Ele nasceu velho e foi se rejuvenescendo. Tinha mais energia e liberdade aos 60 anos do que aos 18. Provou dos prazeres da carne e se satisfez: Vinhos, mulheres e o trabalho. Vê o dinheiro como asas para voar, por isso o trabalho. É uma personalidade peculiar. Resumi-lo é um trabalho árduo, por isso o autor resolveu escrevê-lo em trezentas e tantas páginas.
Zorbás: a primeira Manic Pixie Dream Girl. Porém homem, velho e másculo. Retira o protagonista intelectual do mundo metafísico e o faz invejar quem vive guiado pelos sentidos. Dualidade entre carne e espírito é unificada no corpo e mente de Zorbás, um homem que vive o corpo de alma inteira e a alma de corpo inteiro. Tudo nele é matéria. Homem prático, carnal e livre. Homem simples, iletrado, mas engenhoso e empático.
Ao mesmo tempo que Zorbás entende que o mundo tem lá sua ordem e as pessoas seus próprios vícios, ainda assim não deixa de desvirtuar monges e desvirginar mulheres. Ele percebeu que ele é livre e, razoavelmente, senhor de seu destino.
Experimentou as teorias filosóficas empiricamente - e totalmente, completamente, caindo de cabeça em cada uma delas. Caiu de cabeça no patriotismo ao entrar para a guerra. Já foi sério e rigoroso. Já tirou os próprios cabelos para fazer um colar de santa para carregar no peito. Zorbás já fez crueldades pelo que acreditava, mas não se vê como cruel.
Zorbas fica num agnosticismo curioso: Entre não crer em nada e crer que há um Deus que é também o próprio Diabo. Acha que os humanos não aguentariam terem surgido de um ser parecido com suas vergonhas. Tem sua própria teologia. Respeita os rituais como cristão tanto quanto os pecados, como um endemoniado. Já quebrou os dez mandamentos e queria que houvessem mais para que mais quebrasse. E mesmo diante de tudo isso, ainda é um uma fera bondosa. Não quer que a vida acabe, mas com a morte não se faz malandragem. No entanto, isso não o impede de tentar. Então ele dança, toca, canta, usando todo seu vigor para experimentar cada segundo mortal.
Extrai da comida a energia para acordar bem, do vinho para rir mais e do trabalho árduo e focado para conseguir todo o resto. Das mulheres, não extrai nada, só se entrega. Gosta de ser namorado, namorar, agradar, mas não de ficar preso. Conta que tinha um vício em cerejas, roubou dinheiro do próprio pai, comprou um saco de cerejas, comeu-as toda até enjoar. Mas das mulheres, não, não consegue largar.
Zorbás vê as mulheres em sua essência, ele é entorpecido pelo feminino. Por vezes as vê como ninfas ingênuas, às vezes como demonios. Vê suas carnes, os seios alvos, os quadris remexendo nos vestidos, os seus sexos, mas também as vê em essência de mulher. Diz que Deus criou o matrimônio, a santidade e as mulheres feias. Tem dó das mulheres, tanto das feias quanto das bonitas. Vê as crenças materialistas delas, enxerga sua necessidade de afeto, carinho e atenção com uma curiosidade quase alienígena. "Mulheres são humanas?" - é algo que ele se pergunta. Pra ele, humanos querem ser livres, mas as mulheres querem se prender ao romance. E aí, são humanas, mesmo? Nenhuma mulher foi mostrada na inteireza da própria personalidade. Mas isso porque não é Zorbás o autor - ele é o único personagem cuja personalidade é objeto de estudo e de admiração.
É um grande homem. Faz o que pensa e pensa o que faz. Toma a decisão de seus sentimentos. Se precisa chorar, chora. Deprime-se, irrita-se com as crueldades do mundo. Recolhe-se ao próprio íntimo quando ferido. E acorda e ri muito alto. Canta e pula até cansar os joelhos. É um homem de carne e osso.
Há uma grandiosa diferença em toda folha em que há Zorbás, ele ilumina a vida e o mundo teórico do intelectual protagonista - que se torna seu grande amigo. Toda vez que Zorbás narra algo do passado (sob muita insistência do intelectual) leio as folhas como se estivesse no deserto e alguém me oferecesse uma jarra de água fria.
Acabo me identificando muito pouco com Zorbás, como o despertar dele, que é lento e só acontece após um bom café, assim como eu. E me sinto mais identificada com o mundo teórico e metafísico do intelectual. Por exemplo, quando o intelectual não consegue conceber o sofrimento na carne, o transforma em ideia, o fragmenta em filosofia e o dispersa. Captura a riqueza da realidade e a aprisiona na própria mente.
Eu queria sentir, mesmo, o prazer de Zorbás em comer, beber e viver - que sei bem que vem com a consequência da dor que o intelectual não consegue suportar.
É um enorme prazer estar conhecendo Zorbás.