quinta-feira, 2 de julho de 2026

Sorria, você está sendo filmado

 Não é que não haviam câmeras na minha época. Pelo contrário, havia muitas delas! Mas guardadas nos bolsos e gavetas. As de vigilância também eram incomuns. Só as pessoas mais ricas que eu conhecia tinham câmeras nas campainhas, mas mesmo assim era normalíssimo que as lentes estragassem e ninguém se lembrasse muito de consertá-las. 

 Nessa época, os comerciantes compravam câmeras de brinquedo e punham uma plaquinha logo embaixo informando "Sorria, você está sendo filmado", para pôr medo nos mãos-leve da cidade. Não sei se no Brasil todo, mas no interior era assim. E não é porque as pessoas tinham menos medo - e estava ali a indústria das câmeras de mentirinha para provar meu argumento. A questão é que era caro ter sistema de segurança. Era caro ter câmeras. Finito.

 Hoje, olho em volta e há câmeras em todos os lugares, em todas as salas, os comércios, casas, terrenos baldios. E a plaquinha pedindo nosso sorriso está rara. Certa vez, vi uma câmera envolta numa grade de ferro. E já vi sistemas de câmeras filmando os próprios sistemas. A segurança precisando de segurança... 

 Os olhos biônicos não se limitam aos prédios: existem câmeras pequenas embutidas em óculos, relógios, até anéis. A tecnologia dos espiões foi tão democratizada que nem sei o que resta para a profissão deles. 

 E atualmente tudo é muito inteligente. Geladeiras, fogões, cadeados e câmeras de segurança inteligentes que possuem detecção de rostos. Lembro de assistir CSI: Nova Iorque e pensar que nada disso seria possível, mas é! A China ta aí para embasar meu argumento. Onde a gente vai, é registrado e armazenado num banco de dados.

 A rua da minha casa, cheia de viúvos, foram-se os cônjuges, vieram as câmeras. Acho que foi em 2018 a última vez em que saí seminua de casa para estacionar meu carro, sem o menor receio de ser vista. Tem uma outra rua que, lá em 2009, eu e meus amigos apostamos corrida, de calças arriadas, mas que hoje também está toda vigiada. 

A três ruas daqui, beijei uma menina, na minha fase de bissexual festinha, e sei que nada daquilo foi visto por ninguém. Numa avenida, troquei beijos com um ficante da escola, matei aula numa esquina, fumei um baseado no terreno baldio no final da cidade e já dancei inúmeras vezes enquanto fugia de casa para encontrar a Mari. E adivinhe só como estão essas ruas hoje? Câmera. Câmera. Câmera. E mais câmera!

   Lá em 2010, quando eu, o Gordo e o Caveira fomos acender um cigarro numa sarjeta deserta, que o Gordo chamava de "Pico da Lua", fomos parados por policiais à paisana. Naquele dia, me recordo bem, achei que tínhamos atingido o apogeu da hipervigilância. Lembro de pensar que nunca estivemos realmente livres para fazermos o Nada, parados, num lugar incomum. Sempre temos que ter uma justificativa para o nosso próprio comportamento. E só de pensar que aquela abordagem não representa 1/3 do que vivemos hoje...

 Para sentir algum tipo de liberdade, gosto de comprar um lanche, um refrigerante, parar meu carro num lugar mais escuro, e ficar vendo a humanidade passando pra lá e pra cá. Ou vou num canto mal iluminado, no final da cidade e fico vendo o nada, fazendo nada, comendo batata frita com a perna esticada no painel. Dentro do carro. Trancada. 

Há dias em que vou de bicicleta. À noite. No escuro. Desafiando minha ansiedade para matar a saudade de deitar na grama e olhar pro céu. Saudade daquele tempo antigo das câmeras de brinquedo. É preciso aproveitar, antes da instalação das lâmpadas de Led públicas. Drones de policiamento serão uma realidade? Quem sabe? A lua segue límpida no céu.

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