Saudade que arde
da tua facilidade
em me causar poesia.
Talvez você retorne aqui e todos os textos tenham sumido ou note que as palavras foram trocadas e o sentido de um poema, de um texto, de uma frase, de um aforismo foi totalmente invertido. Aqui é RASCUNHOlogia, não Definitivologia.
Dizem "Olhe lá a masmorra da bruxa", "sumiu na floresta" - e dizem com festa.
Acalme-se, vilã. A mocinha é que te colocou nesse posto. Cruzou seu caminho e atrapalhou seus objetivos, com aquela pureza infantilizada, em corpo de mulher adulta. Eu te digo, vilã, odeio as mocinhas. "Ah, mas são tão boazinhas!". Poupe-me. Sem elas, você não seria vilã, sem vilã, elas também não seriam mocinhas. As vilãs são as que mais me apetecem. Para mim, as mocinhas são seres bidimensionais. Têm a personalidade de uma folha de papel em branco. Ganharam o protagonismo por causa do chororô, e não do mérito.
No mundo encantado de suas cabecinhas ocas, as mocinhas assoviam com os pássaros, como se todos lhes devessem bondade. Sempre com aqueles olhos de cachorro abandonado. Mas não são elas cachorros - muito menos dos abandonados. Afastam-se de todos se minimamente contrariadas! Não percebem as enrascadas em que se colocam. Não ouvem de qualquer um a razão!
Para elas, o mundo é rosa e tem gosto de caramelo. Aceitam a tudo, sem questionarem. Uma ou outra até carrega um livro, mas não se vê sair da boca delas a filosofia de uma só página. Carregam, por carregarem. É parte de seu papel não ligar para os problemas do mundo. Parecem sensíveis, mas não são. São narcisistas não assumidas. Se a alguém servem, é para manter seu papel.
Todo sofrimento, para as boazinhas, é suportável, porque acham que o sofrimento lhes trás algum tipo de dignidade. Porque acham que o sofrimento lhes dá complexidade de caráter. E ganham afeto e carinho com seus olhinhos úmidos de lágrimas. "Ah, lá vai a mocinha, suportando os males da vida! Como sofre, tadinha!".
Quando o sofrimento aparece, sei que, por dentro, abrem um largo sorriso. É quando sentem ganhar mais camadas na personalidade. É quando recebem a dó e a pena, que para elas soa como gloriosos aplausos. HORA DE PROTAGONIZAR ALGO (em suas vidas ordinárias)!
É o desejo íntimo de toda mocinha: uma boa vilã. É o desejo de toda mocinha, limpar a casa com panos velhos, aos chutes, aos berros, esperando a salvação. Participariam de uma narrativa, e se bem chorada, de um espetáculo! Como seria bom, para essa novela, se o príncipe encantado a visse sofrer entre os trapos. Da dó, brotaria um amor. Um amor-dó. Que dó. Quanta pena! E casam-se em dois minutos. Não encontraram o amor da vida, encontraram a reviravolta da história!
E se o príncipe não tiver defeitos, e se não houver alguém para odiá-la, se ela se entediar do céu que vive. Se não houver vilãs à vista, se desespera! Busca o sofrimento, busca a pena, busca a dó. Deprime-se, grandemente sem seu alimento diário, que não é pão de ló. E então passam a ver pequenos dissabores como grandiosas tragédias. Isso porque não há nada abaixo da bondade da mocinha. É oca, coitada.
E quando a vida é entediante por muito tempo seguido, e não há vilãs por perto, nada sobra das mocinhas. E quando perdem a mocidade, e enterram o príncipe velho, e se perdem dos netos, e do cantar dos pássaros (que agora as irritam, e são seus vilões), e se cansam da masmorra de ouro que elas próprias construíram? Amarguram-se, e aí, somente aí, formam camadas.
E seu castelo vira masmorra, e os vilões tornam-se as pequenas coisas, e as grandes coisas, seus arqui-inimigos. E então se enclausuram, e veem os problemas do mundo. O ar podre que as conduziu à monarquia, e os anos de servidão inútil pagos com pena. Despe-se de seu papel, como um queimado se livra das chamas. Ojeriza seus dias inconscientes. Comove-se com a miséria de sua simplicidade e como é patética sua biografia. E arrisca-se a ler, realmente ler, uma ou duas páginas dos livros que antes lhe serviam de estética. E ali aprende um ou dois feitiços. E encontra motivos para querer viver a vida que não viveu. "Acorda, princesa, a vida não é um glacê"! Rebela-se! Formula os próprios planos para tornar-se a verdadeira protagonista.
E aí aparece uma mocinha, para estragar seus objetivos.
Houve um acidente cósmico, em tempos em que não havia tempo algum. E foi um complexo estranho e único de elementos que nos formou humanos, que nos tirou do habitat natural da inexistência e nos possibilitou experienciar a vida. Depois de percorrermos várias e várias fases de adaptação ao nosso entorno, de sobrevivermos aos ambientes mais hostis, conseguimos obter um cérebro capaz de compreender quem somos, de questionar o ambiente, de nos fazer descer das árvores.
Criamos a linguagem para a sobrevivência, nos tornamos
tribos, vilas, feudos e cidades. Aumentamos nossos tempos em vida, através da
ciência, e para lidarmos com mais tantos anos, passamos a apreciar mais as
artes, nos envolvemos nos mistérios de nossa formação. Notamos a morte, durante
esse processo, e passamos a perguntar sobre os significados das coisas - e os
demos aos montes!
Fomos adoradores do fogo - aquele fenômeno incrível que possibilitou nossa sobrevivência -, do sol e da lua, dançamos para chuva! Humanizando esses eventos naturais, tornando-os mágicos, tornando-os deuses, por não conseguirmos compreendê-los ao tempo.
O responsável pela nossa criação
era Prometeus, e quem nos recolhia à morte era Hades, uns teriam sido criados
por Deus, outros por uma variedade de outras entidades. Viemos do barro, da
água ou do fogo. O nosso destino costurado pelas moiras e, depois, traçados por Deus. Essas questões nos assolaram e por elas nos enfrentamos em
guerras, cuja finalidade era o estabelecimento do(s) verdadeiro(s) Criador(es)!
Os que mais dizimaram, conseguindo seguidores coagidos, venceram. Por uma
ironia, nos desumanizamos e então humanizamos os fenômenos da natureza,
colocando-os acima de nós mesmos, daqueles que amamos, e do instinto de
preservação, que tanto nos alçou.
Olhamos para o céu, para os confins da terra, para nós
mesmos. Chegamos as conclusões mais inesperadas. Nos disseminamos e tudo se
tornou comum. Hoje essa linha histórica, traçada à normalidade pelos poderosos,
é o confortável status quo. Seguir esse caminho anestesiante, nos
distancia da incrível oportunidade de existirmos plenamente, visto que não nos
enfrentamos, fugimos do confronto podando os nossos impulsos, porque não vemos
a oportunidade no existir, um mar aberto, mas no póstumo.
É um grande pesar a posição em que nos colocamos até agora,
de tentarmos encantar o que por si só, sem mágica, já é encantado. Nossas
existências são ínfimas em meio ao infinito, e por isso tão grandiosas para
nós. Somos um curto suspiro, parte de tudo, formados extraordinariamente nessa
forma, nesse tempo, nesse espaço, uma única vez. É uma aventura, a vida, e para
aproveitá-la, precisamos despertar enquanto ela for capaz de durar.
É fato que a busca
pelo significado do experienciar levou a humanidade à crença no divino. Com
o desenvolvimento da racionalidade humana, o homem perdeu a anestesiante
segurança de viver, irracionalmente, no ciclo animal de sobrevivência,
reprodução e morte. Essa perda levou muitas das sociedades, instintivamente, à
procura de proteção a esse novo mundo desvelado pelo raciocínio. Curiosamente,
assim como o engrandecimento da democracia e a consequente diminuição do
Estado, lançou os seres sociais na busca de apoio no Judiciário!
Cada região passou a
criar, a seu tempo, divindades que as acolhessem em suas particularidades
regionais, em consonância com as questões que os assolavam, moldando-as à sua
imagem e semelhança.
O ateísmo é a
simples descrença nesse(s) líder(res) como seres divinos e não meramente
históricos. Não há segredo ou paradoxo, pelo contrário, uma pessoa é ateísta
por motivos simples, quais sejam, (1) ignorância na existência daquela entidade
divina (Ganesha, Hera, Hórus, Iansã, etc) ou (2) quando conhece a entidade e a
nega como ser divino. Dessa forma, não há como chegar a outra conclusão, senão
a de que todos os humanos são ateus, em maior ou menor porcentagem – sendo um
exemplo disso um caso em que um cristão, monoteísta, conhecedor dos deuses
gregos, hindus e indígenas, nega essas divindades tanto quanto um completo
ateísta.
Um completo ateísta
preenche as duas alternativas, ou seja, não crê por ignorância, vez que é
impossível tomar ciência de todas as milhares de entidades existentes, assim
como nega, por diversas razões, àquelas a que foi apresentado. O ateu assim é
definido, por não ver coerência nas explicações dadas pela doutrina religiosa.
Em oposição ao
transcendente e metafísico, um ateu completo é plenamente capaz de diminuir seu
percentual de ateísmo, sendo que o peso da prova que leva a essa diminuição
varia de descrente para descrente. Além disso, ele não só pode, como questiona
seu raciocínio, sendo incabível ver nessa descrença uma forma de crença, visto
que o conceito de ateísmo não se atém a um mero negacionismo que se desvela
numa verdade inquestionável. Muito pelo contrário, tudo é passível de
questionamento e mudança, o que afasta qualquer indício de que sua
inconformidade com as explicações sagradas o torne indício do existir de
qualquer razão superior ou espírito perfeito.
O descrente não descrê nas entidades de forma linear, ou melhor, sua descrença não é uma proposição concreta, não é um conjunto de ideias estático, críveis pelo que são, como se vê na crença, mas sim metódico (cujos métodos variam), científico, que pode mudar em suas composições de suas ideias, a depender do contexto histórico, científico, fático, psicológico, etc – o que não ocorre na crença, que é tradicionalista, rígida, imutável.
O questionar do descrente apenas se assemelha ao do agnóstico, no que se refere a impossibilidade da comprovação do sagrado através do método científico, no entanto, difere em algo crucial: o ateu não crê naquilo que não se pode provar, é guiado pelos fatos, enquanto que o agnóstico é evasivo em chegar a conclusões, pois guiado por ideias, parte do pressuposto de que os seres divinos, impassíveis da comprovação através dos métodos humanos, tem todos a possibilidade de existirem, na mesma medida em que não tem possibilidade de existirem! É um crer/descrer, que só será desvelado, como numa caixa de Schrodinger, se houver Olimpo, Inferno, Submundo, Valhalla ou o Nada.
Para ilustrar melhor, para essa vertente, a probabilidade da existência de Iansã é a mesma da de Zeus, do Deus cristão... ou mesmo do Uberman de Chocolate que eu acabei de inventar, considerando que todos esses seres não podem ser cientificamente comprovados! De fato, o ateu completo vê uma coerência na não-visão da coerência, visto que confere razão a razão, ao provável, ao científico, justamente para não se submeter a confusa filosofia agnóstica ou mesmo a práticas religiosas exaustivas - ressaltando que cada entidade possui sua escala de valores e rituais.
O mais provável e coerente para o ateísta, é a hipótese de que a existência de tais entidades e religiosidades já tenha "completado o ciclo de conhecimento" através de uma possível "aparição". Tal aparição seria extraída da detida análise da história humana, no sentido de que os fenômenos naturais teriam sido humanizados e alçados ao sagrado. Essa hipótese, bastante forte, bastante provável, derruba genericamente todos os deuses - mesmo aqueles pelos quais somos ignorantes e que morreram com as sociedades ancestrais. Fora isso, não há como comprovar através do método científico de que exista qualquer deus, pois não há como vê-los, extrair qualquer parte de seus seres para análise, sendo preciso salientar que suas retratações são diversas, mutáveis de região para região, de doutrina para doutrina, dificultando, dessa forma, uma total comprovação de suas inexistências.
No entanto, contra eles [deuses], pesam os pesados fatos e a reflexão acerca deles, que não leva a outro caminho senão o da descrença, como já dito anteriormente.
Mas, se esses fatos se mostrassem leves, se o científico alçasse o divino, se se comprovasse que qualquer dessas entidades fosse a detentora da Criação, da Vida, qual alegria essa conclusão traria a humanidade? Nossa vida teria sido dada em vão, para o prazer de alguma dessas entidades, como se fôssemos animais em um pavoroso zoológico, criados com instintos que devem ser podados e punidos, com uma liberdade coagida pelo medo do inferno póstumo. Nossa carne negada para sermos aceitos em um pós vida infinito, como se fôssemos peões em um jogo sádico de algum desses deuses, aqui na terra, presos às suas insanidades.
Se os deuses existissem, eles seriam temidos, visto que poderosos.
Se existissem, com razão, os mais lúcidos de seus escravos
os odiariam.