quinta-feira, 23 de julho de 2026

Walkman

 Certa vez, peguei o walkman da minha vó. Ouvi uma canção e pensei que cantava acompanhando muito bem a fita cassete. Quando retiro os fones, a surpresa: eu cantava é muito mal. A sobreposição da voz do cantor é que ritmava meu cacarejar! 

 Sei lá por qual razão, essa coisa besta do cotidiano criou uma cicatriz em mim. Aquela fita me fez duvidar de mim mesma - talvez pela primeira vez. O quanto me engano sobre meus talentos? O quanto a vida seria difícil? Acho que na época do walkman eu tinha tanto futuro pela frente e tanto potencial pra tanta coisa que ainda viria, que meu grasnar feriu de morte uma gama das minhas certezas.

 Mal eu sabia que ter sido chamada de especial não passava de armadilha mental de todas as crianças dos anos noventa. E aquele desafino era apenas uma pista, dentro de milhares de evidências da minha mediocridade.

 Sei lá o que aconteceu entre os anos 80 para que os pais criassem os filhos para serem únicos, especiais e prodigiosos! Talvez a constante troca de moedas daquele tempo alimentasse o povo brasileiro de esperanças e toda essa espera positiva tivesse sido direcionada à nova geraçãozinha, fofucha, suja de barro, que brincava de tazos e subia em árvores: os millenials.  

* E nós fomos desembocando a crescer, já com o segredo da riqueza assegurado: formação acadêmica. Alto entretenimento: computadores de mesa. E com aquele sistema de ensino frágil da escola pública, pensávamos que éramos bem mais inteligentes que a geração anterior... Quatro mais quatro, na quarta série? A vida adulta seria uma moleza! E compraríamos kinder-ovo e coca-cola com nossos salários.

 O primeiro grande desafio da minha geração foi ignorar a própria mediocridade enquanto migrava para o discman. Na época do Ipod, pulamos a marolinha anunciada pelo Lula, achando que teríamos tempo para nossa própria complexidade emocional.

 Lá por 2012, quando sentimos aquele alívio sobre os Maias terem errado a data de nosso fim, acho que estávamos parcialmente errados. Foi o início do fim das nossas ilusões. Naquele ano, os millenials foram ficando mais adultos e o mundo foi se mostrando menos receptivo às nossas expectativas.

 Ah, como foi cansativa a nossa migração dos litrões de cerveja para os boletos! A cada 10 postagens no facebook, 11 eram reclamações sobre a conta do mercado, sobre o salário baixo. Mas a nossa esperança sobre dias melhores estavam mesmo ali. Nossa geração não economizou. Preparou-se para um mundo em que dez diplomas de graduação e pós trariam recompensas financeiras. Nos metemos na política, nos tornamos niilistas. E agora? Inconformados em remissão.

 As últimas três décadas nos parecem paradoxalmente próximas. 2001 foi há dez anos, tal qual 1991. Mas nossas bandas adolescentes já são velharia; nossas roupas, que nunca tiramos do corpo, voltaram à moda - nos deixando com milhares de interrogações. E estamos em vias de perceber que nós e nossas JBLs de alta potência, somos bregas.

 A contragosto das nossas próprias ilusões juvenis, estamos aceitando nossa desimportância. Mas é um processo dificílimo! 

Ainda nos dedicamos à alta performance nessa corrida louca por um resquício do sucesso. Quantas matrículas em CrossFit, centros de treinamento e aluguéis de quadras de beach tênis investimos para queimarmos todos aqueles toddynhos? Quantos cursos, pós-graduações e entregas profissionais fizemos aos nossos empregadores? 

Foi nossa geração que andou para que o burnout pudesse correr. 

Ao menos fizemos nosso cardio...

Com fôlego, talvez sobrevivamos às IAs.

Pegue seu AirPod e vai pra cima, millenial!

terça-feira, 21 de julho de 2026

Escatologia

Um sussurro parece o grito de uma multidão.

O silêncio parece passos de ladrão.


O riso parece com o choro.

O som da dor lembro o do gozo.


Os fogos de artifício, com mil tiros de aviso.       

A broca que fura o chão, com aquela que tira o siso.


Os berros da euforia com os berros violentos.

O batuque do relógio com o fim dos tempos!

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Poetria XL

Esse é meu jeito 

assim é que sou

não faça estardalhaço

não corte o meu voo

me deixe quieta no meu canto

dance comigo o rock and roll

baixou a poeira, não se espante

vou bem por onde vou

se me persegue, não me alcance 

pare sozinho, desencane

que volto de onde estou

dou-lhe a mão num mesmo instante

veio a noite, hora do soul.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sorria, você está sendo filmado

 Não é que não haviam câmeras na minha época. Pelo contrário, havia muitas delas! Mas guardadas nos bolsos e gavetas. As de vigilância também eram incomuns. Só as pessoas mais ricas que eu conhecia tinham câmeras nas campainhas, mas mesmo assim era normalíssimo que as lentes estragassem e ninguém se lembrasse muito de consertá-las. 

 Nessa época, os comerciantes compravam câmeras de brinquedo e punham uma plaquinha logo embaixo informando "Sorria, você está sendo filmado", para pôr medo nos mãos-leve da cidade. Não sei se no Brasil todo, mas no interior era assim. E não é porque as pessoas tinham menos medo - e estava ali a indústria das câmeras de mentirinha para provar meu argumento. A questão é que era caro ter sistema de segurança. Era caro ter câmeras. Finito.

 Hoje, olho em volta e há câmeras em todos os lugares, em todas as salas, os comércios, casas, terrenos baldios. E a plaquinha pedindo nosso sorriso está rara. Certa vez, vi uma câmera envolta numa grade de ferro. E já vi sistemas de câmeras filmando os próprios sistemas. A segurança precisando de segurança... 

 Os olhos biônicos não se limitam aos prédios: existem câmeras pequenas embutidas em óculos, relógios, até anéis. A tecnologia dos espiões foi tão democratizada que nem sei o que resta para a profissão deles. 

 E atualmente tudo é muito inteligente. Geladeiras, fogões, cadeados e câmeras de segurança inteligentes que possuem detecção de rostos. Lembro de assistir CSI: Nova Iorque e pensar que nada disso seria possível, mas é! A China ta aí para embasar meu argumento. Onde a gente vai, é registrado e armazenado num banco de dados.

 A rua da minha casa, cheia de viúvos, foram-se os cônjuges, vieram as câmeras. Acho que foi em 2018 a última vez em que saí seminua de casa para estacionar meu carro, sem o menor receio de ser vista. Tem uma outra rua que, lá em 2009, eu e meus amigos apostamos corrida, de calças arriadas, mas que hoje também está toda vigiada. 

A três ruas daqui, beijei uma menina, na minha fase de bissexual festinha, e sei que nada daquilo foi visto por ninguém. Numa avenida, troquei beijos com um ficante da escola, matei aula numa esquina, fumei um baseado no terreno baldio no final da cidade e já dancei inúmeras vezes enquanto fugia de casa para encontrar a Mari. E adivinhe só como estão essas ruas hoje? Câmera. Câmera. Câmera. E mais câmera!

   Lá em 2010, quando eu, o Gordo e o Caveira fomos acender um cigarro numa sarjeta deserta, que o Gordo chamava de "Pico da Lua", fomos parados por policiais à paisana. Naquele dia, me recordo bem, achei que tínhamos atingido o apogeu da hipervigilância. Lembro de pensar que nunca estivemos realmente livres para fazermos o Nada, parados, num lugar incomum. Sempre temos que ter uma justificativa para o nosso próprio comportamento. E só de pensar que aquela abordagem não representa 1/3 do que vivemos hoje...

 Para sentir algum tipo de liberdade, gosto de comprar um lanche, um refrigerante, parar meu carro num lugar mais escuro, e ficar vendo a humanidade passando pra lá e pra cá. Ou vou num canto mal iluminado, no final da cidade e fico vendo o nada, fazendo nada, comendo batata frita com a perna esticada no painel. Dentro do carro. Trancada. 

Há dias em que vou de bicicleta. À noite. No escuro. Desafiando minha ansiedade para matar a saudade de deitar na grama e olhar pro céu. Saudade daquele tempo antigo das câmeras de brinquedo. É preciso aproveitar, antes da instalação das lâmpadas de Led públicas. Drones de policiamento serão uma realidade? Quem sabe? A lua segue límpida no céu.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Brasil e Japão

 Ao invés de assistir ao jogo, prefiro acompanhá-lo pela janela: vuvuzelas, os pulos de alegria, Vai Vini!, É o Casemiro! Com a vitória, sei que vou sentir cheiro de churrasco saindo de todas as casas. 

As pessoas estão em casa, vibrando pelo futebol brasileiro. Consigo ouvir os papos, a movimentação dos carros. Vi que a companhia de internet está trabalhando incansavelmente para recuperar cabos de internet que foram furtados na noite de ontem. Os coitados, com o uniforme da seleção, suados, temem que eles mesmos percam a transmissão. Os ladrões, talvez, sejam as únicas pessoas sem fé no hexacampeonato.  

Sentada em silêncio, posso ouvir homens e mulheres gritando, como se fossem eles próprios os donos da bola. Por baixo das cadeiras de plástico, sei que chutam o ar, viram o tronco, cabeceiam, alguns quase arrancam os poucos cabelos que tem.

Um grande silêncio repentino, sei que o gol não foi nosso, mas do Japão. O brasileiro está espantado e receoso, e assim permaneceu por trinta minutos. 

Ouço um uníssono "uuuuUU!" se agudando, e sei que o gol foi quase nosso. 14h18, e a alegria se derramou pelas ruas da minha cidade. Quem assiste pela TV gritou depois de quem assistiu pela internet e o efeito sonoro veio subindo a Avenida feito uma onda.

 Mais um gol, e um daqueles! Feito em tempo de prorrogação. Aplausos, gritos, fanfarra, tambores. Mais uma esperança me é trazida pelos ventos: será que vem mais um? Não veio. Apita o árbitro lá no campo, apitam os árbitros de suas casas: é fim de jogo. Vitória! Uns torcedores buzinaram pela praça, outros retornaram à labuta mais felizes que antes, assoviando que a Taça do Mundo Será Nossa. 

Os técnicos de internet respiram aliviados - os ladrões, também.