segunda-feira, 23 de março de 2020

Eureka! Eureka?

 O livro divino deixado a nós foi utilizado por conquistadores, por poderosos, por clérigos, ficou em posse de instituições cheias de corruptos,  foi imposto aos nossos antepassados das formas mais cruéis imagináveis, no entanto, mesmo diante de toda essa incerteza histórica, devemos confiar nas escrituras cegamente, devemos seguir os mandamentos ali "colocados por Deus", à risca. Uma risca que tem diversos formatos, incongruências e contradições, tudo isso à depender da geografia de seu nascimento, das influências sociais... Muita gente já foi queimada por não crer da forma adequa... 

O...

MEU.....

DEUS!

 Me equivoquei! Estava errada! EUREKA! EUREKA! ESTÁ EM TODOS OS JORNAIS:  A ciência finalmente comprovou a existência divina, estava ali o tempo todo e agora é REAL!

 Temos um céu e um inferno, temos um corpo descartável e uma alma eterna. Temos um criador e somos suas criaturas. Seguiremos a bíblia e alçaremos os céus! Não há espaço para ceticismos ou conflitos religiosos, a paz na terra reinará.

  Deus é onisciente, onipotente e onipresente. Sua benevolência nos fez livres para adorá-lo. Seu amor é tão grande, que ele nos deu o dom da vida, moldando-nos à sua imagem e semelhança à partir do barro.

  Não há mais razões para questionar o que é perfeito, certo?

  Certo?

  Mas... só uma dúvida...

 Se Ele nos criou à sua imagem e semelhança, por qual motivo essas características biológicas em nós introduzidas pelo próprio Senhor, são por ele consideradas pecaminosas? Por lógica, se Deus moldou perfeitamente o mundo tal como é, ao mesmo tempo em que abomina sua própria criação - não há como argumentar que Ele seja perfeito, visto que o que criou, assumidamente, possui defeitos que ele mesmo impõe que sejam corrigidos.

 Isso leva a refletir ainda que, se formos criaturas de Deus, somos também seus reféns. Reféns que, sem qualquer consulta prévia, foram criados com o dever de temê-Lo e adorá-Lo, de negarmos nossa carne para vivermos num suposto espírito puro, caso contrário a condenação é o inferno, infierno, hell, l'enfer, onde tostaremos num fogo eterno, em agonia e sofrimento.

 É como uma constante arma apontada para nossa cabeça: amor ou morte! Negue os impulsos biologicamente humanos e queira ser divino - mas não um mero querer, é um querer artificialmente  natural, que deve obrigatoriamente e conscientemente partir do inconsciente de forma desobrigada - afinal, cristão mesmo é aquele que não está coagido a tanto. Pois então... É uma baita tarefa impossível seguir esse paradoxo, mas ele deve ser seguido, ou... bem, a sua batata vai assar.

 Somos também vítimas de Sua tortura, fomos colocados aqui, contra nossa vontade, em um mundo cruel, sem garantias de felicidade, sempre pressionados à testes e mais testes de fé, extremamente subjetivos, cuja resposta só virá quando não puder fazer mais nada para se redimir! Veja, um judeu na câmara de gás durante o holocausto escreveu um frase que ilustra meu ponto: "Se houver um deus, ele terá que implorar pelo meu perdão". Um absurdo amar incondicionalmente alguém nessas condições!

 Se deus tudo criou, diga-se a luz, o céu e a terra, o tempo, os sons e tudo o que existe, dentre suas criações estão tudo que é bom, assim como tudo que é mau. 

 Não há como acreditar que existe um deus todo poderoso, onisciente, onipotente e onipresente que seja bom, quando ele permite a existência do mal e de todo sofrimento e dor consequentes a isso. Epicuro questionou o deus todo poderoso e as características a ele atribuídas na bíblia:


"Se deus deseja prevenir o mal, mas não possui capacidade? Logo ele não é onipotente. Se ele tem capacidade, mas não deseja? Então ele é malevolente. Se ele possui capacidade e deseja? Então porque o mal existe? Se ele não é capaz e não deseja? Então por que lhe chamamos Deus?" (Epicuro)


 Seguindo a lógica religiosa, é impossível, ainda, encontrar argumentos para terceirizar essa responsabilidade de deus na criação do mal, porque ele, mesmo que não o tenha criado diretamente, possibilitou seu surgimento de forma dolosa, vez que que ele sabe de tudo o que aconteceu e que acontecerá, tamanho seu poder e força! Ele é o culpado pela câmara de gás, pela morte, pela depressão, ódio...

  Outra contradição é o tal do livre arbítrio. Se deus sabe tudo o que acontecerá, ele sabe, de antemão, desde a sua criação, se você será condenado ao inferno ou elevado ao céu. Ele criou o destino e nos enganou a crermos que tínhamos liberdade para tanto. Ele sabe quais regras você cumprirá e quais descumprirá - em todas as infinitas possibilidades de escolhas - não há contraditório e muito menos ampla defesa, está traçado seu destino "grandes coisas vão acontecer a ti!".

  Muitos conseguiram entrar no reino do céu por ignorância quanto A Palavra, agora que sabem, não tem fuga. Agora que absolutamente todo o mundo tomou ciência da existência divina, as arbitrariedades devem ser obedecidas, sem o direito de alegar desconhecimento da Lei.

Deus existe. eureka.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Dance

 Repare como as crianças rodopiam e pulam, conhecendo o mundo a sua volta com curiosa admiração. Colocam a mão para fora da janela do carro, se encaixam nos troncos das árvores, sobem nos móveis, colocam os dedinhos na tomada, se enterram na lama! Mas à medida que envelhecemos, o que foi aprendido com tanta diversão, com tanta pureza, passa a ser utilizado para metas, objetivos, fins, de forma necessária, obrigatória e laboral.

  De segunda até domingo, nos movimentamos em horário comercial, em troca de trocados, cansados, estressados, pensando no próximo prazo, nos relacionamentos, nas dívidas. Vez ou outra, por ordens  estéticas ou médicas, comparecemos a uma academia, dojo, box, e nos mexemos sob essa intensa ameaça à saúde, às dores ou problemas de autoestima, como reféns, pagando a mensalidade sem valorizá-la integralmente.

 A vida adulta é cheia dessas questões, quando se encontra uma solução, devem-se considerar outros milhares de aspectos, de subdivisões. Deve-se calcular tudo muito bem, de forma exaustiva.

 Às vezes o esgotamento mental bate tão forte, que somos obrigados a nos alongarmos mais no banho, na cama ou na cozinha, lavando aquela pilha de louças.

 Mas algo incrível vez ou outra nos acontece - em alguns desses intervalos, aquela música sensacional aparece na rádio e invade a nossa mente, afastando ou reprimindo as responsabilidades e crises adultas. 

 Os ombros deliciosamente se remexem, os pés se firmam para acompanhá-los e você se flagra... dançando! Dançando sozinho, sem julgamentos, vivendo um momento muito especial consigo.

  Dançar é utilizar o corpo para fim nenhum a não ser aquele de se expressar. Acontecem em alguns minutos, onde não há espaço para opiniões políticas, não há formulação de filosofias, planos, ansiedades ou tristeza.

 Esses movimentos aleatórios tentam acompanhar os graves, se dramatizam nos agudos, pra lá e pra cá, no refrão, como se protagonizássemos um show espetacular, sem plateia, sem o aguardo dos aplausos ou vaias. É a pura movimentação do corpo, a aceleração do sangue nas artérias, a pulsação do coração e a lubrificação das articulações. Libera-se a endorfina, e seus músculos repuxam um sorriso, mas você não vai lá se importar com os aspectos neurológicos ou anatômicos. Você simplesmente dança, bailando nos sons.

  É espetacular, ouso argumentar que é quase divino. Isso é viver intensamente, sem a necessidade da adrenalina.

  Se você permitir se entregar ao movimento, se concentrar nos pés, pernas, braços e ritmo, é como se transcendesse os problemas terrenos, subjetivos aos universais. É você consigo mesmo, integralmente, sem distrações, divertindo-se como a pura criança que foi.

  Divirta-se.





sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Labirinto

  Não sei como podem guardar para si os sentimentos. Como pode alguém manter segredo, distância, mistérios? Imagino o esforço estrondoso para não se expressar! Como funciona um cérebro assim?

  Acho que a pessoa deve ter que evitar as sensações e tudo que culmina para sua lembrança. Acho que ela não para pra pensar em si mesma, como que guardando tudo dentro da própria mente.

 É como se estivesse montando um labirinto com caminhos conhecidos, que cresce e se ramifica, a fim de confundir-se a si mesma na própria complexidade.

  Eu conseguiria construir o labirinto, de fato, mas nunca esqueceria de seu mapa, por mais que o reformasse a todo momento, por mais que o fizesse eterno.

  Não consigo me esconder de mim e muito menos dos outros. É quase como se fosse uma falha em ser disciplinada o suficiente para abafar a enxurrada de sensações e pensamentos que circundam meu crânio.

  Meus pensamentos são quase como criaturas concretas, que pesam, pulam e se reviram a todo momento, me entretendo, magoando, inspirando e frustrando, quase destruindo minha frágil caixa craniana. São tão intensos e persistentes que frequentemente deslizam pela língua e se libertam pela minha boca, quase sem controle - e quando não descolo os lábios e travo os dentes, eles movem os músculos e coram minha face, me entregando, sem se importarem com as consequências.

  Se me fecho demais e não me entrego aos movimentos involuntários

  escrevo.




quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A mentira e outras drogas

  Odiamos a verdade, amamos a verdade. Ela é um anjo ou o demônio, nos destrói ou afaga. Nosso afeto varia, porque ela nem sempre condiz com o que nos deixa felizes e confortáveis.

  A verdade não tem lado, não desfavorece e não faz acepção de pessoas. E por isso ela dói. Nos faz lembrar que não somos especiais. Muito pelo contrário! Somos falhos, traçamos princípios à régua, e os seguimos à passos embriagados. 

 Mas lá vamos nós, mais uma vez, tentando fazer a verdade se curvar ao nosso desejo, mesmo cientes de toda sua força vital. Arquitetamos planos para escondê-la, com a crença que construímos bases fortes o suficiente para que as mentiras se tornem a realidade. 

 A estrutura ruirá, ela está fadada a isso. Qualquer material é frágil demais para conter a poderosa verdade!

 Apesar de tudo, somos teimosos, nós humanos. E sabendo da fragilidade, sempre cremos ter a milagrosa posse do material mais forte existente - aquele necessário para reconstruir os fatos.

 É preciso alertar que muito dificilmente moramos sozinhos na mentira, sempre temos outros hóspedes, residentes ou visitas. É uma casa cheia! 

 Viver na mentira é cansativo, até porque temos que ficar o tempo em estado de alerta, existindo em angústias, tampando as rachaduras, as infiltrações, exterminando as pestes, nos furtando das perguntas desconfortáveis e fazendo todo esse malabarismo fracassado para transparecer normalidade... uma normalidade muito suspeita, por sinal. 

 Isso tudo é mantido por qual razão senão o egoísmo? A vontade de parecermos perfeitos, alinhados, justos, como deuses terrenos que não cometem erros, que não se permitem errar, decepcionar, frustar, é uma tentativa vã de não perdermos o controle de uma situação que nós mesmos instituímos.

 Acha que os hóspedes não irão reparar o mau acabamento, a mudança repentina de escadas, paredes e portas? Eles seguirão felizes nessa mudança metafórica infinita?

 Esse egoísmo é tirano! Todos são atingidos, todos sofrem! E muitas vezes a construção mal feita aprisiona os outros, impedindo-os de explorarem a vida, de serem felizes, de aprenderem lições, de se reconstruírem, mesmo depois que sofreram - inclusive a nós mesmos, os construtores.

 Somos o que somos, sentimos o que sentimos, e se não há escapatória fácil, que nos entreguemos. Por isso, deixe que se infiltre em todos os cantos, crie mofos, arrombe as portas, quebre as paredes e as janelas daquela sala vazia que você reformou à juros altos! Liberte de vez a verdade e seus prisioneiros!

Lide com os detalhes, as opiniões alheias e os traumas à partir da sólida base que é a verdade. Com o caos instaurado e o espelho finalmente refletindo o verdadeiro eu, há milhares de possibilidades, planos a serem reformulados, estratégias a serem pensadas. E quer saber? Libertar é poder, é ter as rédeas e o verdadeiro controle da situação.

 Viver na mentira é um ciclo, um crime de estelionato, dos mais vis: por fora somos a atrativa casa de campo com vista para o céu, sonho de qualquer imobiliária, e por dentro um cárcere desajeitado.

 Responsabilize-se por ser quem é em sua integralidade, mesmo que essa sua persona seja cruel, porque é na tentativa de parecermos (e só parecermos) bons, que praticamos o mal sem assumirmos os erros, sem ajudarmos realmente o próximo.

 Assuma-se e dali por diante conseguirá verdadeiramente melhorar, passo à passo, sem violações e angústias exacerbadas.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A praia

 Sempre sonho com aquela praia, aquela exata praia, naquele exato dia ensolarado, quando o mar se agita...

 As profusas ondas se elevam ameaçadoramente, mas as pessoas normalmente ali permanecem, na areia quente. Sempre sorrindo, conversando, divertindo-se, sem se importarem com a sinuosa vaga que se aproxima.

 Do outro lado, cá estou, em uma montanha à beira mar que eventualmente será consumida pela água salgada. Ansiosa, gotejando com o calor intenso e desejando me juntar aos demais em sua felicidade e ignorância. 

 Mas não consigo. Não consigo descer e esquecer sobre nosso inevitável final.

 E à distância eu perduro, aguardando em temor.