Talvez você retorne aqui e todos os textos tenham sumido ou note que as palavras foram trocadas e o sentido de um poema, de um texto, de uma frase, de um aforismo foi totalmente invertido. Aqui é RASCUNHOlogia, não Definitivologia.
segunda-feira, 26 de abril de 2021
Sacramento da penitência
terça-feira, 13 de abril de 2021
O seu papel no mundo
No momento de sua queda, no ponto baixo da história que passava na televisão, o protagonista se preparava para um confronto aparentemente impossível, e por duvidar de si mesmo, perdia as forças para ultrapassar o obstáculo. Estava ali, prostrado, com lágrimas nos olhos, enquanto uma música triste trazia todo o drama de seu sofrimento. Ele perderia? Ele sucumbiria? Seu flagelo feito para tocar os sentimentos de empatia do espectador me provocavam certas dúvidas.
Quando criança, eu assistia a esses filmes populares, e esses momentos em que o personagem principal se frustrava e pensava em desistir, não me desciam bem. Como você não sabe, protagonista, que todos os olhos estão em você? Quantas vidas você mudou, que o cenário tem o espaço exato para que você passe, que a câmera está centralizada na sua figura? Como não sabe, protagonista, que você é o mais belo, que suas roupas são as que mais brilham e que o vilão é fraco, tanto mentalmente quanto fisicamente, quando comparado a você? Todos os sinais são tão óbvios, protagonista!
Ora, porque ele, justamente ele, o próprio protagonista da história, tão obviamente escrito para vencer, duvidava de si mesmo, de sua capacidade de ultrapassar aquilo tudo?! O roteiro já estava concluído, era ele o campeão, como era idiota da parte dele se prostrar!
Prosseguia-se a história e todo seu drama, e então o protagonista recebia uns safanões de um personagem secundário, seja o treinador ou o melhor amigo, e ele era impulsionado a se reerguer com um discurso grandioso e sentimental. O protagonista, então motivado, tornava-se ciente de seus poderes, ali mesmo na beira do abismo, quando tudo parecia perdido, e vencia... Vencia! Surpreendendo sem surpreender o telespectador, que por ele torceu durante toda a película.
E ouvindo que a vida imitava a arte, achava que notaria, na minha própria história, quando seria a protagonista. Sim, eu saberia! Seria como se minha vitória tivesse sido escrita por roteiristas de filmes blockbuster. Sim, eu não me entregaria a tristeza fútil, porque não teria espectadores a quem incutir empatia, já que a história seria minha e o enredo do mundo seria eu, eu, EU! E explosões aconteceriam, e o romance! E a alegria incontestável de ser a personagem principal, de estar centralizada na câmera me embriagariam! Eu saberia, exatamente, ser a protagonista que sorri, com uma música emocionante, quando então os créditos começam a subir e a imagem começa a se apagar lentamente. A música de uma emocionante vitória. O sorriso de um final feliz. Uma vida com início, meio e fim.
Como doeu perceber, com os anos, que a minha vida não seria aquele clichê todo, que nunca saberia se era a protagonista, a personagem secundária ou apenas a figurante que foi contratada pela produção para fazer volume na plateia, enquanto o verdadeiro personagem sorri durante a rolagem dos créditos.
Quem seria eu no mundo? Por qual razão pisaria naquele ringue para combater alguém, se não tinha certeza de sua relevância para o enredo da vida? Errei tantas vezes, tentando me adequar a uma narrativa, e tantas vezes percebi que ela não era sobre mim, e tanto me humilhei e machuquei por acreditar que aquela história teria minha participação de alguma forma! Quantas desculpas eu deveria pedir por ter atrapalhado? Assumi papéis de antagonista, sem querer... ou sequer o interpretei? Essas dúvidas me fizeram retroceder tantas e tantas vezes, que não protagonizo sequer meus pensamentos, eles estão cheios de outras histórias!
Nunca sabemos, nunca saberemos com certeza, se nosso caminho trata-se da trajetória do campeão. Não deveríamos desistir, acredito, devido a essas incertezas todas. De qualquer modo, precisamos ser e precisamos ter aquele que estapeia o rosto e motiva. Suba na porcaria do ringue, lute e se esquive, sem pensar se irá triunfar ou cair em uma cadeira esquecida ali no canto, tornando-o paraplégico. Você não tem um roteiro a seguir, temos um papel e uma caneta e uns rascunhos, e talvez nem precise disso tudo, de qualquer modo. Sobem os créditos, talvez eu seja a "jogadora nº 2" ou nem esteja neles. E daí?
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
O amor sempre deixa indícios
O amor sempre deixa indícios, e assim abriu-se a investigação. O objetivo? O objetivo seria o flagrante! A prisão! A justiça! Esse seria segundo flagrante, na verdade... Para melhor compreensão, é preciso contextualizar os fatos. O primeiro "flagrante", e aqui sinto constrangimento em dizer, deu-se quando o amor entrou em minha própria propriedade privada e foi se ocupando... ocupando, furtivamente, até que o encontrei por infestado em todas as frestas de todos os cantos. Até localiza-lo, fui vitimada por vermelhidões espontâneas, sentimentos desequilibrados e intensos, passava do riso ao choro em questão de segundos, sentia um enorme vazio que era preenchido repentinamente por você. Note, encontrei-o tarde demais, quando já não podia sair de mim. Que tipo de criminoso é esse que se alastra na vida e depois não sai de jeito nenhum? Seria isso algum tipo de doença? Pois bem, em depoimento, obtive o nome do invasor: amor. Seu crime: influenciar meu humor. Sua motivação: desconhecida. Ele alegou ter chegado através de uma arma branca, do tipo flecha, atirada de um arco, por uma metáfora relativa a lenda do "cupido". Claramente embriagado ou sob efeito de psicotrópicos, não logrei obter sua real motivação e origem, ao passo que desisti de realizar qualquer outra acareação.
Notavelmente sofri danos, e claramente precisava de uma reparação. E daí em diante, fui me questionando os por quês, decifrando seus motivos, que se desdobravam em outras diversas linhas investigativas, e tudo isso a fim de exilá-lo, mas não consegui. E é por isso (ou porque o amor já me controlava totalmente?), retomo, que dei início a inspeção. Foi uma investigação um tanto arriscada, de fato, que utilizou um método não convencional e que colocou minha própria felicidade em jogo. "Talvez" - pensava a essa altura - "encontrarei no outro a resposta para o que estou vivendo e me livre de vez de qualquer sentimento delituoso". Pensei bem e raciocinei "Talvez seja o outro o próprio mandante" e não muito depois, me surpreendi com a hipótese "Talvez o amor seja apenas a consequência e que outro seja o principal envolvido! Sim, o amor não possui culpa alguma. Isso tudo é a culpa do outro". Eureka.
Bom... no começo pensei em ser direta "Ei, você me ama? Eu tenho um amor aqui, e não sei bem o que fazer com ele, não quer sair, preciso que se responsabilize também por isso!", mas através da observação do perímetro, e da possível ocorrência de reação violenta, constatei o óbvio "Qual criminoso se entregaria tão rapidamente?". Me deu uma certa frustração não poder confrontar de vez o investigado, um certo receio... então prossegui buscando mais provas antes de uma possível inquirição, afinal, não quero que ocorra uma fuga desnecessária ou um processo administrativo contra minha pessoa, por iniciar uma investigação infundada - seria trágico. TRÁGICO!
Os primeiros questionamentos objetivavam identificar se o tal investigado possuía qualquer conduta típica prévia, se o investigado possuía o dolo específico de lesionar ou se sequer possuía ciência da ilicitude e reprovabilidade de sua conduta. Foi realizado acompanhamento tático e, após, montada campana de monitoramento de seus comportamentos civis, no intuito de responder a questão: "Será que age de maneira diferente com relação a mim?", nada de anormal fora constatado, tendo em vista seu bom comportamento ter se demonstrado comum a todos.
Para além disso, fez-se necessária a busca de outras provas, como a cooperação com testemunhas oculares, agentes infiltrados, consultores, psicólogos e toda baboseira contida em fóruns de páginas de internet. Ainda, disfarcei-me de diversas formas, a fim de obter a mais cândida versão do ocorrido e nada! NADA FOI OBTIDO!
A conclusão de que talvez não fosse culpa do investigado, que sua potencialidade lesiva era ínfima e que tal flecha atirada em minha direção, tenha sido acidental, me foi pessoalmente perturbadora. Até então, eu cria possuir a intuição policial, no entanto, o amor lastreado interferiu fortemente em minhas percepções: ora o via como autor, mesmo sem provas concretas, ora o via como um inocente, que estava no local errado, na hora errada, e ora me via como a principal culpada. Na verdade, de fato, talvez só existam inocentes... são tantas possibilidades! Daí que abandonei as investigações. Minhas percepções policiais estão avacalhadas, não há como considerar o anseio dos indícios e as provas corrompidas pelos desejos do amor. Fecho aqui o caderno investigativo sem crime ou autor. Um interrogatório poderia ser a única saída? Nunca. "Servir e proteger"? esse lema encontra-se evidentemente desatualizado.
O amor sempre deixa indícios e se não os há... não o há...
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
O que restará
Quando isso tudo começou? Inconscientemente, naquele primeiro milésimo de segundo, ouvi um solo inteiro de guitarra. Iniciou-se, ali, o processo de ebulição do que hoje - e isso afirmo com toda certeza - tratou-se da maior explosão já explodida na história das bombas atômicas. E o que vejo, agora, é um cenário pós-apocalíptico.
E agora? Agora, nesse momento, só resta é chorar. Chorar e sentir, sentir até que se entedie dessa guerra interna e se logre a paz. É isso que tenho em mãos, lágrimas, milhares delas, como únicas armas para estar no front. Aqui não há escolha, ou se enfrenta seriamente todas as ameaças, bola-se estratégias para sobreviver ou se afugenta para uma vida mais triste ainda.
Observem ali, que agora são cinzas, ali morava a saudade, logo adiante morava o amor, aqui abaixo dos meus pés residia a paz. Fundiu a matéria em migalhas e depois terei que reerguer tudo. Depois... depois... e depois? Não sei se adianta pensar nisso agora, mas meu pensamento sempre voa desenfreado pelo horizonte, principalmente em tempos ardilosos como estes.
É, talvez o depois me ajude a batalhar. Talvez o depois seja esperança! Sim... o depois será feito de reconstruir a mim mesma, assim, sem boa parte do que era, da mesma forma como as cidades se reconstroem no pós-guerra. É uma reconstrução triste e saudosa, essa de colocar tijolos novos onde haviam bases fortes construídas. Muito bem, bases! Não vou me engendrar em ódio, vocês resistiram enquanto puderam, aguentaram firmes os primeiros bombardeios, me serviram de abrigo até que de nós não restasse mais pedra sob pedra. Quanto ao depois, irei recriar tudo, com o privilégio de poder ajustar o meu mundo numa reorganização totalmente inusitada.
Agora, nesse instante, o que me resta é que não me resta mais nada.