Tirei de uma cena da adaptação de "Persuasão" que a poesia raramente é apreciada com moderação por aqueles que a desfrutam por inteiro e que só quem conheceria a perda conseguiria apreciar Byron a ponto de ficar depressivo. E concordo.
A poesia é potente! Ela potencializa nossas emoções porque conversa com elas intimamente, nua. Um bom poema nos faz encenar, por dentro, os mecanismos que a neurociência estuda.
Um tal Pavese meditou que escrever é como conversar sozinho com uma multidão. Disso, é fácil inferir que poetizar é como revelar grandes segredos em voz alta e contar fluentemente sobre o que é indizível.
Note que o que se sente durante um episódio de raiva está além da definição estabilizada do dicionário ou da neurociência. Sentimos aversão e nossos neurônios se agitam? Sim. Mas, e o ódio de Banchs? Já sentiu assim?
(...)
El reposo en la selva silenciosa.
La testa chata entre las garras finas
y el ojo fijo, impávido custodio.
Espía mientras bate con nerviosa
cola el haz de las férulas vecinas,
en reprimido acecho... así es mi odio.
Lou Salomé e seu existencialismo filosófico. Já sentiu?
As truly as I'd love a friend,
I have always loved you, riddling life
whether I've laughed with you or wept,
whether you've brought me pleasure or strife.
(...)
A melancolia de Cecília Meireles?
É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. (...)
E aquela frustração de Camões?
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida. (...)
E os dias de autoestima de Maya Angelou?
Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much
But they can’t touch
My inner mystery.
When I try to show them,
They say they still can’t see.
I say,
It’s in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I’m a woman
Phenomenally.
A poesia traduz, sem tanta precisão científica, o mundo secreto dos sentidos e define, à sua maneira, o que precisar se dizer dele. É uma forma de comunicação que conversa conosco utilizando-se de um algo além das leituras rigorosas as quais estamos acostumados e ainda nos faz compreender muitos outros sentidos que podem ser extraídos de uma mesma palavra.
A poesia também tem uma musicalidade que só é entendida pelas mentes humanas. Não é ouvida pelos ouvidos. Não há, para ela, teoria musical. Há um ritmo agregado a cada uma. O ritmo de Shakespeare, a exemplo, pulsa como um coração. A cada batimento a palavra é dita com sinceridade e drama:
Tempo voraz, corta as garras do leão,
E faze a terra devorar sua doce prole;
Arranca os dentes afiados da feroz mandíbula do tigre,
E queima a eterna fênix em seu sangue;
Mesmo que não se seja um bom ator para proclamar com destreza o ritmo poético, a experiência própria é quem faz o letramento musical dentro de nossas mentes. Dentro de mim, ouço trovões ao ler o soneto 19 de Shakespeare, por exemplo.
A contradição da poesia mora no fato de que ela traduz muito, mas é muitíssimo difícil de ser traduzida para outro idioma. A leitura de um poema fica preciso em sua lingua de origem. A musicalidade daquele idioma é única e a significação das palavras que provocam coesão são traduzidas deixando muito do conteúdo pra trás. Se se traduz as palavras literais, nada mais haverá da música e dos sentidos. E por isso adoro a tradução do Soneto 19. É belíssima!
Outro paradoxo é que, apesar de tratarem, muitas vezes, de sentimento universais e atemporais, é preciso estar contextualizado para conseguir extrair mais sentido dos poemas, como o poema "A Pulga" de John Donne:
Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.
Na época do poema as pessoa que o leram já sabiam do lugar-comum proposto por Donne. Ou seja, saberiam que a união do sangue de duas pessoas era uma intimidade como o sexo - e elas conseguiram entender mais plenamente a sagacidade de "A Pulga" do que um leitor moderno e seu anacronismo acidental.
No poema, a intervenção da pulga que uniu o sangue dos amantes já teria "pulado para a etapa mais importante", que seria a união do sangue, e justamente por isso, o eu lírico solicita o encontro sexual (a etapa deixada de fora), invertendo a ordem moral para se servir de uma tática de sedução.
Durante o poema, ele vai entregando argumentos para conseguir transar com a sua amante, como a premissa implícita que a pulga não provocou a perda da virgindade dos amantes, que a troca de sangue já teria sido feita sem pecado ou perda da virtude e que agora só faltava concretizar o ato sexual.
Os poemas mais antigos eram curiosos por serem como jogos de palavras a serem desvendados.
"A cada parto agudo é necessária a novidade sem a qual a maravilha desaparece e, junto com ela, a graça e o aplauso" (Tesauro)
A graça era (e ainda é) ler um poema que desenvolve um argumento fazendo uma correspondência inesperada de palavras aparentemente desconexas.
Nos poemas, lemos palavras dessemelhantes sendo usadas para desvelar uma perspectiva íntima ou até mesmo existencial. É divertido extrair um sentido de um poema engenhoso, mas é também revigorante ter uma perspectiva abraçada pelas palavras de um poeta ou até mesmo descobrir elocubrações que nunca antes participaram da nossa própria experiência.
Cada tipo de arte possui uma digital incomparável. A poesia nos dá uma companhia única, que não é encontrada numa música, num filme, no DSM-5 ou em tratados filosóficos. A poesia significa mas sem a pretensão científica ou filosófica de estabilizar sentido. Ela te faz sentir o que ela sentiu, mas sem te explicar o que foi. É um micro-cosmos inalcançado pelos átomos.