quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Como é difícil falar em primeira pessoa

 Ultimamente... nem tão ultimamente assim, mas nos últimos anos tenho fugido do meu mundo interior e me aprisionado no mundo material, adulto, ocidental, produtivo e corporativo. 

Dizia o Freud que toda fuga é uma prisão, e nisso ele acertou. A minha prisão é me enfiar em todo tipo de atividade física, tátil, concreta, que silencie minha mente dos meus devaneios anti produtivos. Há dias que não converso com ninguém para focar nessa ou naquela meta importante. Sou muito de me manter ocupada por não gostar da ociosidade, por fobia do tédio, por angústia de sentir... costumo até ter dois empregos por vez. No entanto, agora estou com um só. E com esse tempo livre, percebo as grades que construí em torno do meu coração. 

Acho esquisito escrever 'coração'. Mas esse é o símbolo internacional do sentimentalismo, e é ali por entre as costelas que tem algumas coisas metaforicamente importantes para a existência.

Está muito difícil ter acesso a mim mesma, como se vê. É desafiador falar dos meus sentimentos em primeira pessoa. Essa frase ali foi uma cesárea. Não é como se já tivesse sido lá muito fácil, mas agora é como se eu estivesse ainda mais distante e com a alma ainda mais enrijecida. Tenho essa mesma sensação da escrita com os desenhos e com a dança. Vou perdendo a prática, me distraindo, e quando retorno, as palavras são duras, os traços menos arredondados e o corpo demora a responder à canção.

Diz-se no filme Stalker do Andrei Tarkovski que a dureza e a força são atributos da morte, mas a flexibilidade e a fraqueza são a brisa do ser. Isso porque, na natureza, homens e plantas, quando nascem são maleáveis, e vão se enrijecendo com os anos. E estou compreendendo o tanto que me enrijeci: por muito tempo existo e não vivo. Desde criança eu nunca quis me esquecer de mim mesma, de ser frágil, brincalhona e criativa... Esse blog aqui, que preciso confessar, muitas vezes penso em deletar por completo, me faz de algum modo cumprir com esse ideal que eu tinha na infância. 

Esse blog brega, mal atualizado, de cores esquisitas e desorganizado é minha tentativa de ser tenra e maleável. Mas para escrever, sempre preciso passar por esse processo de ir me desenferrujando. Escrever aqui é como meditar, e é meditando que notei tudo isso.

Ontem, desenferrujei o corpo dançando no meu quarto, brinquei comigo mesma como na infância. Pintei meu rosto para ninguém além da Janis Joplin. Troquei diversas vezes de roupa como se estivesse num show do Fleetwood Mac. Meu desodorante foi meu microfone. Se houvesse um deus bondoso, ele com certeza criou o Rock! Dancei e dancei até os pés ficarem com bolhas. Rebel Yell!, Cum on Feel The Noize, Dream On.

Há tantas coisas que sei que estão no meu coração e que guiam minhas decisões no secreto do inconsciente! E por mais que eu escreva, é como se tudo não passasse de um aquecimento infinito. Queria que fosse mais fácil, assim como é dançar.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Escrita criativa pela manhã

O professor de escrita criativa nos pediu para que escrevêssemos tudo que nos viesse à cabeça, logo pela manhã, e cá estou, preenchendo esta página branca com diversos símbolos e esperando que meu inconsciente de alguma forma se manifeste. 

Pegarei um café. 

Peguei o café. 

Mas antes resolvi dar um cheirinho na minha cadela, a Lucy, não só porque ela é fofinha, mas porque eu pensei que ficaria legal acrescentar algum evento matinal nesse texto fluxo-pensamento. Aliás, tenho um livro com essa ideia de fluxo-pensamento da Hilda Hilst, que ganhei de presente da minha amiga Fernanda. Ainda não consegui ler. O ler. Lê-lo. A gramática é um mistério.

Fui interrompida por um pernilongo.

Matei o pernilongo. 

Sabe que eu penso muito nessa vida que acabei de tirar? Tenho pena de matar até as baratas, mas é a lei da selva. É o último resquício da natureza selvagem que temos nessa humanidade ultracivilizada e tecnológica: ou são elas (as baratas) ou sou eu. É a lei do mais adaptado a uma chinelada, como diria Alfred Russel Wallace. Alfred não sobreviveu à lei social da sobrevivência histórica. As luzes ficaram todas sobre Darwin... pobre Wallace.

Nós, humanos, nos adaptamos aos tapas e às chineladas de mães. Nenhum chinelo Havaianas de tamanho 36 nos mata. Falta às baratas essa violência materna... Bem que nossas mães nos falam, “se não aprender em casa, aprenderá na rua” e é assim que aprendemos a sobreviver aos chinelos e aos tapas, ao contrário das baratas e dos mosquitos. 

Pobre mosquito, eu fui a rua que ensinou à sua espécie que não é era hora de zumbir enquanto um humano tenta desbloquear a criatividade numa atividade do professor de escrita criativa. À longo prazo minha atitude reforçou a comunidade mosquita, ao passo que enfraqueceu a humanidade. Não é, Wallace?

 Bem... alterei o tamanho da fonte, arrumei o espaçamento. Por qual razão estou escrevendo esse texto, mesmo? Ah, o exercício!

Qual a diferença entre a minha vida e a das baratas e mosquitos? Não é só um chinelo que nos distancia como espécie, é ainda mais a escrita. O que nos distancia, também, é esse café fraco. Tenho certeza de que se insetos tivessem polegares opositores eles jamais passariam um café tão fraco quanto esse que fiz hoje. O que nos distancia também é a preguiça. Não vejo baratas terem preguiça de nos atazanar e nem mosquitos de buscarem sangue, mas eu fiquei com preguiça de reabrir o pote de café para colocar tão somente uma colherada a mais na cafeteira Electrolux. 

Também acho que os insetos poderiam muito bem, com seus polegarezinhos opositorezinhos, e utilizando de um tecladinhozinho de computadorzinho escreverem algo muito mais interessante numa folhinha de papel, a pedido do professorzinho de escrita criativa. Insetos vivem muito menos tempo, como esse mosquito que acabei de estapear, mas muito mais intensamente e, portanto, teria esse mosquito muito mais histórias para contar do que eu em 30 anos. 

Se eu pudesse, entrevistaria uma barata (mas só através de vídeo chamada), ela com certeza seria muito mais parecida conosco do que gostaríamos. A barata sai do esgoto, passa nos canos, no lixo e quando está muito hedonista bebe detergente e fica voando feito uma tonta para assustar os humanos. 

Acho que se os humanos encontrassem uma espécie superior que nos visse como baratas e de nós tivesse nojo e medo, não é extremamente provável que alguns de nós fizesse exatamente isso? Alguns pegariam suas motos e fariam manobras no chão para assustarem essa espécie dita tão “superior”. Superior em quê? Só em tamanho? Otários! ahahahaah... Acho que outros humanos, por outro lado, passariam a adorar essa criatura superior e teriam nojo da própria espécie. Talvez houvesse um culto em que as pessoas andassem de salto alto para as homenagearem a altura. É outra coisa que nos diferencia dos insetos: eles não pensam nessas bobagens, a nada louvam. A barata, barateia. O mosquito, mosquita. E o humano... bom, o humano escreve um texto para tentar ser criativo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Viver intensamente

Viver intensamente não é o que pensamos: não é fumar, beber ou viver como se não houvesse amanhã. Não é como fez o Claudemir, que, ao fumar um baseado pela primeira vez aos 16 anos, disse aos pais que os olhos vermelhos eram culpa de alergia. Ou como aos 32, quando se embriagou com meio litro de vodka, traiu a esposa e justificou a mancha de batom na camisa dizendo que era vinho tinto.

Mentir é uma forma de fuga que nos aprisiona das possibilidades da vida. Ouviu Claudemir? Viver intensamente, ao contrário, é ser sincero! É fazer algo que honestamente se quis fazer e depois encarar as consequências do que se fez. Não é cursar contabilidade por medo da reação dos pais a um curso de filosofia. Talvez tudo pudesse ter sido mais simples se Claudemir tivesse dito: “Sim, mãe, experimentei um baseado hoje.” Quem sabe, anos depois, ele poderia rir desse episódio com ela, porque na época isso tudo teria estreitado os laços familiares e ele não teria sido tão julgado por não aceitar o ingresso em Contabilidade na USP. Ou, em vez de deixar o casamento naufragar em culpa, poderia ter dito: “Meu bem, bebi demais e a mancha de batom é do Boticário. Arrependo-me. Você ainda quer ficar comigo se eu prometer mudar?”

Viver intensamente é ser honesto consigo e com os outros. É dizer “eu também te amo” depois de uma declaração de amor e viver o que o amor tem a oferecer. Mas também é, como a esposa de Claudemir, ter coragem de admitir que o casamento não é mais o mesmo desde aquela camisa suspeita. Por que continuar lavando as roupas de quem já não inspira amor? Por que largar tudo para lavar roupas? É olhar para si mesma e decidir: “Não está mais funcionando.” É recomeçar sozinha ou com outra pessoa, voltar a ser veterinária ou, quem sabe, descobrir que seu sonho mudou.

Viver intensamente é ver que aquela não era a sua profissão dos sonhos e que o consumismo exacerbado talvez fosse uma forma de autoengano. É, na verdade, não ser veterinária, mas ser dentista. É dar conta de seguir o sonho da segunda faculdade enquanto se lava cachorros pela manhã, sem medo de falhar! É terminar o curso de odontologia e depois juntar o dinheiro para o consultório. 

E então, num acaso da vida, reencontrar Claudemir no shopping e conversar com ele sobre a última década. É aceitar que agora, aos quarenta e dois anos, nenhum vê o resto da vida sem o outro. Que um não se vê contador, mas professor de filosofia, e que a outra não se vê sem os caninos humanos. É aceitar que é hora de tentar de novo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Poetria XXXVII

Poetizar é ser ridículo com convicção 

Observe a ventura de sua ação

Caneta nas mãos! 

Poetizar é ser também pesquisador

quando a conclusão rima com 'dor'

Sobre o método, o sumário:

um mesclar criativo do abecedário

O poeta barbado por baixo dos pelos

abaixo das farpas 

da musculatura, dos ossos, da alma

descansa e feito criança

encara de frente e conceitua

os sentimentos inominados e seus derivados 

que fazem da carne ser mais que a sua

Se a humanidade não os nomeia por timidez

ou preguiça, ou ocupação

o poeta sutura a teia com uma oração 

Engendra-se pela lacuna da compostura

vê o que mora no espírito de toda criatura

que nasce e cresce contra a própria vontade

Vã é a saciedade da curiosidade

Quando os encontra não há faculdade

A não ser relatá-los com sua boa sinceridade 

por não caberem nos vernáculos tantos dilemas

cabem decerto nos ternos poemas.

Defeituosa

Nem boa nem má, mas não nada

Perfeccionista desorganizada

Niilista cheia de esperanças

Impulsiva viciada em segurança


Princípios sinceros que dão preguiça

Prepara o banho com areia movediça

Executa o que nunca se planeja 

Colhe os frutos podres de bandeja


A imaginação solta flui, mas a breca no papel

Aponta os dedos para si própria, enquanto olha para o céu

Segue de passo firme o perfume da rosa-dos-ventos


Busca a paz com clamores violentos

Intuitiva defensora das metódicas ciências

Apática de coração de ambivalências.