terça-feira, 1 de agosto de 2017

Existindo

Cinco acentos de couro, com cintos de segurança, numa lata de metal com quatro rodas, movida a gasolina ou diesel, com airbags, rádio, conexão bluetooth, entre outros botões indecifráveis. Tem capacidade de ir de 0 km/h a 100 km/h em poucos segundos.

Um trafego afogado.

Uma lata engarrafada com outros vinte veículos, muitas deles ocupados por menos gente, mas a maioria com apenas um único indivíduo, dentre os solitários,  há um que não precisa sequer a conduzir: possui piloto automático.

Ouvem as suas playlists com o vidro fechado para não serem incomodados.

Todos os veículos ligados e ansiosos para a abertura do sinal.

Precisam ir pro trabalho, para iniciar o serviço em suas salas pessoais, precisam levar os filhos ao professor particular. Precisam ir a academia treinar com o personal trainer. Precisam correr na esteira. Precisam voltar para casa.

O sinal abriu.

A casa foi arquitetada por um célebre profissional e decorada com os móveis mais populares da temporada.

Uma casa com cinco quartos conjugados com banheiro para uma família de três pessoas.

Duas cozinhas e duas salas, uma de tevê e outra de estar.

O sofá é de couro, as almofadas e os móveis foram feitos sob medida. A televisão é esteticamente agradável e é harmoniosa com o ambiente que a cerca. É a cabo e, se ligada, possui mais de 300 canais.

A visita pode se sentar nos dois sofás ou nas cadeiras almofadadas. A vista dá para os outros prédios. Este cômodo tem uma mesa de centro que custou R$ 2.000,00.

O telefone da sala de estar não está com as contas atrasadas, funciona perfeitamente, de última geração, mas está sujo de poeira.

A cozinha de visita e a de uso comum são limpas diariamente.

Um cômodo é utilizado.

Um quarto, um teto, um banheiro, uma cama enorme para apenas um, sozinho, dormir em um lado.

O quarto de dormir possui frigobar e o entregador quem traz a comida quente, que é comida na mesa do computador, onde fica todo tipo de tecnologia, dentre elas, uma televisão e um aparelho celular.

Cidades feitas para individualistas. Estradas feitas para individualistas. Casas feitas para individualistas.

Às vezes chove, às vezes faz frio e o sol aparece, escaldante, com grande frequência. Nada disso é sentido por grande parte desses indivíduos.

Enquanto alguns estão envoltos em suas caixas de lata, outros se movem juntos, numa caixa grande de metal, com assentos sempre ocupados, com corredores lotados, por longas distâncias, para trabalhar em locais em que não há salas individuais.

Vivem amontoados nas filas do ônibus, do metrô, dos pontos de partida, das repartições do governo ou do hospital público. Interagem e interagem, quer queiram ou não.

Após a longa espera no engarrafamento, onde estão espremidos com mais 60 pessoas, param no ponto e caminham até suas residências. Exaustos.

A residência possui dois cômodos para seis pessoas.

A sala é conjugada com a cozinha e os quartos. O outro cômodo possui uma privada e um chuveiro.

Os móveis são escassos.

A casa está sempre vazia.

O intervalo de almoço acabou.

Voltam ao trajeto: ponto de ônibus, espera, interação não-voluntária, trabalho -intervalo- trabalho. Tudo isso fazem para mudar a própria realidade.

Desejam a vida que veem quando tem a sorte de sentar na janela do transporte público, que lhes é oferecida na propaganda que passa na tevê da loja de móveis, a caminho de casa. Não querem ir ou voltar dos mesmos lugares. Querem mudar a rota. Seguir outro caminho.

Muitos pensam isso enquanto entram na padaria para tomar o café para aguentar o dia.

Correm com seus guarda-chuvas, passam frio com o casaco velho e mancham a camisa de suor nos dias de sol intenso.

Existem aqueles, ainda, que não tem lugar pra ir.

Alguns vivem nos espaços vazios das vidas das pessoas. No intervalo entre a vitrine da padaria e da garagem do condomínio. Suas posses também não existem. Sentem o odor do trânsito e o calor das conversas do ponto de ônibus. O entra e sai dos comércios e dos prédios.

Nada esperam, nada almejam e não tem para onde voltar.

Em dias de frio, se resfriam, em dias de chuva, se molham e em dias de calor intenso, se queimam.


Estes se encontram apenas fisicamente vivos.


domingo, 25 de junho de 2017

Fastidium

Estou desconectada. Não estou ansiosa ou triste. Só longe. Longe de tudo e de todos, sem concentração, força de vontade ou vontade de ter forças. Não quero morrer, mas também não quero viver. Talvez eu esteja entediada, e só. Não há assunto que me agrade, filme que me prenda ou piada que me faça rir. Deixei de sentir, de ter compaixão ou de ligar para as coisas que eu costumava gostar. 

Não acho que eu tenha depressão. Eu consigo me levantar da cama, conversar com outras pessoas e rir. É que, quando saio do convivio social, entro em total indiferença. É como se eu sempre precisasse de algo estimulante e, sozinha, quando paro pra refletir, não encontro nada.

Veja bem, estou presa numa vida que eu nunca quis, com pessoas boas demais, passando por situações que eu não queria passar e lutando por um futuro que eu não me importo. Não há absolutamente nada que me deixe com vontade de mudar o rumo pré-concebido que estou tomando. Não há saída.

Sinto que eu deveria enxergar a vida como um emaranhado fantástico de possibilidades e valorizar todos que me ajudaram e me fazem companhia. A partir do momento em que eu nasci, tive o privilégio da consciência e de construir minha própria rota para a felicidade, e eu não fiz nada até agora. Acho que não há sequer espaço para rotas. 

O meu significado para a felicidade foi mudando com o passar dos anos, agora ele significa utopia. É uma ideia que me faz continuar, e que se aviva toda vez que coisas boas acontecem. Contudo, viver é ter 2 minutos de alegria, 3 de tristeza e o resto de total monotonia. 

Para não imergir em depressão, atolo a minha mente com coisas mundanas. Vou vivendo a vida como um fantasma, aproveitando um dia após o outro e ignorando o tédio da forma que der.

Somos profundamente infelizes, mas não temos coragem de admitir. Os que admitem ou se suicidam ou continuam vivendo na melancolia. Sou parte do segundo grupo por covardia.

Fico tentando imaginar as escolhas que eu poderia ter feito e que eu poderia fazer, mas em nenhuma delas eu encontro a plenitude, nenhuma delas me distrairia por tempo suficiente. Minha vida vai ser longa demais.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Triz

Foi numa quinta-feira, anterior ao dia de escola, na casa do Nico. Nesse dia, em que eu só fui a festa depois de levar um fora da Lilo, querendo colocar pra dentro todo álcool disponível, que eu vislumbrei sua silhueta dançante.
Sua testa, iluminada pela cor neon. Seu rosto fino. Seus olhos. Que cor seriam longe dessa luz estranha de festa? Sua boca, pintada de gloss labial cor de cereja, mordida por seus dentes redondos, brancos, alinhados.
Foi nessa noite que eu te vi, Dolores. Foi nessa noite que eu entendi o sentido de obsessão. Tentei me comunicar, tomar coragem, me aproximar de você durante cinco horas inteiras. Quem era você? Sua pele, em volta de tantas outras, se sobressaía. Parecia macia. Sua saia se balançava de um lado para o outro, e eu torcendo pra ela sumir dali. Suas pernas, esguias, apareciam mais e mais a cada vez que você pulava. Queria poder ver mais. Queria saber como era o seu gosto. Engoli seco.

-Alfie, larga de ser louco, cara. Você está bebendo demais!

Uma jaqueta verde exército, surrada, uma calça roxa e rasgada e um tênis vermelho e furado. Esse era o Nico tampando a minha visão.

- Além disso, velho, mesmo com esse teu óculo escuro aí, dá pra ver você secando aquela gostosinha. Vai lá tentar comer ela. - Disse Nico, enquanto me empurrava.

- Só me deixa em... paz, cara.

- Se não tentar pegar a guria, eu vou tentar a sorte. A Lilo já era, a vida segue, meu caro.

Empurrei o Nico e ele me gritou "Vai se foder, pervertidão", e eu segui pra fora da casa, procurando um canto qualquer para vomitar e dormir. Andei com um local em mente, mas meus pés me fizeram trombar em outros lugares. Quebrei algo que parecia ser uma prataria cara. Acho que tinha ouro nas bordas dos pratos, foi o que Sra. Rose me disse na última visita. Ela me pediu pra tomar cuidado com o tesouro dela. Aqueles pedaços no chão de mármore eram o tesouro.

- Droga, droga, merda, caralho, droga.

Corri até o armário da cozinha, procurando algum tipo de cola. Eu estava tão bêbado, meu deus.

- O que você está procurando aí?

Era a garota bonita. A voz dela era macia, rouca. A garota era um pouco alta. Meu corpo ficou quente. Minhas orelhas arderam.

- Ah, meu senhor, nossa. Oi, estou procurando cola. Estou muito alterado, acho. - Cocei meu nariz, tentando esconder minha cara de estúpido.
- Cola? Meio pesado cheirar cola numa festa de adolescentes - ela riu.

Eu encontrei a cola e, bêbado, sem saber como continuar com o assunto, tomei uma atitude: ignorei a garota bonita e corri até a prataria, tropeçando em tudo.
Meu cérebro ainda estava agitado com o pouco que tive da presença dela. Tentei juntar os cacos. Esse era o quebra-cabeças mais difícil que já montei na vida. Desde quando o chão é vermelho?, pensei. Ela tem o cabelo da cor desse chão, só que é mais bonito. Tudo se apagou.

- Acorda. Acorda! Se você não acordar vou ter que chamar uma ambulância e acabar com a festa.

Aquela jaqueta transparente de plástico, um top cor de rosa, com seios bonitos pressionados contra o tecido. A garota bonita. Minha cabeça estava no colo dela e o chão estava sujo de sangue e cacos.

- Eu estou bem. Estou muito... muito bem.- Eu disse sem me levantar.

Ela me largou e me deixou bater a cabeça no chão. Chamou o Nico e, nessa hora, tudo escureceu de novo.

******

Era manhã. Acordei com um raio solar que se espremeu pela fresta da janela do quarto... O quarto do Nico.

- Finalmente, seu idiota. Você cortou sua mão ontem e me deve uma grana boa pela prataria. Minha mãe vai te matar, cara. A dona Rose vai quebrar seus dentes e beber seu sangue, meu jovem. - disse Nico.

- Merda de luz. Que horas são? Desculpa, Nico, vou pagar o quanto antes, pode ficar tranquilo. Mas, antes de qualquer coisa, quem era aquela garota com a jaqueta esquisita?

- Dolores. Ela dormiu do seu lado. Ficou muito bêbada e não deu conta de ir embora. Perdeu uma chance boa.

Perdi uma chance ótima. Perdi muito mais que isso.

- Onde ela estuda, Nico?
- No nosso colégio, cegueta. Ela é aquela garota, filha do von Baden. O cara que passou a perna no seu pai.
- Puta merda, sério? Ela fica diferente a noite.
- Ela anda com um bando de idiotas gostosas no colégio. Ela é aquela mais nerdizinha. Era a mais nerdizinha. Ontem ela não estava nerdizinha. Longe disso.
- Definitivamente não estava nerd.

Dolores. Dolores von Baden. von Baden. Minha cabeça está quebrada por dentro.

- Ela ostenta com o dinheiro do seu pai, parou pra pensar nisso? A família dela fodeu você. Agora você tem que foder ela. - Nico riu, enquanto acendia um cigarro.
- Cala a boca, Nico. Vamos logo, porque hoje tem aquela porcaria de aula de história. Eu não posso faltar mais nela.
- Também não tenho mais o privilégio das faltas.
- O problema é que, como você pode ver, eu vomitei no meu uniforme. Me empresta uma camiseta. Uma que não tenha cheiro de cigarro podre.
- Eu tenho essa aqui do Bowie. É a única coisa limpa que eu tenho.
- Pode ser. Desde quando você gosta do Bowie?
- Não gosto. Só ganhei de uma guria alternativa que eu pegava.

Dolores, seu pai é um cuzão.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Lo-fi beats

Lo-fi é um termo que surgiu nos anos 1980 para designar músicas produzidas em low fidelity (baixa qualidade). A produção consistia em gravar músicas com aparelhos baratos de fita cassete.

Conheci esse termo por acidente, ouvindo músicas no modo aleatório, e me apaixonei. Primeiro porque elas são ótimos planos de fundo para quando eu estou desenhando e segundo porque elas me acalmam pra caramba (e eu sempre preciso me acalmar).

A primeira Lo-fi que eu tive o prazer de ouvir foi um mix feito por um usuário do youtube, mistura essa que ele postou em sua conta, para a alegria geral de todos. Achei interessante que ele utilizou o Samurai Champloo como inspiração, sendo que, por essa razão, eu ouvi diversas outras músicas do gênero. Aqui estão algumas das que eu achei mais legais (e ouvi uma dúzia de vezes):





Além desses mix prontos, alguns canais do youtube fazem streaming 24 por dia! Um dos meus streamers favoritos é o ChilledCow:


Esse gênero musical é muito diferente, ele é um calmante para essa energia desesperada das músicas contemporâneas. Confiram, vale muito a pena.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Colapso

 Eu me pergunto se eu morri naquela noite, naquele violento anoitecer de verão. Naquele banheiro que me viu crescer por 17 anos - ou eu o vi envelhecer, quem sabe?
 Uma briga, mais uma, no meio de inúmeras e eu corri pro lugar em que eu me sujava e me lavava desde a infância. Eu estava com muita raiva, uma raiva que surgiu da melancolia, que surgiu da falta de sensações... Muitos anos sem sensações. 
 Antes eu era muito reprimida, sabe? Eu me sentia impotente desde que eu nasci, acho. Eu era mais uma no meio de inúmeras pessoas que não conseguia me defender do mundo, que não conseguia defender os outros do mundo e que não podia salvar nada e nem ninguém de Deus - aquele Ser pavoroso que me fez só pra me ver morrer (esse segredo eu não contava).
 Então, naquele dia, eu liberei tudo, toda a raiva que eu segurava, toda aquela raiva Freudiana! Quebrei o porta-retratos com rostos familiares e gostei de o ver estilhaçado no chão. Nesse momento eu coletei um pedaço do estilhaço, cortei minha mão nele e gostei do sangue e da dor, pensei comigo mesma "Finalmente" e corri para a primeira porta que poderia ser trancada por dentro, mas não por fora.
 Antes desse dia eu sentia muito ódio, sabe? Eu sentia ódio desde que eu nasci, acho. Eu era mais uma no meio de covardes que não conseguiam resolver seus problemas sem envolver a tudo e a todos, que faziam os mais frágeis suportarem suas imensas bagagens emocionais e sua ira infantil.
 Então, naquele dia, coloquei o estilhaço no pescoço e, aos prantos, o cerrei e esperei o alívio da inconsciência e da raiva e do choro e dos escândalos e dessa vida que, até hoje, não me faz lá muito sentido.
 Uma briga, mais uma, no meio de inúmeras e eu naquele banheiro, vendo o sangue escorrendo e a porta sendo arrombada. "Droga", pensei, "Acho que agora é a vez do meu pulso" e tentei riscá-lo diversas e diversas vezes. Enquanto isso, a fechadura não aguentou, um rosto familiar entrou, me esbofetou e eu percebi que eu não havia conseguido.
 Eu me pergunto se eu morri naquele anoitecer infernalmente quente. Naquela casa cheia de lembranças traumáticas.