sábado, 3 de outubro de 2026

Pião de madeira

Os tempos são cada vez mais outros. Meu irmão queria de presente um pião de madeira para brincar. Peão de madeira? E ele: “É um pião de madeira.” “Onde?”, perguntei. “Na internet”, ele respondeu. “Mas aqui na cidade tem e não se paga frete.” E fui eu atrás de um pião de madeira.

Na loja de brinquedos tem de tudo, jogos de tabuleiro, skates elétricos e até óculos com fone de ouvido Bluetooth embutido. “Sem pião”, disse o vendedor. Noutra loja, o vendedor pensou que era um peão de rodeio. “É pião com i.” Passei em outras lojas; um vendedor idosinho me respondeu que isso era coisa velha. “Só pião elétrico, não quer?”

O mercado do pião de madeira entrou em queda; foi substituído pelo maior e mais luminoso Flash Light Spinning Pião Toy. Ele não tem corda, vem com um lançador automático e toca música enquanto gira. “Mas não é o que quero.” O vendedor orientou a tirar a bateria.

Os lojistas do camelô, um gritando para o outro, como se fosse aquela brincadeira de telefone sem fio: “Tem pião de madeira aí?”. Nada.

Cheguei numa outra banca de camelô. Ele, que já tinha ouvido a mensagem, já veio me adiantando que não havia essa mercadoria, que eu não deveria seguir perguntando por ali. Me orientou a buscar uma lojinha no mercado municipal.

Antes tinha tudo quanto é pião exposto em cestos, em todo canto, à venda a preço módico. Não era sequer para criança rica; criança rica brincava com plástico. 

Pois chego na tal lojinha do mercado municipal e, lá dentro, muitos artesanatos de madeira, mas estava fechada. Na porta: vende-se esta loja.

Madeira, um metal e um barbante fazia crianças se interessarem por horas a fio. Para comprar, antigamente, era só solicitar um pião. Ninguém perguntava se era de madeira - a madeira era implícita. Quando foi a última vez que vi um pião de madeira? Na época em que ele não tinha adjetivo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Fuligem

 A história parece um termo que se aplica exclusivamente ao passado, há 100 anos. Incorreto -  acontece aqui e agora. Não só numa bastilha, com grandes explosões e derramamento de sangue, nem só na Ucrânia ou com o Vladimir Putin, mas no trivialíssimo. Nós deixamos um trecho de história por cada canto em que pisamos.

 A arte faz parte dessas marcas, como fez-se história o belo Davi de Michelangelo, e as nossas artes rupestres, que foram feitas ali, por alguma criança que pintava uma caverna sem nem sonhar com a Faber Castell. Se antes as cavernas, hoje as pichações nos postes de luz. Sim, o piche conta história como o grafite, amoralmente. E há também a grande tela moderna: os carros.

 Para-brisas com pinturas rupestres de órgãos sexuais masculinos, vidros-vigia com ordens para lavagem: lave-me! lave-me! Capôs com corações de poeira. Mãos deslizadas no vidro traseiro nos evocam Rose e Jack, imediatamente. As riscas laterais nos mostram a competência do motorista. Os pneus do meu carro contam a história dos meio-fios da cidade. 
 
 Se parar para pensar, uma obra de arte nos conta três histórias: a do mestre, a sua própria e a dos homens.

 O scrotum do touro de bronze de Wall Street foi mais lustrado do que as bolas de cristal de muitas cartomantes. A estatueta do túmulo de Oscar Wilde tinha os lábios gastos de tantos beijos fanáticos que recebeu (e por isso mesmo eu fui atrás da sua literatura). Quando era criança eu queria tocar na saia da Bailarina de Degas e o desejo se avivou quando pude a ver no MASP. Para evitar que os humanos manchem a história dos outros, colocam vidros, cordas de contenção etc. E acho isso tudo muito válido. Mas imagine só um museu das marcas humanas? A "Faceira" de Bernadelli, coitada... Melhor não.
 
 Odeio viajar, principalmente de ônibus. Só gosto de estar no destino, passeando na pinacoteca, no MASP... Olho para qualquer lado, menos para aqueles trambolhos de transportes: ele me conta uma história de enjoos, peleja e odores indesejáveis. Pensar no destino é um refúgio, pra mim. Numa dessas viagens, o motorista avisou que haveria atraso. Desci da lata de sardinha, meio grogue de Dramin. Fiquei de frente para os bancos da rodoviária e notei um contorno na parede em que estava um banco recostado. Era um busto escuro tatuado nos tijolos. Até limpei meus olhos. É como se fosse uma sombra abandonada, sem dono. Notei, ainda, outras várias sombras solitárias. Uma sombra por banco, e a sombra mais forte num dos bancos que estava quebrado. 

 Fantasmáticas, as sombras guardam multidões condensadas numa só pintura natural. Se eu fosse boa da matemática, faria uma média de altura dos viajantes naviraienses. Sentou-se um fugitivo, depois uma garotinha, um senhor, uma namorada, no colo do namorado, o motorista exausto. E eu, que estive ali, naquela rodoviária municipal, nem sei quantas vezes antes. E toda vez que retorno, as sombras estão um pouco diferentes, e eu me sinto um pouco pregada ali, na fuligem de gente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Poetry V

Show me your soul

I can show you mine

We can show at three

At the same time


3

2

1

You resign

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Assisti Hamnet para que você não assistisse

  Hamnet. Filme premiado, conta sobre o casamento de Shakespeare e Agnes, imaginado por uma autora tal aí, que inclusive participou da elaboração do roteiro. E quem é que foi escalado para representar justamente um dos maiores gênios da literatura? Mescal.

 Paul Mescal. Um ator sem variedade emotiva. Só sei que ele sente satisfação com atuação por sempre estar envolvido numa produção nova. De fato, ele não me prometeu nada e entregou-me exatamente o prometido. Transfigurou Shakespeare num homem performático. E a cena em que ele recita 'to be or not to be' foi escrita para ele, pelas mãos do próprio diabo.

 Tudo piorou quando Agnes o chama de "Will". Não se fala o nome dele por várias cenas, para dar ênfase ao momento em que ela finalmente o chama assim. Will... Will?! Essa aí foi para fazer algum espertalhão no cinema dizer à acompanhante entediada: "É Will de William Shakespeare™." 

 Aliás, a chuva de referências cultas em meio a cenas nada a ver, para fazer o espectador se sentir inteligente porque reconheceu que tal frase é de Hamlet, tal outra de Macbeth, tira totalmente a concentração de uma atuação já aparvoada.

 A história é estupidamente moderna. Poderia sequer ser sobre William Shakespeare. Poderia Will ser de Wilson John Von-Middle Class of America. Restringe toda a belíssima criatividade do escritor a um drama de núcleo familiar.

 Para tentar - tentar - tirar algum proveito da atuação - leia o 'a' de atuação, como prefixo de nada - Agnes precisa lembrar a audiência sobre o quanto o pamonhola do Will é bom, como é maravilhoso, tal qual uma esposa abandonada tenta elogiar o ex tóxico para as amigas. 

 Eles discutem como se fosse uma rom-com, mas usando inglês arcaico. Como vou acreditar que um Zé-Nadinha daquele é um gênio da literatura mundial? Deus! Se alinhe, homem!

 E se Will é um personagem cansativo em razão do ator, Agnes foi uma personagem ruim interpretada por uma excelente atriz. 

 Agnes é, basicamente, uma jovem mística. Esse casal eu já vi na rua: um performático de mãos dadas com uma jovem mística. Enfim. Ela foi escrita para ser esse estereótipo da mulher livre - por falta de criatividade de se escrever uma mulher com personalidade.

 Agnes não tem nada de muito interessante, por isso lhe deram um falcão como pet. E modulam sua inteligência ao bel prazer da cena. É normal que o QI varie em alguns pontos percentuais, mas o de Agnes... Ora ela entende o mundo de uma forma intuitiva e mágica, ora acha que um palco de teatro é a realidade.

 Sobre Hamnet, escalaram a criança com a maior cara de dózinha e disseram: aumente em 100x a sua ingenuidade. Acontece que naquele século, a ingenuidade findava aos 5 anos, porque aos 6 a criança já precisava pagar IPTU. Olha, não dá para crer numa criança de 11 anos tão bebezinha nem mesmo hoje, quanto mais em 1500!

 A direção é sofrível, a tal ponto que chega a ser cômica. Por falta de carga dramática, alongaram as cenas tristes.  Dez minutos vendo uma criança se contorcer de sofrimento, em algum momento, nos faz produzir uma lágrima.

 E a fotografia do filme? Simples como os personagens. Com exceção da famosa cena do teatro shakespiriano, todo o resto é pálido. Parece-me que tinham apenas essa cena em mente quando produziram o filme. Todo o resto foi só um estofo.

O filme nos apresenta uma história que pretende ser profunda, um Shakespeare genial, uma Agnes livre, um Hamnet puro e doce. Mas são todos ocos. O filme nos diz: admire o gênio; emocione-se; sinta ternura.

 E senti foi é ódio.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Dois stalkers se apaixonam

**

Sabem mais um do outro, 

que casais em bodas de ouro. 

Ela gosta de comer carneiro, 

ele foi à academia no sábado

Ela gastou duzentos reais no mercado 

e ele, trezentos, de delivery

Um único toque - um esbarrão calculado

Teve mais erotismo que todo sexo livre

Sobre os raros contatos visuais, 

preciosos, sagrados e vitais! 

Seguem-se com tanta fissura, 

reciprocidade parece loucura.