quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um alien no Brasil

 Viajava pela galáxia quando sentiu sono. Avistou um planetinha aguado, pequeno, mas com terra suficiente para um pouso seguro. "É o que tenho para hoje", pensou. Desviou, então, de uma luazinha esburacada e entrou na atmosfera. Sentiu vontade de espirrar, mas não podia tirar nenhum dos oito olhos do volante, motivo pelo qual pressionou as antenas com seu quarto dedo polegar opositor - é por lá que espirrava. Pousou em uma pequena cidade do interior, ligou o pisca alerta e tirou um cochilo de 273 dias terráqueos. 

 Acordou desconcertado, acelerando o passo, religando as engrenagens. Precisava entregar o zinco e tinha apenas novecentos anos para chegar até o outro lado do universo. Não dava tempo pra nem mais um café. Ligou e alçou voo. Teria que sair devagar - na velocidade da luz, bastava. Andaria na maciota porque o propulsor ultrassônico tinha sido furtado há duas galáxias atrás. "Se ainda o tivesse, chegaria em 30 anos!". Meio sonolento, demorou para notar que a paisagem não se alterava. Tentou subir com o segundo motor de arranque, mas logo se espatifou no chão, caindo da poltrona com o baque. Suspirou, então espirrou, limpou a antena na camisa e pensou que talvez fosse alérgico a oxigênio. Foi ajeitar-se para descer da nave, talvez um galho preso no bico de escapamento. Arrastou-se, colocou o capacete, abaixou a tampa enferrujada da caçamba e desceu os degraus.

  Três engenheiros caíram da abertura, com seus maçaricos. O Prefeito arregalou os olhos, apoiou o braço na assessora. A assessora permaneceu firme. Celulares e mais celulares apontados para a comporta. Mais de vinte mil lives transmitiam um genuíno alienígena aparecendo em terras brasileiras. Havia uma quermesse. Os espetinhos queimaram. Copos de cerveja foram derrubados. Oitocentos e trinta e uma pessoas colocaram as mãos sob suas armas. Os vereadores boquiabertos. O mundo parou por dois segundos. O alienígena também. 

 Ele tentou fechar a porta. Tarde demais. O prefeito já chamava a equipe de marketing. Punha o pé direito na plataforma. Trazia um sorriso no rosto. Falava em códigos. O som saía de um buraco no meio de um rosto. O alienígena nunca havia visto algo tão feio, tão de perto. E ainda cheirava à cebola!

 A assessora atrás, tomando nota. Lhe assustava mais o desemprego que aquela coisa desengonçada e cheia de olhos. Na internet já lhe chamavam de polvo com dedos. Disseram as notícias "finalmente conhecemos o Bilú!". A oposição já rascunhava argumentos políticos. 

 No Japão, um criativo pensava num enredo para anime. Steven Spielberg mandou agentes para capturarem com câmeras de alta resolução. Uma das mulheres da plateia se apaixonou imediatamente. O nome 'Etevaldo' disparou no IBGE, ultrapassando Enzo e Valentina. 

 Um homem compôs uma letra de funk, quatro duplas sertanejas goianas adaptaram a canção, trocaram "buscar conhecimento de fumo com Bilú" por "Descer pra buscar conhecimento em BC com Bilú", mas o arrocha é que, efetivamente, embalou as danças no TikTok.

 Agora, Bilú tinha nome. Foi alvo de grandes debates filosóficos. Viajou pelo mundo sendo estudado. Pensava que seriam boas aquelas férias. Foi ficando fluente em português, mas não conseguia falar, seus dedos não seguravam caneta, então ficava ali em silêncio enquanto recebia visitas de figuras importantes em sua nave. Um influenciador digital explorou a nave, a lei da proteção extra-terrestre foi fruto de discussão no Senado. Ganhou um carro alegórico no carnaval carioca. Passou o verão em Trancoso com artistas e influenciadores. Apesar da moeda corrente ser o real, sempre lhe cobravam em dólar. No Rio, os ambulantes lhe chamavam de gringuex. Comeu pão-de-queijo em Minas Gerais. Experimentou tereré no Mato Grosso do Sul - achou amargo. Gostou, mesmo, é do açaí.

 Foi a um programa de auditório. Gravou clipes musicais de Trap. Teve duas namoradas. Uma lhe ensinou samba de gafieira. A outra, abriu para ele as redes sociais. Bancos se digladiaram para que Bilú tivesse uma conta-corrente, queriam que fosse ali feito o primeiro PIX. Publicitários já preparavam piadocas com parcelamentos no crédito. Não houve sucesso na abertura da conta, faltava à Bilú um CPF.

 Sem documentos, sem origem conhecida, os cursos de Direito preparavam pós-graduações sobre direitos inumanos, para definirem se Bilú era ou não era coisa, a quem pertencia e se alguém poderia ser preso por homicídio contra extraterrestres. O Detran refletia se multava a nave, o IBAMA, se protegia o habitat. Mecânicos se perguntavam como poderiam fazer um Fiat Uno voar. Xuxa Meneguel gravou stories por lá, atrapalhando duas potencias mundiais de sequestrá-lo.

 Ganhou uma barriguinha pelos excessos e foi convidado por marombeiros para passar por uma transformação física a ser acompanhada pelo YouTube. Sem sucesso. Gostava muito de açaí e fingia incompreensão quanto a esse ponto da ficha da dieta.

 A Elite parou de visitar Bilú depois que a classe média conseguiu passagens aéreas para turistarem na nave. A classe média parou quando programas governamentais permitiram o acesso via ônibus pela classe D. O dono do lote procurou os advogados, o tempo estava propício e precisava plantar soja. Os movimentos sociais defenderam a estadia de Bilú. A nave era muito pesada para os guinchos da execução judicial. E Bilú, que já tinha um laranja, seu empresário, fugiu de diversas execuções por danos materiais contra o produtor rural.

 O empresário laranja lhe vendeu um Peugeot 207 por quinhentos e sessenta mil reais à vista - o que Bilú achou boníssimo negócio. Entrou no sedã com certo orgulho por ter feito o empresário de otário.

 As visitas cessaram. Ano de Copa e só se falava de hexa. Bilú já estava sem tempo, mas aprendeu a não ficar ansioso por meros quinze minutinhos a mais. Decerto o patrão relevaria. Retirou o motor do carro e finalmente conseguiu voltar a ter um propulsor ultrassônico funcionante. "E por uma pechincha!", pensou.

 Partiu da atmosfera ouvindo Dominguinhos na JBL.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A arte de recordar

 A vida é tênue, frágil como... 

como aquele...

aquele negócio de neve. Grão? Não é não.

Onde já se viu grão de neve? É redondinho e geométrico.

Eu nem sei quantas formas tem. Cada um vem de um jeito.

Derrete quando paira do céu e cai no dedo.

Está em todas as decorações de natal brasileiras...

Não sei por qual razão, o natal daqui é quente, quente.

Definitivamente não é grão. Grão é de areia, de arroz, mas não de neve.

No momento, a vida é um grão de areia no shorts de praia...

Deixa pra lá essa analogia.

...

Não consigo pensar em outra coisa! Que ridículo.

Neve. Nevasca. Pense gelado. Vamos lá...

Bolotinha de neve?  Santo deus! É um negocinho meio translúcido.

E não é grão!

Pão de neve?

Nevinha?

Nevita?

Ah, esquece! Segunda tem Fla x Flu.

No Brasil nem neva. Diabo de analogia.

Vou é assistir comendo um pote de sorvete.

Sorvete de flocos.

Floco!

A vida é um floco de neve. Amém! 

Mas por que, mesmo?

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Pq?

 Só me sentirei verdadeiramente adulta quando não precisar pesquisar os quatro porques: por que, porque, por quê, porquê. Esse é o ritual de passagem que defini há não sei quantos anos... talvez, desde que descobri que "há" não significa só "existir", mas também tempo decorrido. Talvez, antes ainda, quando achava que era ezistir. Som de zê, deveria se escrever com zê, oras! Se não sei minha língua materna, sobre o que sei da vida? Nada. 

 E foi com essa reflexão em mente que declarei meu primeiro Imposto de Renda:

Pq?

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Manifesto Egoísta

 Pessoas egoístas sofrem. Se são egoístas demais, nem sequer sabem o por que sofrem. Mas sofrem. E a dor vem da falsa crença de que têm direito à tudo o que anseiam. Toda quebra de expectativa é tida, portanto, como uma injustiça. Uma vil injustiça!

  Esses sujeitos são variados e vivem cercados de si mesmos. Seus interesses podem estar tanto em um cercadinho doméstico quanto em um cofre subterrâneo sob um abrigo de aeronaves de uma base da OTAN. O egoísmo, portanto, é um espectro.

 Seja num cercadinho, seja num bunker, a existência egoística é paradoxal. Afinal, se tem direito a tudo o que desejam - o que anseiam, mesmo, é o próprio anseio. E por milionário que seja, o egoísta corre em círculos, feito um cachorro atacando a própria calda: quer mais e mais. É coisa da natureza humana, querer mais, tal qual uma rinite... ou... uma escoliose.

 Se existem egoístas, eles devem ter contribuído com algo para nossa cadeia evolutiva. Sem querer cientificizar demais, mas é extremamente provável que os sanitários individuais e o instituto legal dos danos morais tenham sido contribuições indiretas deles. Afinal, como caminham pelo mundo, com a plena certeza de que merecem tudo, deixam xixi em volta da privada e trombam nos outros com muita frequência. Mesmo sem senso de coletivo, ainda assim contribuem para ele.

 Então, pensem assim, toda vez que se perceberem dentro de um cercadinho, notando acreditar que o mundo inteiro cabe ali dentro, tenham orgulho do quanto contribuíram e contribuirão para humanidade! Estão sem ideias sobre onde podem contribuir? Indenizações por danos temporais! Para construir uma necessidade legal, precisa-se de muito mais jurisprudência! Então, se estiverem se sentindo pra baixo: univos a vós mesmos e abram mais um telemarketing! Demitam a secretária! Viva o atendimento automatizado!

sábado, 11 de abril de 2026

Matadores em série

  Deparei-me com a notícia de que há menos matadores em série hoje, no mundo, que nos anos 1980. Os EUA são o maior exemplo disso. E se há uma queda acentuada por lá, há uma queda acentuada global por consequência porque, curiosamente, lá é que se encontra o maior número desse perfil criminoso. Têm muitas teorias sobre o declínio na terra do Tio Sam: eficiência policial, a liberação do aborto e os muitos avanços forenses genéticos que impedem que um assassino faça muitas vítimas.

  No entanto, cá no Brasil, o aborto ainda é crime, a polícia trabalha com os recursos de um palhaço de circo e no presídio só cabem detentos desalmados (com alma, dá superlotação). Então, pensei com meus botões, porque por aqui não vemos tanto esse tipo de crime? Meu amigo, concluí que é a escala 6x1. Acompanhe-me:

 Para ser um matador em série é preciso, acima de tudo, de tempo. Não dá para perseguir uma pessoa após 8h de expediente e nem perder o descanso do domingo mutilando um defunto. Quem é que tem horário, neste país, de sair do ponto de ônibus, vigiar a vítima, correr atrás dela, arrastar um corpo de 70kg e ainda ter de descongelar o frango para a janta?! É simplesmente impossível. É um tipo de crime de países mais desenvolvidos, sabe como é? 

 Pode argumentar aí que temos crimes de sobra no Brasil, que todos nós já passamos por algum assalto na vida. Mas repare bem que ladrão brasileiro não é vagabundo. Repare bem que ele assalta após o horário comercial ou nos feriados e finais de semana. Tanto é que um foliante, no carnaval, já vai preparado com dois celulares para a folia (um pro assaltante). O crime neste país é uma das poucas coisas que são organizadas!

 Matar em série, por outro lado, exige maior comprometimento que um assalto que acontece em 5 minutos, ou até mesmo um sequestro relâmpago que, como o nome já diz, exige uma menor jornada de serviço. 

 Olhe, se o psicopata for realmente comprometido com sua vilania, neste país tropical, fica sem ter como pagar o aluguel. Nenhuma empresa toleraria tanto atraso! Ao contrário dos seriais killers norte americanos que sempre tiveram, às custas da exploração imperialista, tempo suficiente para suas tramóias! Isso é desigualdade na prática.

 É dos ianques os maiores nomes sanguinários que matam sem intenção útil. Enquanto no Brasil, os psicopatas matam como meio para algo: herança, tráfico, uso de drogas, pagamento de agiota e crime do colarinho branco, for the americans, é a morte pela morte. O american way, talvez seja tão consumista, que a contracultura seja o prazer de caçar sem finalidade de lucro.

 Pois bem, a notícia ruim é que na terra da liberdade houve queda dos serial killers mas aumento dos mass murderes. Quase 4 mil assassinos em massa registrados! Registrados, veja bem — porque lá até isso tem controle. Por lá já estão cheios de detectores de metal nas escolas fundamentais. E no nosso país? Neca de pitibiribas!

 A não ser que haja um sindicato dos matadores em série, neste Bananil, teremos que nos contentar com mais um documentário sobre a Richthofen.