segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O amor sempre deixa indícios

 O amor sempre deixa indícios, e assim abriu-se a investigação. O objetivo? O objetivo seria o flagrante! A prisão! A justiça! Esse seria segundo flagrante, na verdade... Para melhor compreensão, é preciso contextualizar os fatos. O primeiro "flagrante", e aqui sinto constrangimento em dizer, deu-se quando o amor entrou em minha própria propriedade privada e foi se ocupando... ocupando, furtivamente, até que o encontrei por infestado em todas as frestas de todos os cantos. Até localiza-lo, fui vitimada por vermelhidões espontâneas, sentimentos desequilibrados e intensos, passava do riso ao choro em questão de segundos, sentia um enorme vazio que era preenchido repentinamente por você. Note, encontrei-o tarde demais, quando já não podia sair de mim. Que tipo de criminoso é esse que se alastra na vida e depois não sai de jeito nenhum? Seria isso algum tipo de doença? Pois bem, em depoimento, obtive o nome do invasor: amor. Seu crime: influenciar meu humor. Sua motivação: desconhecida. Ele alegou ter chegado através de uma arma branca, do tipo flecha, atirada de um arco, por uma metáfora relativa a lenda do "cupido". Claramente embriagado ou sob efeito de psicotrópicos, não logrei obter sua real motivação e origem, ao passo que desisti de realizar qualquer outra acareação. 

  Notavelmente sofri danos, e claramente precisava de uma reparação. E daí em diante, fui me questionando os por quês, decifrando seus motivos, que se desdobravam em outras diversas linhas investigativas, e tudo isso a fim de exilá-lo, mas não consegui. E é por isso (ou porque o amor já me controlava totalmente?), retomo, que dei início a inspeção. Foi uma investigação um tanto arriscada, de fato, que utilizou um método não convencional e que colocou minha própria felicidade em jogo. "Talvez" - pensava a essa altura - "encontrarei no outro a resposta para o que estou vivendo e me livre de vez de qualquer sentimento delituoso". Pensei bem e raciocinei "Talvez seja o outro o próprio mandante" e não muito depois, me surpreendi com a hipótese "Talvez o amor seja apenas a consequência e que outro seja o principal envolvido! Sim, o amor não possui culpa alguma. Isso tudo é a culpa do outro". Eureka.

   Bom... no começo pensei em ser direta "Ei, você me ama? Eu tenho um amor aqui, e não sei bem o que fazer com ele, não quer sair, preciso que se responsabilize também por isso!", mas através da observação do perímetro, e da possível ocorrência de reação violenta, constatei o óbvio "Qual criminoso se entregaria tão rapidamente?". Me deu uma certa frustração não poder confrontar de vez o investigado, um certo receio... então prossegui buscando mais provas antes de uma possível inquirição, afinal, não quero que ocorra uma fuga desnecessária ou um processo administrativo contra minha pessoa, por iniciar uma investigação infundada - seria trágico. TRÁGICO!

  Os primeiros questionamentos objetivavam identificar se o tal investigado possuía qualquer conduta típica prévia, se o investigado possuía o dolo específico de lesionar ou se sequer possuía ciência da ilicitude e reprovabilidade de sua conduta. Foi realizado acompanhamento tático e, após, montada campana de monitoramento de seus comportamentos civis, no intuito de responder a questão: "Será que age de maneira diferente com relação a mim?", nada de anormal fora constatado, tendo em vista seu bom comportamento ter se demonstrado comum a todos.

  Para além disso, fez-se necessária a busca de outras provas, como a cooperação com testemunhas oculares, agentes infiltrados, consultores, psicólogos e toda baboseira contida em fóruns de páginas de internet. Ainda, disfarcei-me de diversas formas, a fim de obter a mais cândida versão do ocorrido e nada! NADA FOI OBTIDO!  

   A conclusão de que talvez não fosse culpa do investigado, que sua potencialidade lesiva era ínfima e que tal flecha atirada em minha direção, tenha sido acidental, me foi pessoalmente perturbadora. Até então, eu cria possuir a intuição policial, no entanto, o amor lastreado interferiu fortemente em minhas percepções: ora o via como autor, mesmo sem provas concretas, ora o via como um inocente, que estava no local errado, na hora errada, e ora me via como a principal culpada. Na verdade, de fato, talvez só existam inocentes... são tantas possibilidades! Daí que abandonei as investigações. Minhas percepções policiais estão avacalhadas, não há como considerar o anseio dos indícios e as provas corrompidas pelos desejos do amor. Fecho aqui o caderno investigativo sem crime ou autor. Um interrogatório poderia ser a única saída? Nunca. "Servir e proteger"? esse lema encontra-se evidentemente desatualizado.

  O amor sempre deixa indícios e se não os há... não o há...

 


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O que restará

 Quando isso tudo começou? Inconscientemente, naquele primeiro milésimo de segundo, ouvi um solo inteiro de guitarra. Iniciou-se, ali, o processo de ebulição do que hoje - e isso afirmo com toda certeza - tratou-se da maior explosão já explodida na história das bombas atômicas. E o que vejo, agora, é um cenário pós-apocalíptico. 

 E agora? Agora, nesse momento, só resta é chorar. Chorar e sentir, sentir até que se entedie dessa guerra interna e se logre a paz. É isso que tenho em mãos, lágrimas, milhares delas, como únicas armas para estar no front. Aqui não há escolha, ou se enfrenta seriamente todas as ameaças, bola-se estratégias para sobreviver ou se afugenta para uma vida mais triste ainda.

 Observem ali, que agora são cinzas, ali morava a saudade, logo adiante morava o amor, aqui abaixo dos meus pés residia a paz. Fundiu a matéria em migalhas e depois terei que reerguer tudo. Depois... depois... e depois? Não sei se adianta pensar nisso agora, mas meu pensamento sempre voa desenfreado pelo horizonte, principalmente em tempos ardilosos como estes. 

  É, talvez o depois me ajude a batalhar. Talvez o depois seja esperança! Sim... o depois será feito de reconstruir a mim mesma, assim, sem boa parte do que era, da mesma forma como as cidades se reconstroem no pós-guerra. É uma reconstrução triste e saudosa, essa de colocar tijolos novos onde haviam bases fortes construídas. Muito bem, bases! Não vou me engendrar em ódio, vocês resistiram enquanto puderam, aguentaram firmes os primeiros bombardeios, me serviram de abrigo até que de nós não restasse mais pedra sob pedra. Quanto ao depois, irei recriar tudo, com o privilégio de poder ajustar o meu mundo numa reorganização totalmente inusitada.

  Agora, nesse instante, o que me resta é que não me resta mais nada.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O subsolo

  Costumo olhar pro espelho para ver meu reflexo e costumo perguntar aos amigos sobre como me enxergam, pelo mesmo motivo. Gostaria de me conhecer por fora, quando sequer me conheço por dentro! De qualquer modo, especulo, e eis minhas conclusões:

  Eu, à primeira vista, pareço bastante séria, bastante calma, bastante dona de mim. Mais de perto, pareço ser cômica, pareço ser interessante e pareço ser inteligente. Mais de perto ainda, pareço nunca falar à sério, pareço encenada, pareço prepotente. Aproxime-se o suficiente, e pareço desesperada por atenção, narcisista, arrogante e estúpida. Mais um pouco, e é onde todos estacionam, pareço imatura, com pensamentos e reações infantis. Entre em meus pensamentos, onde nem mesma eu piso, e se deparará com o que sou de verdade: triste, obcecadamente triste.

  E por ser tão triste, acredito que acabo sugando as forças vitais dos outros, então é preferível que eu use de todos esses disfarces, a fim de que eu mantenha uma distância segura entre nós. Humana que sou,  quando se faz forçoso chorar, a lágrima não é a água que sai dos olhos, é a escrita que sai às pressas e compulsivamente. Assim que me alivio quando a pressão interna é demais.

  Externamente, choro em riso, que é mais legal.

Terminantemente

  Quando tudo está tão calmo e, repentinamente, algo te faz olhar aquela caixa de discos velhos, um cheiro antigo e conhecido se espalha no ar ou os olhos se lançam preguiçosos a uma fotografia recordada, nasce e morre, em um segundo, o estranho sentimento de que as coisas que acabaram, acabaram definitivamente, sem se ter como voltar atrás ou ir adiante. O cérebro remonta uma imagem que já se apagou no tempo e no coração, não existindo sequer saudade.

   A tristeza deu lugar à uma indiferença. Aquele tornado de sentimentos se finda e somente uma memória longínqua das lágrimas e dos sorrisos se fixa em um canto qualquer da mente. E rememorar a despedida dez vezes ao dia, como antes, é insistir em ouvir a um disco arranhado: irritante, e por isso desligou-se o som, quase que inconscientemente. Naturalmente, inunda-se o peito de um calmo silêncio. Foi-se a tanto tempo e tão terminantemente que as palavras da lápide, em meio a tantas outras lápides, de fato, se apagaram.

   É isso, e ponto final.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Sépia

  Li por aí que as experiências mentais equivalem às experiências reais para o nosso cérebro. Mas, ao meu ver, apenas equivalem, não são exatamente a mesma coisa, tanto é que conseguimos distinguir sonhos de ilusões de realidade - ou pelo menos deveríamos, uma mente saudável consegue.

 Eu vivo muito tempo dentro de mim e alimento conscientemente muitas ilusões de como a minha vida deveria seguir, vou escrevendo a história ao meu bel prazer, dispensando qualquer coerência ou senso de responsabilidade, logo, tudo que que imagino se torna perfeito. Na minha mente, nunca há chuva quando deve haver sol, todos os diálogos se seguem em perfeita consonância, ninguém realmente se machuca pelos meus atos e estou sempre de bom humor. Vou sonhando enquanto meu corpo vive no mundo real, idealizando as situações, sem realmente agir para que aconteçam, me contentando com a irrealidade.

 Mas existem esses momentos em que a realidade, que nunca deixa de fazer o seu papel, me acorda, e é horrendo ser acordada! Eu acordo sempre muito mal, querendo voltar a dormir, mas quando tento retomar o sono, já não existe cama, não existe qualquer contexto que deixe me confortável pra sonhar, e esse desconforto é duro de enfrentar. 

 Se eu vivesse mais tempo na realidade e menos tempo na imaginação, o contraste entre a perfeição dos meus sonhos e dureza fria dos fatos reais seria menos delineado, o acordar não seria tão espantoso assim, eu já estaria acostumada a me levantar e a tomar as decisões difíceis que devem ser feitas durante a vida adulta.

 Ao mesmo tempo, o acordar odioso, me traz a possibilidade de viver um dia ou dois, realmente. Quando fico acordada por tão longo período, penso que não é possível viver de sonhos. De fato, as coisas que se realizam ali não se equiparam ao que se vive fora deles. Sentir o toque, a presença e ouvir a voz, de verdade, nunca será trocado pela memória dos toques, pela presença fantasmagórica dos sonhos e o sons mudos que saem dessa boca. As cores da realidade são mais vívidas e a satisfação dos desejos reais é infinitamente mais prazerosa. Não há como sentir, realmente sentir, de olhos fechados, vendo só o que se tem pra dentro do crânio. Sim, o acordar é doloroso, mas é também magnifico. Eu me lembro que preciso, necessito e me vicio no toque real, na voz real, na presença real, de olhos reais me olhando de volta e de reações espontâneas, imprevisíveis ao meu inconsciente. Eu nunca poderia simular toda a graça que é a companhia verdadeira, utilizando apenas a parca memória de momentos que morreram. Eu quero presença física, não aguento mais pensar no que foi, no que poderia ter sido, quero agir, de corpo, mesmo.

 Mas ao primeiro sinal de tristeza, tudo fica escuro, e então lentamente e repentinamente, volto ao sono, tudo fica sépia, inconsciente e perfeitamente irreal.