Os tempos são cada vez mais outros. Meu irmão queria de presente um pião de madeira para brincar. Peão de madeira? E ele: “É um pião de madeira.” “Onde?”, perguntei. “Na internet”, ele respondeu. “Mas aqui na cidade tem e não se paga frete.” E fui eu atrás de um pião de madeira.
Na loja de brinquedos tem de tudo, jogos de tabuleiro, skates elétricos e até óculos com fone de ouvido Bluetooth embutido. “Sem pião”, disse o vendedor. Noutra loja, o vendedor pensou que era um peão de rodeio. “É pião com i.” Passei em outras lojas; um vendedor idosinho me respondeu que isso era coisa velha. “Só pião elétrico, não quer?”
O mercado do pião de madeira entrou em queda; foi substituído pelo maior e mais luminoso Flash Light Spinning Pião Toy. Ele não tem corda, vem com um lançador automático e toca música enquanto gira. “Mas não é o que quero.” O vendedor orientou a tirar a bateria.
Os lojistas do camelô, um gritando para o outro, como se fosse aquela brincadeira de telefone sem fio: “Tem pião de madeira aí?”. Nada.
Cheguei numa outra banca de camelô. Ele, que já tinha ouvido a mensagem, já veio me adiantando que não havia essa mercadoria, que eu não deveria seguir perguntando por ali. Me orientou a buscar uma lojinha no mercado municipal.
Antes tinha tudo quanto é pião exposto em cestos, em todo canto, à venda a preço módico. Não era sequer para criança rica; criança rica brincava com plástico.
Pois chego na tal lojinha do mercado municipal e, lá dentro, muitos artesanatos de madeira, mas estava fechada. Na porta: vende-se esta loja.
Madeira, um metal e um barbante fazia crianças se interessarem por horas a fio. Para comprar, antigamente, era só solicitar um pião. Ninguém perguntava se era de madeira - a madeira era implícita. Quando foi a última vez que vi um pião de madeira? Na época em que ele não tinha adjetivo.
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