Hamnet. Filme premiado, conta sobre o casamento de Shakespeare e Agnes, imaginado por uma autora tal aí, que inclusive participou da elaboração do roteiro. E quem é que foi escalado para representar justamente um dos maiores gênios da literatura? Mescal.
Paul Mescal. Um ator sem variedade emotiva. Só sei que ele sente satisfação com atuação por sempre estar envolvido numa produção nova. De fato, ele não me prometeu nada e entregou-me exatamente o prometido. Transfigurou Shakespeare num homem performático. E a cena em que ele recita 'to be or not to be' foi escrita para ele, pelas mãos do próprio diabo.
Tudo piorou quando Agnes o chama de "Will". Não se fala o nome dele por várias cenas, para dar ênfase ao momento em que ela finalmente o chama assim. Will... Will?! Essa aí foi para fazer algum espertalhão no cinema dizer à acompanhante entediada: "É Will de William Shakespeare™."
Aliás, a chuva de referências cultas em meio a cenas nada a ver, para fazer o espectador se sentir inteligente porque reconheceu que tal frase é de Hamlet, tal outra de Macbeth, tira totalmente a concentração de uma atuação já aparvoada.
A história é estupidamente moderna. Poderia sequer ser sobre William Shakespeare. Poderia Will ser de Wilson John Von-Middle Class of America. Restringe toda a belíssima criatividade do escritor a um drama de núcleo familiar.
Para tentar - tentar - tirar algum proveito da atuação - leia o 'a' de atuação, como prefixo de nada - Agnes precisa lembrar a audiência sobre o quanto o pamonhola do Will é bom, como é maravilhoso, tal qual uma esposa abandonada tenta elogiar o ex tóxico para as amigas.
Eles discutem como se fosse uma rom-com, mas usando inglês arcaico. Como vou acreditar que um Zé-Nadinha daquele é um gênio da literatura mundial? Deus! Se alinhe, homem!
E se Will é um personagem cansativo em razão do ator, Agnes foi uma personagem ruim interpretada por uma excelente atriz.
Agnes é, basicamente, uma jovem mística. Esse casal eu já vi na rua: um performático de mãos dadas com uma jovem mística. Enfim. Ela foi escrita para ser esse estereótipo da mulher livre - por falta de criatividade de se escrever uma mulher com personalidade.
Agnes não tem nada de muito interessante, por isso lhe deram um falcão como pet. E modulam sua inteligência ao bel prazer da cena. É normal que o QI varie em alguns pontos percentuais, mas o de Agnes... Ora ela entende o mundo de uma forma intuitiva e mágica, ora acha que um palco de teatro é a realidade.
Sobre Hamnet, escalaram a criança com a maior cara de dózinha e disseram: aumente em 100x a sua ingenuidade. Acontece que naquele século, a ingenuidade findava aos 5 anos, porque aos 6 a criança já precisava pagar IPTU. Olha, não dá para crer numa criança de 11 anos tão bebezinha nem mesmo hoje, quanto mais em 1500!
A direção é sofrível, a tal ponto que chega a ser cômica. Por falta de carga dramática, alongaram as cenas tristes. Dez minutos vendo uma criança se contorcer de sofrimento, em algum momento, nos faz produzir uma lágrima.
E a fotografia do filme? Simples como os personagens. Com exceção da famosa cena do teatro shakespiriano, todo o resto é pálido. Parece-me que tinham apenas essa cena em mente quando produziram o filme. Todo o resto foi só um estofo.
O filme nos apresenta uma história que pretende ser profunda, um Shakespeare genial, uma Agnes livre, um Hamnet puro e doce. Mas são todos ocos. O filme nos diz: admire o gênio; emocione-se; sinta ternura.
E senti foi é ódio.
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