quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

(Re)desencontros

 Naquele dia ensolarado e frio era você, não era? Um dia quente e gelado. Era você, sim. Era você olhando para mim. Era você virando a esquina, notando-me e olhando para trás, não era? Sim, era, sim, eu sei que era. Senti você ali e me alegrei bastante. Achei que iria me magoar ao te rever. Achei que ficaria com a feição triste ao te reencontrar. Que sentiria frustração ou tristeza, ou raiva. 

 Sabe o que me aconteceu ao ter sua presença por poucos segundos? Meu peito se encheu é de alegria. Inflou-me um sorriso bobo que ficou colado na minha cara. O tempo é cálido! A vida é boa! Cumprimentei as nuvens! Por uns bons dez minutos só pensei em felicidade. Aí eu notei algo importante... Você não me faz triste - e nunca fez.

  Você me faz feliz. A sua presença, como diz o poeta, entra pelos sete buracos da minha cabeça. A esvazia dos tempos ruins. Renova meu coração. Sinto um fôlego totalmente novo com uma pequena dose dela. Ao contrário, sua ausência é que me dói profundamente. É seu não estar, é a esquina da rua vazia, a mensagem não enviada, a carta não lida, as memórias rasgadas e jogadas no lixo. É a voz de outros tomando os decibéis da sua voz. É você, de costas, partindo. São as pegadas da sua existência e não seus passos. É saudade... é saudade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Zero à esquerda

Sinédoque. Da parte se vê o todo.

Boca, mãos, olhos, rosto

Multiplica, una e repare!


É soma que se reparte

É cálculo que não calcula

Que disparate!


A conta nunca bate

Toda fração é imprecisa

Altera, divide, não simplifica


Exatidão inexata

Junção de vetores

Resultam em nada!





sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Covardes

Que as circunstâncias nos unisse

Que não cruzássemos a coragem!

Assim amamos feito loucos

num romance de covardes.

Puerpério

Há um secreto dentro de si. 
A nascente dos sentimentos íntimos demais. 
De cordão umbilical invertido. 
Acolhidos presos no útero do que não falais.


Frágeis como aço em temperatura crítica.
Disformes puxam as cordas detrás das cortinas
Creem-se, desde a concepção, gestados. 
Contraem-se ritmados. Prendem-se nas próprias cordas tecidas. 


Não sabem nascer. E nunca se dá à luz por completo. 
Nunca se os arranca da carne sem severa amputação. 
E o que se pare é muito pouco do que são. 


Da língua ao céu, da boca aos lábios. Exagerados de menos, interrompidos. 
Caluniam aos ouvidos. Nos expõe fracos, sem placenta na mão. 
Puerpério de nada, natimortos que são.