segunda-feira, 25 de abril de 2022

Prato principal

  Em algum momento nos vemos obrigados a nos conformar. Talvez esteja conformada, talvez esteja distraída com outros problemas, com outras felicidades. Troquei de mesa, passei a me alimentar de outras histórias. 

  Eu já estava bebendo de uma jarra que não tinha líquido, saciando a sede com a memória da saciedade. Sentando-me solitária à mesa, acompanhada da sua ausência, que há muito havia se retirado. Eu fiquei. Eu permaneci. E duro foi o processo de me retirar, também, do assento. Contentei-me com cada vez menos migalhas, lembrando do sabor do prato principal. E como era saboroso! 

  O dia em que lemos o mesmo livro juntos, em que olhou nos meus olhos, o que se prendeu em meus lábios. Do dia em que ouvimos música, das noites abafadas de conversas atropeladas. Daquele dia de chuva, repleto de boas risadas. O dia em que você derrubou café, o dia em que vi seus pés desnudos. O dia em que mostramos os dentes um para o outro. Os dias em que importamos um para o outro, nas trivialidades, dos segundos passageiros de curiosidade. De nós nos descobrindo. Das suas mãos no beiral da porta, da cabeça recostada, perguntando a razão do tempo passar tão rápido, do cheiro da sua respiração, dos seus ombros, cabelos, da sua voz. Da sua voz dizendo meu nome: feliz, manhoso, irônico, cantado, irritado, cuidadoso. Dos nossos assovios, dos nossos desenhos. E então, em algum momento, a mesa foi se esvaziando. O que tem no cardápio? Lembranças.

  A primeira vez que você se afastou, saborosa era sua presença. Da primeira vez que você me criticou, saboroso era seu elogio. Dos muitos dias das ondulações de humor, saborosa era sua constância. Das discussões que davam em remorso, saborosas eram as intelectuais. De tentar te odiar, te amando. Da minha solidão, na mesa, contentando-me com o sabor de cada passo de sua saída.   

  Da minha saudade, quando saborosa era a história. E não a realidade. 

  A escrita não expressa o meu levantar da mesa. Os passos difíceis de empurrar a cadeira, levar os pratos, os talheres. Colocar as cadeiras no lugar. Ali, sequer haviam sobras. Essas coisas só se descrevem em mim mesma. Não têm nome e nem como nutrir.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Bateu à porta

 Bateu à porta, e eu abri. Senhoras e senhores, toquei a maçaneta e me surpreendi. Ora, ora, se não é a felicidade! "O que eu faria contigo em minha vida?", pensei, "não saberia onde acomodá-la". De todo modo, eu disse "entre, entre", e ela entrou. 

É tudo muito simples, nada demais. Por favor, não repare a bagunça. Por fora, a casa é bonita, não é? Pelo menos não é horrível. Vamos, ah... não precisa tirar os sapatos. Entre do jeito que está. Está perfeito! Bom, por dentro, se notar, estamos redecorando, por isso a bagunça. Veja, não tenho muito a oferecer agora, sua vinda pegou-me de surpresa. Mas é uma surpresa muito bem vinda. Bem vinda! Gostaria de fazer-lhe morada, de todo coração, mas esses cômodos... Olhe bem esses cômodos! 

Na verdade, acho melhor que repares, sim, a bagunça. As pilhas de roupas ali, os livros não lidos, um tanto de sujeira do passado. Repare, sim, para que não pense que não te quero por aqui e estou a arranjar desculpas esfarrapadas. Eu é quem sou esfarrapada, enquanto você é...a Felicidade. A felicidade em pessoa, pisando nesse muquifo. Já me arrependo de tê-la convidado a entrar. Ah, vieste para ficar? Veja, como poderia eu te deixar confortável por aqui? Dormiria de pé, tenho certeza disso! 

Não.. não, o problema nunca foi e nunca será você. O problema é esta sala aqui, mal arquitetada. É este piso irregular. São estas paredes descascadas e essa iluminação caótica. Tanto ocorreu por aqui, espero que entenda, tanto ocorreu por aqui!

Olha ali, repara bem, pretendo fazer dali uma varanda, e daquelas com sacada! Pretendo reformular a decoração e reestruturar as bases, mas o processo é bastante barulhento e constrangedor. Acho que, se houvesse a varanda, poderia te acomodar por todo o sempre. Como eu gostaria de já ter essa varanda, ou talvez uma boa janela. Uma boa janela e você ocuparia tudo por aqui. Juro, dar-te-ia o prédio inteiro! Mas, por agora, este lugar não é digno dos teus pés. Vamos, agora... te mostro a saída. Cuidado para não tropeçar, sinto muitíssimo, há um trauma ali, naquele degrau. Desculpe-me. Adeus. Adeus.

Ah, foi-se embora a felicidade. Ah, como gostaria que não fosse! E foi-se, para nunca mais voltar.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Remetente

Às cartas nunca entregues, relato

Meu luto e meu pesar

Santa a intempérie dos enamorados!


Destinatários perdidos...

Papéis extraviados

Confissões jamais lidas,

e segredos nunca revelados


No fundo dos armários

Lançadas ao vento

Desintegradas no mar

Aos quatro elementos!


A água a afogar

escritas de tanto alento

O fogo a inflamar

a frágil tinta dos sacramentos


A terra a enterrar

as letras dos amores lentos

No ar, a flutuar

o cessar dos sofrimentos


E o tempo, apressado em se esgotar

e a nunca te contar

o segredo do meu sentimento

quinta-feira, 14 de abril de 2022

O segundo em que tudo cresce

Na infância, o tempo é vagaroso
365 dias valem uma vida quase inteira!
Nada há nele de assombroso
Neles dançam os segundos em brincadeira

Sapateando, juntam-se os números, um à um
dos segundos às horas. Ora, nada incomum!
Do relógio ao calendário, o extraordinário
O momento tornou-se sumário!

No livro do crescer: Setecentos e trinta dias de sol
Mil e noventa e cinco dias da noite derradeira
Mil quatrocentos e sessenta e um dias de solo
Então germina no peito, o sentimento de cerejeira

O tempo é lento... 
Ao passo que rápido
Um estranho devagar
Brotou no peito um afeto que se funde com o amar

A semente vira planta
Em um segundo que nunca avança!
Em qual momento podemos precisar?
Como notar quando rompe a terra, a esperança?

Ouve, ouve bem dentro de ti o titubear
É o instante da primavera
É a semente que os céus quer laçar
Em tão pouco, o muito a raiar!

Da raiz ao broto, até o fruto que do galho se lança
Entre o sonambulismo e o acordar
A fração de morte e vida... E assim, repentina:
A fruta, ao pé balança.





sexta-feira, 25 de março de 2022

Eu estou escrevendo um livro chamado "Triz"

 Já o escrevi, reescrevi, reformulei, re-reformulei, desconstruí e reconstruí e construí do zero, depois subtraí, multipliquei por zero, apaguei tudo e então recomecei, e assim por diante, numa conta matemática que só faz sentido para quem é de humanas. Acho que ele nunca irá acabar. Acho que nunca darei conta de pôr um ponto final. Mas, cá está o primeiro capítulo: