Viajava pela galáxia quando sentiu sono. Avistou um planetinha aguado, pequeno, mas com terra suficiente para um pouso seguro. "É o que tenho para hoje", pensou. Desviou, então, de uma luazinha esburacada e entrou na atmosfera. Sentiu vontade de espirrar, mas não podia tirar nenhum dos oito olhos do volante, motivo pelo qual pressionou as antenas com seu quarto dedo polegar opositor - é por lá que espirrava. Pousou em uma pequena cidade do interior, ligou o pisca alerta e tirou um cochilo de 273 dias terráqueos.
Acordou desconcertado, acelerando o passo, religando as engrenagens. Precisava entregar o zinco e tinha apenas novecentos anos para chegar até o outro lado do universo. Não dava tempo pra nem mais um café. Ligou e alçou voo. Teria que sair devagar - na velocidade da luz, bastava. Andaria na maciota porque o propulsor ultrassônico tinha sido furtado há duas galáxias atrás. "Se ainda o tivesse, chegaria em 30 anos!". Meio sonolento, demorou para notar que a paisagem não se alterava. Tentou subir com o segundo motor de arranque, mas logo se espatifou no chão, caindo da poltrona com o baque. Suspirou, então espirrou, limpou a antena na camisa e pensou que talvez fosse alérgico a oxigênio. Foi ajeitar-se para descer da nave, talvez um galho preso no bico de escapamento. Arrastou-se, colocou o capacete, abaixou a tampa enferrujada da caçamba e desceu os degraus.
Três engenheiros caíram da abertura, com seus maçaricos. O Prefeito arregalou os olhos, apoiou o braço na assessora. A assessora permaneceu firme. Celulares e mais celulares apontados para a comporta. Mais de vinte mil lives transmitiam um genuíno alienígena aparecendo em terras brasileiras. Havia uma quermesse. Os espetinhos queimaram. Copos de cerveja foram derrubados. Oitocentos e trinta e uma pessoas colocaram as mãos sob suas armas. Os vereadores boquiabertos. O mundo parou por dois segundos. O alienígena também.
Ele tentou fechar a porta. Tarde demais. O prefeito já chamava a equipe de marketing. Punha o pé direito na plataforma. Trazia um sorriso no rosto. Falava em códigos. O som saía de um buraco no meio de um rosto. O alienígena nunca havia visto algo tão feio, tão de perto. E ainda cheirava à cebola!
A assessora atrás, tomando nota. Lhe assustava mais o desemprego que aquela coisa desengonçada e cheia de olhos. Na internet já lhe chamavam de polvo com dedos. Disseram as notícias "finalmente conhecemos o Bilú!". A oposição já rascunhava argumentos políticos.
No Japão, um criativo pensava num enredo para anime. Steven Spielberg mandou agentes para capturarem com câmeras de alta resolução. Uma das mulheres da plateia se apaixonou imediatamente. O nome 'Etevaldo' disparou no IBGE, ultrapassando Enzo e Valentina.
Um homem compôs uma letra de funk, quatro duplas sertanejas goianas adaptaram a canção, trocaram "buscar conhecimento de fumo com Bilú" por "Descer pra buscar conhecimento em BC com Bilú", mas o arrocha é que, efetivamente, embalou as danças no TikTok.
Agora, Bilú tinha nome. Foi alvo de grandes debates filosóficos. Viajou pelo mundo sendo estudado. Pensava que seriam boas aquelas férias. Foi ficando fluente em português, mas não conseguia falar, seus dedos não seguravam caneta, então ficava ali em silêncio enquanto recebia visitas de figuras importantes em sua nave. Um influenciador digital explorou a nave, a lei da proteção extra-terrestre foi fruto de discussão no Senado. Ganhou um carro alegórico no carnaval carioca. Passou o verão em Trancoso com artistas e influenciadores. Apesar da moeda corrente ser o real, sempre lhe cobravam em dólar. No Rio, os ambulantes lhe chamavam de gringuex. Comeu pão-de-queijo em Minas Gerais. Experimentou tereré no Mato Grosso do Sul - achou amargo. Gostou, mesmo, é do açaí.
Foi a um programa de auditório. Gravou clipes musicais de Trap. Teve duas namoradas. Uma lhe ensinou samba de gafieira. A outra, abriu para ele as redes sociais. Bancos se digladiaram para que Bilú tivesse uma conta-corrente, queriam que fosse ali feito o primeiro PIX. Publicitários já preparavam piadocas com parcelamentos no crédito. Não houve sucesso na abertura da conta, faltava à Bilú um CPF.
Sem documentos, sem origem conhecida, os cursos de Direito preparavam pós-graduações sobre direitos inumanos, para definirem se Bilú era ou não era coisa, a quem pertencia e se alguém poderia ser preso por homicídio contra extraterrestres. O Detran refletia se multava a nave, o IBAMA, se protegia o habitat. Mecânicos se perguntavam como poderiam fazer um Fiat Uno voar. Xuxa Meneguel gravou stories por lá, atrapalhando duas potencias mundiais de sequestrá-lo.
Ganhou uma barriguinha pelos excessos e foi convidado por marombeiros para passar por uma transformação física a ser acompanhada pelo YouTube. Sem sucesso. Gostava muito de açaí e fingia incompreensão quanto a esse ponto da ficha da dieta.
A Elite parou de visitar Bilú depois que a classe média conseguiu passagens aéreas para turistarem na nave. A classe média parou quando programas governamentais permitiram o acesso via ônibus pela classe D. O dono do lote procurou os advogados, o tempo estava propício e precisava plantar soja. Os movimentos sociais defenderam a estadia de Bilú. A nave era muito pesada para os guinchos da execução judicial. E Bilú, que já tinha um laranja, seu empresário, fugiu de diversas execuções por danos materiais contra o produtor rural.
O empresário laranja lhe vendeu um Peugeot 207 por quinhentos e sessenta mil reais à vista - o que Bilú achou boníssimo negócio. Entrou no sedã com certo orgulho por ter feito o empresário de otário.
As visitas cessaram. Ano de Copa e só se falava de hexa. Bilú já estava sem tempo, mas aprendeu a não ficar ansioso por meros quinze minutinhos a mais. Decerto o patrão relevaria. Retirou o motor do carro e finalmente conseguiu voltar a ter um propulsor ultrassônico funcionante. "E por uma pechincha!", pensou.
Partiu da atmosfera ouvindo Dominguinhos na JBL.