Certa vez, peguei o walkman da minha vó. Ouvi uma canção e pensei que cantava acompanhando muito bem a fita cassete. Quando retiro os fones, a surpresa: eu cantava é muito mal. A sobreposição da voz do cantor é que ritmava meu cacarejar!
Sei lá por qual razão, essa coisa besta do cotidiano criou uma cicatriz em mim. Aquela fita me fez duvidar de mim mesma - talvez pela primeira vez. O quanto me engano sobre meus talentos? O quanto a vida seria difícil? Acho que na época do walkman eu tinha tanto futuro pela frente e tanto potencial pra tanta coisa que ainda viria, que meu grasnar feriu de morte uma gama das minhas certezas.
Mal eu sabia que ter sido chamada de especial não passava de armadilha mental de todas as crianças dos anos noventa. E aquele desafino era apenas uma pista, dentro de milhares de evidências da minha mediocridade.
Sei lá o que aconteceu entre os anos 80 para que os pais criassem os filhos para serem únicos, especiais e prodigiosos! Talvez a constante troca de moedas daquele tempo alimentasse o povo brasileiro de esperanças e toda essa espera positiva tivesse sido direcionada à nova geraçãozinha, fofucha, suja de barro, que brincava de tazos e subia em árvores: os millenials.
* E nós fomos desembocando a crescer, já com o segredo da riqueza assegurado: formação acadêmica. Alto entretenimento: computadores de mesa. E com aquele sistema de ensino frágil da escola pública, pensávamos que éramos bem mais inteligentes que a geração anterior... Quatro mais quatro, na quarta série? A vida adulta seria uma moleza! E compraríamos kinder-ovo e coca-cola com nossos salários.
O primeiro grande desafio da minha geração foi ignorar a própria mediocridade enquanto migrava para o discman. Na época do Ipod, pulamos a marolinha anunciada pelo Lula, achando que teríamos tempo para nossa própria complexidade emocional.
Lá por 2012, quando sentimos aquele alívio sobre os Maias terem errado a data de nosso fim, acho que estávamos parcialmente errados. Foi o início do fim das nossas ilusões. Naquele ano, os millenials foram ficando mais adultos e o mundo foi se mostrando menos receptivo às nossas expectativas.
Ah, como foi cansativa a nossa migração dos litrões de cerveja para os boletos! A cada 10 postagens no facebook, 11 eram reclamações sobre a conta do mercado, sobre o salário baixo. Mas a nossa esperança sobre dias melhores estavam mesmo ali. Nossa geração não economizou. Preparou-se para um mundo em que dez diplomas de graduação e pós trariam recompensas financeiras. Nos metemos na política, nos tornamos niilistas. E agora? Inconformados em remissão.
As últimas três décadas nos parecem paradoxalmente próximas. 2001 foi há dez anos, tal qual 1991. Mas nossas bandas adolescentes já são velharia; nossas roupas, que nunca tiramos do corpo, voltaram à moda - nos deixando com milhares de interrogações. E estamos em vias de perceber que nós e nossas JBLs de alta potência, somos bregas.
A contragosto das nossas próprias ilusões juvenis, estamos aceitando nossa desimportância. Mas é um processo dificílimo!
Ainda nos dedicamos à alta performance nessa corrida louca por um resquício do sucesso. Quantas matrículas em CrossFit, centros de treinamento e aluguéis de quadras de beach tênis investimos para queimarmos todos aqueles toddynhos? Quantos cursos, pós-graduações e entregas profissionais fizemos aos nossos empregadores?
Foi nossa geração que andou para que o burnout pudesse correr.
Ao menos fizemos nosso cardio...
Com fôlego, talvez sobrevivamos às IAs.
Pegue seu AirPod e vai pra cima, millenial!