Ao invés de assistir ao jogo, prefiro acompanhá-lo pela janela: vuvuzelas, os pulos de alegria, Vai Vini!, É o Casemiro! Com a vitória, sei que vou sentir cheiro de churrasco saindo de todas as casas.
As pessoas estão em casa, vibrando pelo futebol brasileiro. Consigo ouvir os papos, a movimentação dos carros. Vi que a companhia de internet está trabalhando incansavelmente para recuperar cabos de internet que foram furtados na noite de ontem. Os coitados, com o uniforme da seleção, suados, temem que eles mesmos percam a transmissão. Os ladrões, talvez, sejam as únicas pessoas sem fé no hexacampeonato.
Sentada em silêncio, posso ouvir homens e mulheres gritando, como se fossem eles próprios os donos da bola. Por baixo das cadeiras de plástico, sei que chutam o ar, viram o tronco, cabeceiam, alguns quase arrancam os poucos cabelos que tem.
Um grande silêncio repentino, sei que o gol não foi nosso, mas do Japão. O brasileiro está espantado e receoso, e assim permaneceu por trinta minutos.
Ouço um uníssono "uuuuUU!" se agudando, e sei que o gol foi quase nosso. 14h18, e a alegria se derramou pelas ruas da minha cidade. Quem assiste pela TV gritou depois de quem assistiu pela internet e o efeito sonoro veio subindo a Avenida feito uma onda.
Mais um gol, e um daqueles! Feito em tempo de prorrogação. Aplausos, gritos, fanfarra, tambores. Mais uma esperança me é trazida pelos ventos: será que vem mais um? Não veio. Apita o árbitro lá no campo, apitam os árbitros de suas casas: é fim de jogo. Vitória! Uns torcedores buzinaram pela praça, outros retornaram à labuta mais felizes que antes, assoviando que a Taça do Mundo Será Nossa.
Os técnicos de internet respiram aliviados - os ladrões, também.
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