sobre William Shakespeare. Poderia Will ser de Wilson John Von-Middle Class of America. Restringe toda a belíssima criatividade do escritor a um drama de núcleo familiar.

 Para tentar - tentar - tirar algum proveito da atuação - leia o 'a' de atuação, como prefixo de nada - Agnes precisa lembrar a audiência sobre o quanto o pamonhola do Will é bom, como é maravilhoso, tal qual uma esposa abandonada tenta elogiar o ex tóxico para as amigas. 

 Eles discutem como se fosse uma rom-com, mas usando inglês arcaico. Como vou acreditar que um Zé-Nadinha daquele é um gênio da literatura mundial? Deus! Se alinhe, homem!

 E se Will é um personagem cansativo em razão do ator, Agnes foi uma personagem ruim interpretada por uma excelente atriz. 

 Agnes é, basicamente, uma jovem mística. Esse casal eu já vi na rua: um performático de mãos dadas com uma jovem mística. Enfim. Ela foi escrita para ser esse estereótipo da mulher livre - por falta de criatividade de se escrever uma mulher com personalidade.

 Agnes não tem nada de muito interessante, por isso lhe deram um falcão como pet. E modulam sua inteligência ao bel prazer da cena. É normal que o QI varie em alguns pontos percentuais, mas o de Agnes... Ora ela entende o mundo de uma forma intuitiva e mágica, ora acha que um palco de teatro é a realidade.

 Sobre Hamnet, escalaram a criança com a maior cara de dózinha e disseram: aumente em 100x a sua ingenuidade. Acontece que naquele século, a ingenuidade findava aos 5 anos, porque aos 6 a criança já precisava pagar IPTU. Olha, não dá para crer numa criança de 11 anos tão bebezinha nem mesmo hoje, quanto mais em 1500!

 A direção é sofrível, a tal ponto que chega a ser cômica. Por falta de carga dramática, alongaram as cenas tristes.  Dez minutos vendo uma criança se contorcer de sofrimento, em algum momento, nos faz produzir uma lágrima.

 E a fotografia do filme? Simples como os personagens. Com exceção da famosa cena do teatro shakespiriano, todo o resto é pálido. Parece-me que tinham apenas essa cena em mente quando produziram o filme. Todo o resto foi só um estofo.

O filme nos apresenta uma história que pretende ser profunda, um Shakespeare genial, uma Agnes livre, um Hamnet puro e doce. Mas são todos ocos. O filme nos diz: admire o gênio; emocione-se; sinta ternura.

 E senti foi é ódio.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Dois stalkers se apaixonam

**

Sabem mais um do outro, 

que casais em bodas de ouro. 

Ela gosta de comer carneiro, 

ele foi à academia no sábado

Ela gastou duzentos reais no mercado 

e ele, trezentos, de delivery

Um único toque - um esbarrão calculado

Teve mais erotismo que todo sexo livre

Sobre os raros contatos visuais, 

preciosos, sagrados e vitais! 

Seguem-se com tanta fissura, 

reciprocidade parece loucura.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fora do enquadramento

 Esteticismo é um movimento filosófico que busca o belo, supremo, através das formas e cores, dos sentidos e das experiências. Ignora a moralidade, o utilitarismo e a política - ou seja, todas essas forças invisíveis que conduzem as ações humanas. A beleza está onde a vista alcança, afinal. E foi Oscar Wilde que me convenceu que a filosofia da estética é a forma mais elevada da futilidade. 

 Para escrever sobre o livro do Wilde, pensei em várias opções: detalhar, de forma bastante reflexiva, pesquisada e aprofundada sobre o esteticismo, ou prestar-lhe reverência ao me apegar às aparências. Opção b, então.

 É muito interessante como a literatura põe a filosofia em exercício. Em 'O Retrato de Dorian Gray', o jovem, belo, rico e inocente protagonista se percebe ao ver seu próprio retrato. A pintura foi feita de forma romanesca, pelas mãos e coração do pintor Basil Hallward. O amor, romântico, mesmo, apaixonado, deslumbrante, de forma sobrenatural, capturou o supremo belo: Dorian.

 O retrato não foi visto só pela musa e o artista, mas também por um personagem muito curioso, a quem muito me identifiquei, Lord Henry. Ele é uma peça central na influência sobre a psiquê de Dorian. É um falastrão, cínico, que se diverte muito ao argumentar ideologias. Um dos primeiros (dentro de muitos) monólogos do Lorde, fala justamente sobre o poder da influência que um ser exerce sobre o outro. 

 Henry é um personagem que destrincha diversos assuntos no decorrer do livro, e ele exerce influência não só em Dorian, como também no próprio leitor. Me flagrei concordando até mesmo com misoginias.

 Lorde Henry, por diversão, é como o verniz do retrato. Apresenta fatos que pesam na delicadeza da inocência psíquica de Dorian. O persuade acerca da brevidade da juventude, da necessidade de se viver o presente, de não remoer o passado ou ansiar o futuro. A vida é bela e tudo que é ruim deve ser sobreposto por algo melhor. Nada deve ser enfeiado, quando pode ser embelezado. Para ele, Dorian é essa representação: é perfeito, tal qual o retrato pintado por Basil, e quer conservá-lo assim.

 Dorian se depara com seus próprios privilégios, com sua beleza e é atingido pelo chumbo da influência. Sente-se ansioso e angustiado com o fim da breve juventude e inveja, com muito afinco, como a pintura do quadro nunca envelhecerá. 

 O criador, sua musa e um crítico. Os amigos vislumbram a pintura. Num rompante de raiva, Dorian deseja trocar de lugar com o quadro.

 E ele troca. 

Após cometer o seu primeiro pecado.

 Enquanto o retrato se amaldiçoa, sujo de pecados, Dorian passa seus dias com o vigor da juventude e com o Karma de um santo. Nenhuma responsabilidade o afeta: quebra corações, embosca amigos, vive egoisticamente. Nada acaba com sua felicidade de ser e de estar. Sua vida se torna a sua obra de arte, e a obra de arte se torna uma vida: que envelhece, toma as consequências, enfraquece e morre.

 O trato entre Dorian e a pintura é firme. Mas ele teme e esconde o quadro. Ele se envergonha das chagas, mas quando vai espiar seus pecados, sente triunfo por ser mais bonito, rico e livre que aquela tinta toda. E o furor da vitória sobre as consequências vai aumentando junto com a vergonha de expor a pintura para qualquer olhar, que não o próprio (talvez nem o próprio).

 Algo que me chamou atenção, na obra, é que muitos dos pecados de Dorian foram escondidos dentro de vários capítulos. Várias páginas são dedicadas para descrever todas as coisas bonitas compradas e experienciadas e vistas pelo jovem. Daí fiquei me perguntando onde está o pecado em possuir tapeçarias, instrumentos musicais e viagens? Até que o livro vai se findando... TOUCHÉ! Dorian escondeu até mesmo do narrador. É um pecador, um manipulador e um mentiroso. Sua beleza é que hipnotiza!

 Em algum momento Dorian tenta se (re)compor, ser bom. Decide ser bom para ser belo por inteiro. Faz boas ações, tolera mais, se retrai, afasta-se do mundo, podre e sujo. Busca refúgio para não pecar. E sente-se bem.

 Vai, então, até o retrato para confirmar sua mudança. Mas, lá está! Em seus lábios putrificados, a marca da hipocrisia. 

O bom não se contenta com o belo.

E o trato chega ao final.


 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Walkman

 Certa vez, peguei o walkman da minha vó. Ouvi uma canção e pensei que cantava acompanhando muito bem a fita cassete. Quando retiro os fones, a surpresa: eu cantava é muito mal. A sobreposição da voz do cantor é que ritmava meu cacarejar! 

 Sei lá por qual razão, essa coisa besta do cotidiano criou uma cicatriz em mim. Aquela fita me fez duvidar de mim mesma - talvez pela primeira vez. O quanto me engano sobre meus talentos? O quanto a vida seria difícil? Acho que na época do walkman eu tinha tanto futuro pela frente e tanto potencial pra tanta coisa que ainda viria, que meu grasnar feriu de morte uma gama das minhas certezas.

 Mal eu sabia que ter sido chamada de especial não passava de armadilha mental de todas as crianças dos anos noventa. E aquele desafino era apenas uma pista, dentro de milhares de evidências da minha mediocridade.

 Sei lá o que aconteceu entre os anos 80 para que os pais criassem os filhos para serem únicos, especiais e prodigiosos! Talvez a constante troca de moedas daquele tempo alimentasse o povo brasileiro de esperanças e toda essa espera positiva tivesse sido direcionada à nova geraçãozinha, fofucha, suja de barro, que brincava de tazos e subia em árvores: os millenials.  

* E nós fomos desembocando a crescer, já com o segredo da riqueza assegurado: formação acadêmica. Alto entretenimento: computadores de mesa. E com aquele sistema de ensino frágil da escola pública, pensávamos que éramos bem mais inteligentes que a geração anterior... Quatro mais quatro, na quarta série? A vida adulta seria uma moleza! E compraríamos kinder-ovo e coca-cola com nossos salários.

 O primeiro grande desafio da minha geração foi ignorar a própria mediocridade enquanto migrava para o discman. Na época do Ipod, pulamos a marolinha anunciada pelo Lula, achando que teríamos tempo para nossa própria complexidade emocional.

 Lá por 2012, quando sentimos aquele alívio sobre os Maias terem errado a data de nosso fim, acho que estávamos parcialmente errados. Foi o início do fim das nossas ilusões. Naquele ano, os millenials foram ficando mais adultos e o mundo foi se mostrando menos receptivo às nossas expectativas.

 Ah, como foi cansativa a nossa migração dos litrões de cerveja para os boletos! A cada 10 postagens no facebook, 11 eram reclamações sobre a conta do mercado, sobre o salário baixo. Mas a nossa esperança sobre dias melhores estavam mesmo ali. Nossa geração não economizou. Preparou-se para um mundo em que dez diplomas de graduação e pós trariam recompensas financeiras. Nos metemos na política, nos tornamos niilistas. E agora? Inconformados em remissão.

 As últimas três décadas nos parecem paradoxalmente próximas. 2001 foi há dez anos, tal qual 1991. Mas nossas bandas adolescentes já são velharia; nossas roupas, que nunca tiramos do corpo, voltaram à moda - nos deixando com milhares de interrogações. E estamos em vias de perceber que nós e nossas JBLs de alta potência, somos bregas.

 A contragosto das nossas próprias ilusões juvenis, estamos aceitando nossa desimportância. Mas é um processo dificílimo! 

Ainda nos dedicamos à alta performance nessa corrida louca por um resquício do sucesso. Quantas matrículas em CrossFit, centros de treinamento e aluguéis de quadras de beach tênis investimos para queimarmos todos aqueles toddynhos? Quantos cursos, pós-graduações e entregas profissionais fizemos aos nossos empregadores? 

Foi nossa geração que andou para que o burnout pudesse correr. 

Ao menos fizemos nosso cardio...

Com fôlego, talvez sobrevivamos às IAs.

Pegue seu AirPod e vai pra cima, millenial!

terça-feira, 21 de julho de 2026

Escatologia

Um sussurro parece o grito de uma multidão.

O silêncio parece passos de ladrão.


O riso parece com o choro.

O som da dor lembro o do gozo.


Os fogos de artifício, com mil tiros de aviso.       

A broca que fura o chão, com aquela que tira o siso.


Os berros da euforia com os berros violentos.

O batuque do relógio com o fim dos tempos!