Talvez você retorne aqui e todos os textos tenham sumido ou note que as palavras foram trocadas e o sentido de um poema, de um texto, de uma frase, de um aforismo foi totalmente invertido. Aqui é RASCUNHOlogia, não Definitivologia.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Fuligem
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Assisti Hamnet para que você não assistisse
Hamnet. Filme premiado, conta sobre o casamento de Shakespeare e Agnes, imaginado por uma autora tal aí, que inclusive participou da elaboração do roteiro. E quem é que foi escalado para representar justamente um dos maiores gênios da literatura? Mescal.
Paul Mescal. Um ator sem variedade emotiva. Só sei que ele sente satisfação com atuação por sempre estar envolvido numa produção nova. De fato, ele não me prometeu nada e entregou-me exatamente o prometido. Transfigurou Shakespeare num homem performático. E a cena em que ele recita 'to be or not to be' foi escrita para ele, pelas mãos do próprio diabo.
Tudo piorou quando Agnes o chama de "Will". Não se fala o nome dele por várias cenas, para dar ênfase ao momento em que ela finalmente o chama assim. Will... Will?! Essa aí foi para fazer algum espertalhão no cinema dizer à acompanhante entediada: "É Will de William Shakespeare™."
Aliás, a chuva de referências cultas em meio a cenas nada a ver, para fazer o espectador se sentir inteligente porque reconheceu que tal frase é de Hamlet, tal outra de Macbeth, tira totalmente a concentração de uma atuação já aparvoada.
A história é estupidamente moderna. Poderia sequer ser sobre William Shakespeare. Poderia Will ser de Wilson John Von-Middle Class of America. Restringe toda a belíssima criatividade do escritor a um drama de núcleo familiar.
Para tentar - tentar - tirar algum proveito da atuação - leia o 'a' de atuação, como prefixo de nada - Agnes precisa lembrar a audiência sobre o quanto o pamonhola do Will é bom, como é maravilhoso, tal qual uma esposa abandonada tenta elogiar o ex tóxico para as amigas.
Eles discutem como se fosse uma rom-com, mas usando inglês arcaico. Como vou acreditar que um Zé-Nadinha daquele é um gênio da literatura mundial? Deus! Se alinhe, homem!
E se Will é um personagem cansativo em razão do ator, Agnes foi uma personagem ruim interpretada por uma excelente atriz.
Agnes é, basicamente, uma jovem mística. Esse casal eu já vi na rua: um performático de mãos dadas com uma jovem mística. Enfim. Ela foi escrita para ser esse estereótipo da mulher livre - por falta de criatividade de se escrever uma mulher com personalidade.
Agnes não tem nada de muito interessante, por isso lhe deram um falcão como pet. E modulam sua inteligência ao bel prazer da cena. É normal que o QI varie em alguns pontos percentuais, mas o de Agnes... Ora ela entende o mundo de uma forma intuitiva e mágica, ora acha que um palco de teatro é a realidade.
Sobre Hamnet, escalaram a criança com a maior cara de dózinha e disseram: aumente em 100x a sua ingenuidade. Acontece que naquele século, a ingenuidade findava aos 5 anos, porque aos 6 a criança já precisava pagar IPTU. Olha, não dá para crer numa criança de 11 anos tão bebezinha nem mesmo hoje, quanto mais em 1500!
A direção é sofrível, a tal ponto que chega a ser cômica. Por falta de carga dramática, alongaram as cenas tristes. Dez minutos vendo uma criança se contorcer de sofrimento, em algum momento, nos faz produzir uma lágrima.
E a fotografia do filme? Simples como os personagens. Com exceção da famosa cena do teatro shakespiriano, todo o resto é pálido. Parece-me que tinham apenas essa cena em mente quando produziram o filme. Todo o resto foi só um estofo.
O filme nos apresenta uma história que pretende ser profunda, um Shakespeare genial, uma Agnes livre, um Hamnet puro e doce. Mas são todos ocos. O filme nos diz: admire o gênio; emocione-se; sinta ternura.
E senti foi é ódio.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Dois stalkers se apaixonam
**
Sabem mais um do outro,
que casais em bodas de ouro.
Ela gosta de comer carneiro,
ele foi à academia no sábado
Ela gastou duzentos reais no mercado
e ele, trezentos, de delivery
Um único toque - um esbarrão calculado
Teve mais erotismo que todo sexo livre
Sobre os raros contatos visuais,
preciosos, sagrados e vitais!
Seguem-se com tanta fissura,
reciprocidade parece loucura.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Fora do enquadramento
Esteticismo é um movimento filosófico que busca o belo, supremo, através das formas e cores, dos sentidos e das experiências. Ignora a moralidade, o utilitarismo e a política - ou seja, todas essas forças invisíveis que conduzem as ações humanas. A beleza está onde a vista alcança, afinal. E foi Oscar Wilde que me convenceu que a filosofia da estética é a forma mais elevada da futilidade. Não há profundidade que não tenha superfície.
Para escrever sobre o livro do Wilde, pensei em várias opções: detalhar, de forma bastante reflexiva, pesquisada e aprofundada sobre o esteticismo, ou prestar-lhe reverência ao me apegar às aparências. Opção b, então.
É muito interessante como a literatura põe a filosofia em exercício. Em 'O Retrato de Dorian Gray', o jovem, belo, rico e inocente protagonista se percebe ao ver seu próprio retrato. A pintura foi feita de forma romanesca, pelas mãos e coração do pintor Basil Hallward. O amor, romântico, mesmo, apaixonado, deslumbrante, de forma sobrenatural, capturou o supremo belo: Dorian.
O retrato não foi visto só pela musa e o artista, mas também por um personagem muito curioso, a quem muito me identifiquei, Lord Henry. Ele é uma peça central na influência sobre a psiquê de Dorian. É um falastrão, cínico, que se diverte muito ao argumentar ideologias. Um dos primeiros (dentro de muitos) monólogos do Lorde, fala justamente sobre o poder da influência que um ser exerce sobre o outro.
Henry é um personagem que destrincha diversos assuntos no decorrer do livro, e ele exerce influência não só em Dorian, como também no próprio leitor. Me flagrei concordando até mesmo com misoginias.
Lorde Henry, por diversão, é como o verniz do retrato. Apresenta fatos que pesam na delicadeza da inocência psíquica de Dorian. O persuade acerca da brevidade da juventude, da necessidade de se viver o presente, de não remoer o passado ou ansiar o futuro. A vida é bela e tudo que é ruim deve ser sobreposto por algo melhor. Nada deve ser enfeiado, quando pode ser embelezado. Para ele, Dorian é essa representação: é perfeito, tal qual o retrato pintado por Basil, e quer conservá-lo assim.
Dorian se depara com seus próprios privilégios, com sua beleza e é atingido pelo chumbo da influência. Sente-se ansioso e angustiado com o fim da breve juventude e inveja, com muito afinco, como a pintura do quadro nunca envelhecerá.
O criador, sua musa e um crítico. Os amigos vislumbram a pintura. Num rompante de raiva, Dorian deseja trocar de lugar com o quadro.
E ele troca.
Após cometer o seu primeiro pecado.
Enquanto o retrato se amaldiçoa, sujo de pecados, Dorian passa seus dias com o vigor da juventude e com o Karma de um santo. Nenhuma responsabilidade o afeta: quebra corações, embosca amigos, vive egoisticamente. Nada acaba com sua felicidade de ser e de estar. Sua vida se torna a sua obra de arte, e a obra de arte se torna uma vida: que envelhece, toma as consequências, enfraquece e morre.
O trato entre Dorian e a pintura é firme. Mas ele teme e esconde o quadro. Ele se envergonha das chagas, mas quando vai espiar seus pecados, sente triunfo por ser mais bonito, rico e livre que aquela tinta toda. E o furor da vitória sobre as consequências vai aumentando junto com a vergonha de expor a pintura para qualquer olhar, que não o próprio (talvez nem o próprio).
Algo que me chamou atenção, na obra, é que muitos dos pecados de Dorian foram escondidos dentro de vários capítulos. Várias páginas são dedicadas para descrever todas as coisas bonitas compradas e experienciadas e vistas pelo jovem. Daí fiquei me perguntando onde está o pecado em possuir tapeçarias, instrumentos musicais e viagens? Até que o livro vai se findando... TOUCHÉ! Dorian escondeu até mesmo do narrador. É um pecador, um manipulador e um mentiroso. Sua beleza é que hipnotiza!
Em algum momento Dorian tenta se (re)compor, ser bom. Decide ser bom para ser belo por inteiro. Faz boas ações, tolera mais, se retrai, afasta-se do mundo, podre e sujo. Busca refúgio para não pecar. E sente-se bem.
Vai, então, até o retrato para confirmar sua mudança. Mas, lá está! Em seus lábios putrificados, a marca da hipocrisia.
O bom não se contenta com o belo.
E o trato chega ao final.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Walkman
Certa vez, peguei o walkman da minha vó. Ouvi uma canção e pensei que cantava acompanhando muito bem a fita cassete. Quando retiro os fones, a surpresa: eu cantava é muito mal. A sobreposição da voz do cantor é que ritmava meu cacarejar!
Sei lá por qual razão, essa coisa besta do cotidiano criou uma cicatriz em mim. Aquela fita me fez duvidar de mim mesma - talvez pela primeira vez. O quanto me engano sobre meus talentos? O quanto a vida seria difícil? Acho que na época do walkman eu tinha tanto futuro pela frente e tanto potencial pra tanta coisa que ainda viria, que meu grasnar feriu de morte uma gama das minhas certezas.
Mal eu sabia que ter sido chamada de especial não passava de armadilha mental de todas as crianças dos anos noventa. E aquele desafino era apenas uma pista, dentro de milhares de evidências da minha mediocridade.
Sei lá o que aconteceu entre os anos 80 para que os pais criassem os filhos para serem únicos, especiais e prodigiosos! Talvez a constante troca de moedas daquele tempo alimentasse o povo brasileiro de esperanças e toda essa espera positiva tivesse sido direcionada à nova geraçãozinha, fofucha, suja de barro, que brincava de tazos e subia em árvores: os millenials.
* E nós fomos desembocando a crescer, já com o segredo da riqueza assegurado: formação acadêmica. Alto entretenimento: computadores de mesa. E com aquele sistema de ensino frágil da escola pública, pensávamos que éramos bem mais inteligentes que a geração anterior... Quatro mais quatro, na quarta série? A vida adulta seria uma moleza! E compraríamos kinder-ovo e coca-cola com nossos salários.
O primeiro grande desafio da minha geração foi ignorar a própria mediocridade enquanto migrava para o discman. Na época do Ipod, pulamos a marolinha anunciada pelo Lula, achando que teríamos tempo para nossa própria complexidade emocional.
Lá por 2012, quando sentimos aquele alívio sobre os Maias terem errado a data de nosso fim, acho que estávamos parcialmente errados. Foi o início do fim das nossas ilusões. Naquele ano, os millenials foram ficando mais adultos e o mundo foi se mostrando menos receptivo às nossas expectativas.
Ah, como foi cansativa a nossa migração dos litrões de cerveja para os boletos! A cada 10 postagens no facebook, 11 eram reclamações sobre a conta do mercado, sobre o salário baixo. Mas a nossa esperança sobre dias melhores estavam mesmo ali. Nossa geração não economizou. Preparou-se para um mundo em que dez diplomas de graduação e pós trariam recompensas financeiras. Nos metemos na política, nos tornamos niilistas. E agora? Inconformados em remissão.
As últimas três décadas nos parecem paradoxalmente próximas. 2001 foi há dez anos, tal qual 1991. Mas nossas bandas adolescentes já são velharia; nossas roupas, que nunca tiramos do corpo, voltaram à moda - nos deixando com milhares de interrogações. E estamos em vias de perceber que nós e nossas JBLs de alta potência, somos bregas.
A contragosto das nossas próprias ilusões juvenis, estamos aceitando nossa desimportância. Mas é um processo dificílimo!
Ainda nos dedicamos à alta performance nessa corrida louca por um resquício do sucesso. Quantas matrículas em CrossFit, centros de treinamento e aluguéis de quadras de beach tênis investimos para queimarmos todos aqueles toddynhos? Quantos cursos, pós-graduações e entregas profissionais fizemos aos nossos empregadores?
Foi nossa geração que andou para que o burnout pudesse correr.
Ao menos fizemos nosso cardio...
Com fôlego, talvez sobrevivamos às IAs.
Pegue seu AirPod e vai pra cima, millenial!
terça-feira, 21 de julho de 2026
Escatologia
Um sussurro parece o grito de uma multidão.
O silêncio parece passos de ladrão.
O riso parece com o choro.
O som da dor lembro o do gozo.
Os fogos de artifício, com mil tiros de aviso.
A broca que fura o chão, com aquela que tira o siso.
Os berros da euforia com os berros violentos.
O batuque do relógio com o fim dos tempos!
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Poetria XL
Esse é meu jeito
assim é que sou
não faça estardalhaço
não corte o meu voo
me deixe quieta no meu canto
dance comigo o rock and roll
baixou a poeira, não se espante
vou bem por onde vou
se me persegue, não me alcance
pare sozinho, desencane
que volto de onde estou
dou-lhe a mão num mesmo instante
veio a noite, hora do soul.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Sorria, você está sendo filmado
Não é que não haviam câmeras na minha época. Pelo contrário, havia muitas delas! Mas guardadas nos bolsos e gavetas. As de vigilância também eram incomuns. Só as pessoas mais ricas que eu conhecia tinham câmeras nas campainhas, mas mesmo assim era normalíssimo que as lentes estragassem e ninguém se lembrasse muito de consertá-las.
Nessa época, os comerciantes compravam câmeras de brinquedo e punham uma plaquinha logo embaixo informando "Sorria, você está sendo filmado", para pôr medo nos mãos-leve da cidade. Não sei se no Brasil todo, mas no interior era assim. E não é porque as pessoas tinham menos medo - e estava ali a indústria das câmeras de mentirinha para provar meu argumento. A questão é que era caro ter sistema de segurança. Era caro ter câmeras. Finito.
Hoje, olho em volta e há câmeras em todos os lugares, em todas as salas, os comércios, casas, terrenos baldios. E a plaquinha pedindo nosso sorriso está rara. Certa vez, vi uma câmera envolta numa grade de ferro. E já vi sistemas de câmeras filmando os próprios sistemas. A segurança precisando de segurança...
Os olhos biônicos não se limitam aos prédios: existem câmeras pequenas embutidas em óculos, relógios, até anéis. A tecnologia dos espiões foi tão democratizada que nem sei o que resta para a profissão deles.
E atualmente tudo é muito inteligente. Geladeiras, fogões, cadeados e câmeras de segurança inteligentes que possuem detecção de rostos. Lembro de assistir CSI: Nova Iorque e pensar que nada disso seria possível, mas é! A China ta aí para embasar meu argumento. Onde a gente vai, é registrado e armazenado num banco de dados.
A rua da minha casa, cheia de viúvos, foram-se os cônjuges, vieram as câmeras. Acho que foi em 2018 a última vez em que saí seminua de casa para estacionar meu carro, sem o menor receio de ser vista. Tem uma outra rua que, lá em 2009, eu e meus amigos apostamos corrida, de calças arriadas, mas que hoje também está toda vigiada.
A três ruas daqui, beijei uma menina, na minha fase de bissexual festinha, e sei que nada daquilo foi visto por ninguém. Numa avenida, troquei beijos com um ficante da escola, matei aula numa esquina, fumei um baseado no terreno baldio no final da cidade e já dancei inúmeras vezes enquanto fugia de casa para encontrar a Mari. E adivinhe só como estão essas ruas hoje? Câmera. Câmera. Câmera. E mais câmera!
Lá em 2010, quando eu, o Gordo e o Caveira fomos acender um cigarro numa sarjeta deserta, que o Gordo chamava de "Pico da Lua", fomos parados por policiais à paisana. Naquele dia, me recordo bem, achei que tínhamos atingido o apogeu da hipervigilância. Lembro de pensar que nunca estivemos realmente livres para fazermos o Nada, parados, num lugar incomum. Sempre temos que ter uma justificativa para o nosso próprio comportamento. E só de pensar que aquela abordagem não representa 1/3 do que vivemos hoje...
Para sentir algum tipo de liberdade, gosto de comprar um lanche, um refrigerante, parar meu carro num lugar mais escuro, e ficar vendo a humanidade passando pra lá e pra cá. Ou vou num canto mal iluminado, no final da cidade e fico vendo o nada, fazendo nada, comendo batata frita com a perna esticada no painel. Dentro do carro. Trancada.
Há dias em que vou de bicicleta. À noite. No escuro. Desafiando minha ansiedade para matar a saudade de deitar na grama e olhar pro céu. Saudade daquele tempo antigo das câmeras de brinquedo. É preciso aproveitar, antes da instalação das lâmpadas de Led públicas. Drones de policiamento serão uma realidade? Quem sabe? A lua segue límpida no céu.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Brasil e Japão
Ao invés de assistir ao jogo, prefiro acompanhá-lo pela janela: vuvuzelas, os pulos de alegria, Vai Vini!, É o Casemiro! Com a vitória, sei que vou sentir cheiro de churrasco saindo de todas as casas.
As pessoas estão em casa, vibrando pelo futebol brasileiro. Consigo ouvir os papos, a movimentação dos carros. Vi que a companhia de internet está trabalhando incansavelmente para recuperar cabos de internet que foram furtados na noite de ontem. Os coitados, com o uniforme da seleção, suados, temem que eles mesmos percam a transmissão. Os ladrões, talvez, sejam as únicas pessoas sem fé no hexacampeonato.
Sentada em silêncio, posso ouvir homens e mulheres gritando, como se fossem eles próprios os donos da bola. Por baixo das cadeiras de plástico, sei que chutam o ar, viram o tronco, cabeceiam, alguns quase arrancam os poucos cabelos que tem.
Um grande silêncio repentino, sei que o gol não foi nosso, mas do Japão. O brasileiro está espantado e receoso, e assim permaneceu por trinta minutos.
Ouço um uníssono "uuuuUU!" se agudando, e sei que o gol foi quase nosso. 14h18, e a alegria se derramou pelas ruas da minha cidade. Quem assiste pela TV gritou depois de quem assistiu pela internet e o efeito sonoro veio subindo a Avenida feito uma onda.
Mais um gol, e um daqueles! Feito em tempo de prorrogação. Aplausos, gritos, fanfarra, tambores. Mais uma esperança me é trazida pelos ventos: será que vem mais um? Não veio. Apita o árbitro lá no campo, apitam os árbitros de suas casas: é fim de jogo. Vitória! Uns torcedores buzinaram pela praça, outros retornaram à labuta mais felizes que antes, assoviando que a Taça do Mundo Será Nossa.
Os técnicos de internet respiram aliviados - os ladrões, também.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Poetria XXXIX
Amo intensamente com o freio de mão puxado
Meu bem, só me afogo onde dá pé
Caio de cabeça no almofadado
Se preciso for, dou ré
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Estou lendo o livro "Zorbás, o grego" de Nikos Kazantzakis
Ele nasceu velho e foi se rejuvenescendo. Tinha mais energia e liberdade aos 60 anos do que aos 18. Provou dos prazeres da carne e se satisfez: Vinhos, mulheres e o trabalho. Vê o dinheiro como asas para voar, por isso o trabalho. É uma personalidade peculiar. Resumi-lo é um trabalho árduo, por isso o autor resolveu escrevê-lo em trezentas e tantas páginas.
Zorbás: a primeira Manic Pixie Dream Girl. Porém homem, velho e másculo. Retira o protagonista intelectual do mundo metafísico e o faz invejar quem vive guiado pelos sentidos. Dualidade entre carne e espírito é unificada no corpo e mente de Zorbás, um homem que vive o corpo de alma inteira e a alma de corpo inteiro. Tudo nele é matéria. Homem prático, carnal e livre. Homem simples, iletrado, mas engenhoso e empático.
Ao mesmo tempo que Zorbás entende que o mundo tem lá sua ordem e as pessoas seus próprios vícios, ainda assim não deixa de desvirtuar monges e desvirginar mulheres. Ele percebeu que ele é livre e, razoavelmente, senhor de seu destino.
Experimentou as teorias filosóficas empiricamente - e totalmente, completamente, caindo de cabeça em cada uma delas. Caiu de cabeça no patriotismo ao entrar para a guerra. Já foi sério e rigoroso. Já tirou os próprios cabelos para fazer um colar de santa para carregar no peito. Zorbás já fez crueldades pelo que acreditava, mas não se vê como cruel.
Zorbas fica num agnosticismo curioso: Entre não crer em nada e crer que há um Deus que é também o próprio Diabo. Acha que os humanos não aguentariam terem surgido de um ser parecido com suas vergonhas. Tem sua própria teologia. Respeita os rituais como cristão tanto quanto os pecados, como um endemoniado. Já quebrou os dez mandamentos e queria que houvessem mais para que mais quebrasse. E mesmo diante de tudo isso, ainda é um uma fera bondosa. Não quer que a vida acabe, mas com a morte não se faz malandragem. No entanto, isso não o impede de tentar. Então ele dança, toca, canta, usando todo seu vigor para experimentar cada segundo mortal.
Zorbás vê as mulheres em sua essência, ele é entorpecido pelo feminino. Por vezes as vê como ninfas ingênuas, às vezes como demonios. Vê suas carnes, os seios alvos, os quadris remexendo nos vestidos, os seus sexos, mas também as vê em essência de mulher. Diz que Deus criou o matrimônio, a santidade e as mulheres feias. Tem dó das mulheres, tanto das feias quanto das bonitas. Vê as crenças materialistas delas, enxerga sua necessidade de afeto, carinho e atenção com uma curiosidade quase alienígena. "Mulheres são humanas?" - é algo que ele se pergunta. Pra ele, humanos querem ser livres, mas as mulheres querem se prender ao romance. E aí, são humanas, mesmo? Nenhuma mulher foi mostrada na inteireza da própria personalidade. Mas isso porque não é Zorbás o autor - ele é o único personagem cuja personalidade é objeto de estudo e de admiração.
É um grande homem. Faz o que pensa e pensa o que faz. Toma a decisão de seus sentimentos. Se precisa chorar, chora. Deprime-se, irrita-se com as crueldades do mundo. Recolhe-se ao próprio íntimo quando ferido. E acorda e ri muito alto. Canta e pula até cansar os joelhos. É um homem de carne e osso.
Há uma grandiosa diferença em toda folha em que há Zorbás, ele ilumina a vida e o mundo teórico do intelectual protagonista - que se torna seu grande amigo. Toda vez que Zorbás narra algo do passado (sob muita insistência do intelectual) leio as folhas como se estivesse no deserto e alguém me oferecesse uma jarra de água fria.
Acabo me identificando muito pouco com Zorbás, como o despertar dele, que é lento e só acontece após um bom café, assim como eu. E me sinto mais identificada com o mundo teórico e metafísico do intelectual. Por exemplo, quando o intelectual não consegue conceber o sofrimento na carne, o transforma em ideia, o fragmenta em filosofia e o dispersa. Captura a riqueza da realidade e a aprisiona na própria mente.
Eu queria sentir, mesmo, o prazer de Zorbás em comer, beber e viver - que sei bem que vem com a consequência da dor que o intelectual não consegue suportar.
É um enorme prazer estar conhecendo Zorbás.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Um alien no Brasil
Viajava pela galáxia quando sentiu sono. Avistou um planetinha aguado, pequeno, mas com terra suficiente para um pouso seguro. "É o que tenho para hoje", pensou. Desviou, então, de uma luazinha esburacada e entrou na atmosfera. Sentiu vontade de espirrar, mas não podia tirar nenhum dos oito olhos do volante, motivo pelo qual pressionou as antenas com seu quarto dedo polegar opositor - é por lá que espirrava. Pousou em uma pequena cidade do interior, ligou o pisca alerta e tirou um cochilo de 273 dias terráqueos.
Acordou desconcertado, acelerando o passo, religando as engrenagens. Precisava entregar o zinco e tinha apenas novecentos anos para chegar até o outro lado do universo. Não dava tempo pra nem mais um café. Ligou e alçou voo. Teria que sair devagar - na velocidade da luz, bastava. Andaria na maciota porque o propulsor ultrassônico tinha sido furtado há duas galáxias atrás. "Se ainda o tivesse, chegaria em 30 anos!". Meio sonolento, demorou para notar que a paisagem não se alterava. Tentou subir com o segundo motor de arranque, mas logo se espatifou no chão, caindo da poltrona com o baque. Suspirou, então espirrou, limpou a antena na camisa e pensou que talvez fosse alérgico a oxigênio. Foi ajeitar-se para descer da nave, talvez um galho preso no bico de escapamento. Arrastou-se, colocou o capacete, abaixou a tampa enferrujada da caçamba e desceu os degraus.
Três engenheiros caíram da abertura, com seus maçaricos. O Prefeito arregalou os olhos, apoiou o braço na assessora. A assessora permaneceu firme. Celulares e mais celulares apontados para a comporta. Mais de vinte mil lives transmitiam um genuíno alienígena aparecendo em terras brasileiras. Havia uma quermesse. Os espetinhos queimaram. Copos de cerveja foram derrubados. Oitocentos e trinta e uma pessoas colocaram as mãos sob suas armas. Os vereadores boquiabertos. O mundo parou por dois segundos. O alienígena também.
Ele tentou fechar a porta. Tarde demais. O prefeito já chamava a equipe de marketing. Punha o pé direito na plataforma. Trazia um sorriso no rosto. Falava em códigos. O som saía de um buraco no meio de um rosto. O alienígena nunca havia visto algo tão feio, tão de perto. E ainda cheirava à cebola!
A assessora atrás, tomando nota. Lhe assustava mais o desemprego que aquela coisa desengonçada e cheia de olhos. Na internet já lhe chamavam de polvo com dedos. Disseram as notícias "finalmente conhecemos o Bilú!". A oposição já rascunhava argumentos políticos.
No Japão, um criativo pensava num enredo para anime. Steven Spielberg mandou agentes para capturarem com câmeras de alta resolução. Uma das mulheres da plateia se apaixonou imediatamente. O nome 'Etevaldo' disparou no IBGE, ultrapassando Enzo e Valentina.
Um homem compôs uma letra de funk, quatro duplas sertanejas goianas adaptaram a canção, trocaram "buscar conhecimento de fumo com Bilú" por "Descer pra buscar conhecimento em BC com Bilú", mas o arrocha é que, efetivamente, embalou as danças no TikTok.
Agora, Bilú tinha nome. Foi alvo de grandes debates filosóficos. Viajou pelo mundo sendo estudado. Pensava que seriam boas aquelas férias. Foi ficando fluente em português, mas não conseguia falar, seus dedos não seguravam caneta, então ficava ali em silêncio enquanto recebia visitas de figuras importantes em sua nave. Um influenciador digital explorou a nave, a lei da proteção extra-terrestre foi fruto de discussão no Senado. Ganhou um carro alegórico no carnaval carioca. Passou o verão em Trancoso com artistas e influenciadores. Apesar da moeda corrente ser o real, sempre lhe cobravam em dólar. No Rio, os ambulantes lhe chamavam de gringuex. Comeu pão-de-queijo em Minas Gerais. Experimentou tereré no Mato Grosso do Sul - achou amargo. Gostou, mesmo, é do açaí.
Foi a um programa de auditório. Gravou clipes musicais de Trap. Teve duas namoradas. Uma lhe ensinou samba de gafieira. A outra, abriu para ele as redes sociais. Bancos se digladiaram para que Bilú tivesse uma conta-corrente, queriam que fosse ali feito o primeiro PIX. Publicitários já preparavam piadocas com parcelamentos no crédito. Não houve sucesso na abertura da conta, faltava à Bilú um CPF.
Sem documentos, sem origem conhecida, os cursos de Direito preparavam pós-graduações sobre direitos inumanos, para definirem se Bilú era ou não era coisa, a quem pertencia e se alguém poderia ser preso por homicídio contra extraterrestres. O Detran refletia se multava a nave, o IBAMA, se protegia o habitat. Mecânicos se perguntavam como poderiam fazer um Fiat Uno voar. Xuxa Meneguel gravou stories por lá, atrapalhando duas potencias mundiais de sequestrá-lo.
Ganhou uma barriguinha pelos excessos e foi convidado por marombeiros para passar por uma transformação física a ser acompanhada pelo YouTube. Sem sucesso. Gostava muito de açaí e fingia incompreensão quanto a esse ponto da ficha da dieta.
A Elite parou de visitar Bilú depois que a classe média conseguiu passagens aéreas para turistarem na nave. A classe média parou quando programas governamentais permitiram o acesso via ônibus pela classe D. O dono do lote procurou os advogados, o tempo estava propício e precisava plantar soja. Os movimentos sociais defenderam a estadia de Bilú. A nave era muito pesada para os guinchos da execução judicial. E Bilú, que já tinha um laranja, seu empresário, fugiu de diversas execuções por danos materiais contra o produtor rural.
O empresário laranja lhe vendeu um Peugeot 207 por quinhentos e sessenta mil reais à vista - o que Bilú achou boníssimo negócio. Entrou no sedã com certo orgulho por ter feito o empresário de otário.
As visitas cessaram. Ano de Copa e só se falava de hexa. Bilú já estava sem tempo, mas aprendeu a não ficar ansioso por meros quinze minutinhos a mais. Decerto o patrão relevaria. Retirou o motor do carro e finalmente conseguiu voltar a ter um propulsor ultrassônico funcionante. "E por uma pechincha!", pensou.
Partiu da atmosfera ouvindo Dominguinhos na JBL.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
A arte de recordar
A vida é tênue, frágil como...
como aquele...
aquele negócio de neve. Grão? Não é não.
Onde já se viu grão de neve? É redondinho e geométrico.
Eu nem sei quantas formas tem. Cada um vem de um jeito.
Derrete quando paira do céu e cai no dedo.
Está em todas as decorações de natal brasileiras...
Não sei por qual razão, o natal daqui é quente, quente.
Definitivamente não é grão. Grão é de areia, de arroz, mas não de neve.
No momento, a vida é um grão de areia no shorts de praia...
Deixa pra lá essa analogia.
...
Não consigo pensar em outra coisa! Que ridículo.
Neve. Nevasca. Pense gelado. Vamos lá...
Bolotinha de neve? Santo deus! É um negocinho meio translúcido.
E não é grão!
Pão de neve?
Nevinha?
Nevita?
Ah, esquece! Segunda tem Fla x Flu.
No Brasil nem neva. Diabo de analogia.
Vou é assistir comendo um pote de sorvete.
Sorvete de flocos.
Floco!
A vida é um floco de neve. Amém!
Mas por que, mesmo?
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Pq?
Só me sentirei verdadeiramente adulta quando não precisar pesquisar os quatro porques: por que, porque, por quê, porquê. Esse é o ritual de passagem que defini há não sei quantos anos... talvez, desde que descobri que "há" não significa só "existir", mas também tempo decorrido. Talvez, antes ainda, quando achava que era ezistir. Som de zê, deveria se escrever com zê, oras! Se não sei minha língua materna, sobre o que sei da vida? Nada.
E foi com essa reflexão em mente que declarei meu primeiro Imposto de Renda:
Pq?
terça-feira, 28 de abril de 2026
O Manifesto Egoísta
Pessoas egoístas sofrem. Se são egoístas demais, nem sequer sabem o por que sofrem. Mas sofrem. E a dor vem da falsa crença de que têm direito à tudo o que anseiam. Toda quebra de expectativa é tida, portanto, como uma injustiça. Uma vil injustiça!
Esses sujeitos são variados e vivem cercados de si mesmos. Seus interesses podem estar tanto em um cercadinho doméstico quanto em um cofre subterrâneo sob um abrigo de aeronaves de uma base da OTAN. O egoísmo, portanto, é um espectro.
Seja num cercadinho, seja num bunker, a existência egoística é paradoxal. Afinal, se tem direito a tudo o que desejam - o que anseiam, mesmo, é o próprio anseio. E por milionário que seja, o egoísta corre em círculos, feito um cachorro atacando a própria calda: quer mais e mais. É coisa da natureza humana, querer mais, tal qual uma rinite... ou... uma escoliose.
Se existem egoístas, eles devem ter contribuído com algo para nossa cadeia evolutiva. Sem querer cientificizar demais, mas é extremamente provável que os sanitários individuais e o instituto legal dos danos morais tenham sido contribuições indiretas deles. Afinal, como caminham pelo mundo, com a plena certeza de que merecem tudo, deixam xixi em volta da privada e trombam nos outros com muita frequência. Mesmo sem senso de coletivo, ainda assim contribuem para ele.
Então, pensem assim, toda vez que se perceberem dentro de um cercadinho, notando acreditar que o mundo inteiro cabe ali dentro, tenham orgulho do quanto contribuíram e contribuirão para humanidade! Estão sem ideias sobre onde podem contribuir? Indenizações por danos temporais! Para construir uma necessidade legal, precisa-se de muito mais jurisprudência! Então, se estiverem se sentindo pra baixo: univos a vós mesmos e abram mais um telemarketing! Demitam a secretária! Viva o atendimento automatizado!
sábado, 11 de abril de 2026
Matadores em série
Deparei-me com a notícia de que há menos matadores em série hoje, no mundo, que nos anos 1980. Os EUA são o maior exemplo disso. E se há uma queda acentuada por lá, há uma queda acentuada global por consequência porque, curiosamente, lá é que se encontra o maior número desse perfil criminoso. Têm muitas teorias sobre o declínio na terra do Tio Sam: eficiência policial, a liberação do aborto e os muitos avanços forenses genéticos que impedem que um assassino faça muitas vítimas.
No entanto, cá no Brasil, o aborto ainda é crime, a polícia trabalha com os recursos de um palhaço de circo e no presídio só cabem detentos desalmados (com alma, dá superlotação). Então, pensei com meus botões, porque por aqui não vemos tanto esse tipo de crime? Meu amigo, concluí que é a escala 6x1. Acompanhe-me:
Para ser um matador em série é preciso, acima de tudo, de tempo. Não dá para perseguir uma pessoa após 8h de expediente e nem perder o descanso do domingo mutilando um defunto. Quem é que tem horário, neste país, de sair do ponto de ônibus, vigiar a vítima, correr atrás dela, arrastar um corpo de 70kg e ainda ter de descongelar o frango para a janta?! É simplesmente impossível. É um tipo de crime de países mais desenvolvidos, sabe como é?
Pode argumentar aí que temos crimes de sobra no Brasil, que todos nós já passamos por algum assalto na vida. Mas repare bem que ladrão brasileiro não é vagabundo. Repare bem que ele assalta após o horário comercial ou nos feriados e finais de semana. Tanto é que um foliante, no carnaval, já vai preparado com dois celulares para a folia (um pro assaltante). O crime neste país é uma das poucas coisas que são organizadas!
Matar em série, por outro lado, exige maior comprometimento que um assalto que acontece em 5 minutos, ou até mesmo um sequestro relâmpago que, como o nome já diz, exige uma menor jornada de serviço.
Olhe, se o psicopata for realmente comprometido com sua vilania, neste país tropical, fica sem ter como pagar o aluguel. Nenhuma empresa toleraria tanto atraso! Ao contrário dos seriais killers norte americanos que sempre tiveram, às custas da exploração imperialista, tempo suficiente para suas tramóias! Isso é desigualdade na prática.
É dos ianques os maiores nomes sanguinários que matam sem intenção útil. Enquanto no Brasil, os psicopatas matam como meio para algo: herança, tráfico, uso de drogas, pagamento de agiota e crime do colarinho branco, for the americans, é a morte pela morte. O american way, talvez seja tão consumista, que a contracultura seja o prazer de caçar sem finalidade de lucro.
Pois bem, a notícia ruim é que na terra da liberdade houve queda dos serial killers mas aumento dos mass murderes. Quase 4 mil assassinos em massa registrados! Registrados, veja bem — porque lá até isso tem controle. Por lá já estão cheios de detectores de metal nas escolas fundamentais. E no nosso país? Neca de pitibiribas!
A não ser que haja um sindicato dos matadores em série, neste Bananil, teremos que nos contentar com mais um documentário sobre a Richthofen.
segunda-feira, 30 de março de 2026
Arriscado
Hoje, tenho mais medo que ontem
de subir em lugares altos
de quebrar um osso
de andar sozinha na noite escura
de perder um amigo
Hoje, tento mais que antes
controlar a altura dos meus pulos
a rigidez dos meus movimentos
andar só à luz
calar o que sinto.
quinta-feira, 26 de março de 2026
Sobre poesia
Tirei de uma cena da adaptação de "Persuasão" que a poesia raramente é apreciada com moderação por aqueles que a desfrutam por inteiro e que só quem conheceria a perda conseguiria apreciar Byron a ponto de ficar depressivo. E concordo.
A poesia é potente! Ela potencializa nossas emoções porque conversa com elas intimamente, nua. Um bom poema nos faz encenar, por dentro, os mecanismos que a neurociência estuda.
Um tal Pavese meditou que escrever é como conversar sozinho com uma multidão. Disso, é fácil inferir que poetizar é como revelar grandes segredos em voz alta e contar fluentemente sobre o que é indizível.
Note que o que se sente durante um episódio de raiva está além da definição estabilizada do dicionário ou da neurociência. Sentimos aversão e nossos neurônios se agitam? Sim. Mas, e o ódio de Banchs? Já sentiu assim?
(...)