quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fora do enquadramento

 Esteticismo é um movimento filosófico que busca o belo, supremo, através das formas e cores, dos sentidos e das experiências. Ignora a moralidade, o utilitarismo e a política - ou seja, todas essas forças invisíveis que conduzem as ações humanas. A beleza está onde a vista alcança, afinal. E foi Oscar Wilde que me convenceu que a filosofia da estética é a forma mais elevada da futilidade. 

 Para escrever sobre o livro do Wilde, pensei em várias opções: detalhar, de forma bastante reflexiva, pesquisada e aprofundada sobre o esteticismo, ou prestar-lhe reverência ao me apegar às aparências. Opção b, então.

 É muito interessante como a literatura põe a filosofia em exercício. Em 'O Retrato de Dorian Gray', o jovem, belo, rico e inocente protagonista se percebe ao ver seu próprio retrato. A pintura foi feita de forma romanesca, pelas mãos e coração do pintor Basil Hallward. O amor, romântico, mesmo, apaixonado, deslumbrante, de forma sobrenatural, capturou o supremo belo: Dorian.

 O retrato não foi visto só pela musa e o artista, mas também por um personagem muito curioso, a quem muito me identifiquei, Lord Henry. Ele é uma peça central na influência sobre a psiquê de Dorian. É um falastrão, cínico, que se diverte muito ao argumentar ideologias. Um dos primeiros (dentro de muitos) monólogos do Lorde, fala justamente sobre o poder da influência que um ser exerce sobre o outro. 

 Henry é um personagem que destrincha diversos assuntos no decorrer do livro, e ele exerce influência não só em Dorian, como também no próprio leitor. Me flagrei concordando até mesmo com misoginias.

 Lorde Henry, por diversão, é como o verniz do retrato. Apresenta fatos que pesam na delicadeza da inocência psíquica de Dorian. O persuade acerca da brevidade da juventude, da necessidade de se viver o presente, de não remoer o passado ou ansiar o futuro. A vida é bela e tudo que é ruim deve ser sobreposto por algo melhor. Nada deve ser enfeiado, quando pode ser embelezado. Para ele, Dorian é essa representação: é perfeito, tal qual o retrato pintado por Basil, e quer conservá-lo assim.

 Dorian se depara com seus próprios privilégios, com sua beleza e é atingido pelo chumbo da influência. Sente-se ansioso e angustiado com o fim da breve juventude e inveja, com muito afinco, como a pintura do quadro nunca envelhecerá. 

 O criador, sua musa e um crítico. Os amigos vislumbram a pintura. Num rompante de raiva, Dorian deseja trocar de lugar com o quadro.

 E ele troca. 

Após cometer o seu primeiro pecado.

 Enquanto o retrato se amaldiçoa, sujo de pecados, Dorian passa seus dias com o vigor da juventude e com o Karma de um santo. Nenhuma responsabilidade o afeta: quebra corações, embosca amigos, vive egoisticamente. Nada acaba com sua felicidade de ser e de estar. Sua vida se torna a sua obra de arte, e a obra de arte se torna uma vida: que envelhece, toma as consequências, enfraquece e morre.

 O trato entre Dorian e a pintura é firme. Mas ele teme e esconde o quadro. Ele se envergonha das chagas, mas quando vai espiar seus pecados, sente triunfo por ser mais bonito, rico e livre que aquela tinta toda. E o furor da vitória sobre as consequências vai aumentando junto com a vergonha de expor a pintura para qualquer olhar, que não o próprio (talvez nem o próprio).

 Algo que me chamou atenção, na obra, é que muitos dos pecados de Dorian foram escondidos dentro de vários capítulos. Várias páginas são dedicadas para descrever todas as coisas bonitas compradas e experienciadas e vistas pelo jovem. Daí fiquei me perguntando onde está o pecado em possuir tapeçarias, instrumentos musicais e viagens? Até que o livro vai se findando... TOUCHÉ! Dorian escondeu até mesmo do narrador. É um pecador, um manipulador e um mentiroso. Sua beleza é que hipnotiza!

 Em algum momento Dorian tenta se (re)compor, ser bom. Decide ser bom para ser belo por inteiro. Faz boas ações, tolera mais, se retrai, afasta-se do mundo, podre e sujo. Busca refúgio para não pecar. E sente-se bem.

 Vai, então, até o retrato para confirmar sua mudança. Mas, lá está! Em seus lábios putrificados, a marca da hipocrisia. 

O bom não se contenta com o belo.

E o trato chega ao final.


 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Walkman

 Certa vez, peguei o walkman da minha vó. Ouvi uma canção e pensei que cantava acompanhando muito bem a fita cassete. Quando retiro os fones, a surpresa: eu cantava é muito mal. A sobreposição da voz do cantor é que ritmava meu cacarejar! 

 Sei lá por qual razão, essa coisa besta do cotidiano criou uma cicatriz em mim. Aquela fita me fez duvidar de mim mesma - talvez pela primeira vez. O quanto me engano sobre meus talentos? O quanto a vida seria difícil? Acho que na época do walkman eu tinha tanto futuro pela frente e tanto potencial pra tanta coisa que ainda viria, que meu grasnar feriu de morte uma gama das minhas certezas.

 Mal eu sabia que ter sido chamada de especial não passava de armadilha mental de todas as crianças dos anos noventa. E aquele desafino era apenas uma pista, dentro de milhares de evidências da minha mediocridade.

 Sei lá o que aconteceu entre os anos 80 para que os pais criassem os filhos para serem únicos, especiais e prodigiosos! Talvez a constante troca de moedas daquele tempo alimentasse o povo brasileiro de esperanças e toda essa espera positiva tivesse sido direcionada à nova geraçãozinha, fofucha, suja de barro, que brincava de tazos e subia em árvores: os millenials.  

* E nós fomos desembocando a crescer, já com o segredo da riqueza assegurado: formação acadêmica. Alto entretenimento: computadores de mesa. E com aquele sistema de ensino frágil da escola pública, pensávamos que éramos bem mais inteligentes que a geração anterior... Quatro mais quatro, na quarta série? A vida adulta seria uma moleza! E compraríamos kinder-ovo e coca-cola com nossos salários.

 O primeiro grande desafio da minha geração foi ignorar a própria mediocridade enquanto migrava para o discman. Na época do Ipod, pulamos a marolinha anunciada pelo Lula, achando que teríamos tempo para nossa própria complexidade emocional.

 Lá por 2012, quando sentimos aquele alívio sobre os Maias terem errado a data de nosso fim, acho que estávamos parcialmente errados. Foi o início do fim das nossas ilusões. Naquele ano, os millenials foram ficando mais adultos e o mundo foi se mostrando menos receptivo às nossas expectativas.

 Ah, como foi cansativa a nossa migração dos litrões de cerveja para os boletos! A cada 10 postagens no facebook, 11 eram reclamações sobre a conta do mercado, sobre o salário baixo. Mas a nossa esperança sobre dias melhores estavam mesmo ali. Nossa geração não economizou. Preparou-se para um mundo em que dez diplomas de graduação e pós trariam recompensas financeiras. Nos metemos na política, nos tornamos niilistas. E agora? Inconformados em remissão.

 As últimas três décadas nos parecem paradoxalmente próximas. 2001 foi há dez anos, tal qual 1991. Mas nossas bandas adolescentes já são velharia; nossas roupas, que nunca tiramos do corpo, voltaram à moda - nos deixando com milhares de interrogações. E estamos em vias de perceber que nós e nossas JBLs de alta potência, somos bregas.

 A contragosto das nossas próprias ilusões juvenis, estamos aceitando nossa desimportância. Mas é um processo dificílimo! 

Ainda nos dedicamos à alta performance nessa corrida louca por um resquício do sucesso. Quantas matrículas em CrossFit, centros de treinamento e aluguéis de quadras de beach tênis investimos para queimarmos todos aqueles toddynhos? Quantos cursos, pós-graduações e entregas profissionais fizemos aos nossos empregadores? 

Foi nossa geração que andou para que o burnout pudesse correr. 

Ao menos fizemos nosso cardio...

Com fôlego, talvez sobrevivamos às IAs.

Pegue seu AirPod e vai pra cima, millenial!

terça-feira, 21 de julho de 2026

Escatologia

Um sussurro parece o grito de uma multidão.

O silêncio parece passos de ladrão.


O riso parece com o choro.

O som da dor lembro o do gozo.


Os fogos de artifício, com mil tiros de aviso.       

A broca que fura o chão, com aquela que tira o siso.


Os berros da euforia com os berros violentos.

O batuque do relógio com o fim dos tempos!

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Poetria XL

Esse é meu jeito 

assim é que sou

não faça estardalhaço

não corte o meu voo

me deixe quieta no meu canto

dance comigo o rock and roll

baixou a poeira, não se espante

vou bem por onde vou

se me persegue, não me alcance 

pare sozinho, desencane

que volto de onde estou

dou-lhe a mão num mesmo instante

veio a noite, hora do soul.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sorria, você está sendo filmado

 Não é que não haviam câmeras na minha época. Pelo contrário, havia muitas delas! Mas guardadas nos bolsos e gavetas. As de vigilância também eram incomuns. Só as pessoas mais ricas que eu conhecia tinham câmeras nas campainhas, mas mesmo assim era normalíssimo que as lentes estragassem e ninguém se lembrasse muito de consertá-las. 

 Nessa época, os comerciantes compravam câmeras de brinquedo e punham uma plaquinha logo embaixo informando "Sorria, você está sendo filmado", para pôr medo nos mãos-leve da cidade. Não sei se no Brasil todo, mas no interior era assim. E não é porque as pessoas tinham menos medo - e estava ali a indústria das câmeras de mentirinha para provar meu argumento. A questão é que era caro ter sistema de segurança. Era caro ter câmeras. Finito.

 Hoje, olho em volta e há câmeras em todos os lugares, em todas as salas, os comércios, casas, terrenos baldios. E a plaquinha pedindo nosso sorriso está rara. Certa vez, vi uma câmera envolta numa grade de ferro. E já vi sistemas de câmeras filmando os próprios sistemas. A segurança precisando de segurança... 

 Os olhos biônicos não se limitam aos prédios: existem câmeras pequenas embutidas em óculos, relógios, até anéis. A tecnologia dos espiões foi tão democratizada que nem sei o que resta para a profissão deles. 

 E atualmente tudo é muito inteligente. Geladeiras, fogões, cadeados e câmeras de segurança inteligentes que possuem detecção de rostos. Lembro de assistir CSI: Nova Iorque e pensar que nada disso seria possível, mas é! A China ta aí para embasar meu argumento. Onde a gente vai, é registrado e armazenado num banco de dados.

 A rua da minha casa, cheia de viúvos, foram-se os cônjuges, vieram as câmeras. Acho que foi em 2018 a última vez em que saí seminua de casa para estacionar meu carro, sem o menor receio de ser vista. Tem uma outra rua que, lá em 2009, eu e meus amigos apostamos corrida, de calças arriadas, mas que hoje também está toda vigiada. 

A três ruas daqui, beijei uma menina, na minha fase de bissexual festinha, e sei que nada daquilo foi visto por ninguém. Numa avenida, troquei beijos com um ficante da escola, matei aula numa esquina, fumei um baseado no terreno baldio no final da cidade e já dancei inúmeras vezes enquanto fugia de casa para encontrar a Mari. E adivinhe só como estão essas ruas hoje? Câmera. Câmera. Câmera. E mais câmera!

   Lá em 2010, quando eu, o Gordo e o Caveira fomos acender um cigarro numa sarjeta deserta, que o Gordo chamava de "Pico da Lua", fomos parados por policiais à paisana. Naquele dia, me recordo bem, achei que tínhamos atingido o apogeu da hipervigilância. Lembro de pensar que nunca estivemos realmente livres para fazermos o Nada, parados, num lugar incomum. Sempre temos que ter uma justificativa para o nosso próprio comportamento. E só de pensar que aquela abordagem não representa 1/3 do que vivemos hoje...

 Para sentir algum tipo de liberdade, gosto de comprar um lanche, um refrigerante, parar meu carro num lugar mais escuro, e ficar vendo a humanidade passando pra lá e pra cá. Ou vou num canto mal iluminado, no final da cidade e fico vendo o nada, fazendo nada, comendo batata frita com a perna esticada no painel. Dentro do carro. Trancada. 

Há dias em que vou de bicicleta. À noite. No escuro. Desafiando minha ansiedade para matar a saudade de deitar na grama e olhar pro céu. Saudade daquele tempo antigo das câmeras de brinquedo. É preciso aproveitar, antes da instalação das lâmpadas de Led públicas. Drones de policiamento serão uma realidade? Quem sabe? A lua segue límpida no céu.