terça-feira, 5 de outubro de 2021

A gota d'água

  Algumas solitárias gotas frias insistiam em cair pesadamente no asfalto. Aproveitou a deixa e acendeu o último cigarro, enquanto se escorava. Olhou para baixo e pensou na solidão, enquanto balançava o calçado, tão gigante, pisando naquela rua pequenininha, escurecida pela umidade da chuva. Ninguém lhe conhecia, assentiu com o trago. Sim... sim, sabiam seu nome. Poucos se alongaram ao sobrenome, e menos ainda permaneceram até o apelido, e mesmo estes não lhe conheciam. Sim... já passaram os olhos em seu sorriso e viram suas lágrimas, mas nada além das feições de seu rosto. Ouviram o tom da sua voz, mas nunca suas razões e o tamanho de suas feridas. Surgiram e sumiram (e incontáveis tantos) sem que lhe fizessem real companhia. Ser a si era seu segredo máximo, a que a ninguém interessaria contar. Era só, sim... era só. Acabou-se o cigarro em seus dedos. À distância somos chuva. Mais longe, ainda, estações. Aproximou o queixo à mão, afunilando o olhar. A gota ainda é uma gota enquanto cai, somente em seu fim se une inominada às poças que evaporam. A boca formou, então, um inaugural sorriso genuíno, e a lonjura entre a ponte e o solo já não lhe pareceu mais tão interessante, assim.  

terça-feira, 28 de setembro de 2021

De 1 a 10, o quanto dói?

   Todo aquele que sorri está alegre, quem chora está triste, quem franze o cenho está nervoso. Tão simples. Quando são os outros, tudo é simples, e dessa forma simples fomos ensinados a compreendê-los e assim, simples, tornaram-se em nossas perspectivas. Usamos esse conhecimento como máscaras, e reconhecemos nos outros essas máscaras como sendo suas reais facetas... mas é tão fácil manipular nossas máscaras no cotidiano, e parece tão fácil que os outros a manipulem, também! 

  Nunca se saberá, com certeza, mesmo que se observando com todo cuidado, se o sorriso esconde uma tristeza, se a tristeza esconde uma raiva ou mesmo se há um misto vultuoso de sensações ocorrendo por detrás de um olhar indiferente. 

  Mesmo que se acerte o sentir, ainda assim não se saberá a real proporção daquele sentir no outro, e de modo contrário, o outro não saberá a real proporção do sentir em quem o observa. Não há coisa mais íntima que o sentir, portanto. O sentir tem uma restrição ao mundo exterior, é algo que ninguém além do próprio ser pode conhecer. Pode-se encontrar as justificativas para as gamas de emoções, mas nunca será possível tocá-las.

  Por óbvio, conseguimos comunicar aos outros que estamos felizes, tristes ou doloridos, mas somente nós sentimos a felicidade, a tristeza e a dor. Os outros as dosarão às suas maneiras. Ainda, note que as palavras estão limitadas às regras externas, a um certo padrão universal de como funcionam os sentimentos. O machucado dói, o beijo dá prazer, despedir-se também dói, e amar também gera prazer. O ralar de um joelho é tão distinto de uma despedida, e o beijo é tão distinto do amor - e ainda assim a primeira distinção se trata de dor, enquanto a segunda se trata de prazer. Todas sensações são complexas e distintas em seus âmagos, ao passo que se coincidem nas palavras e consequentemente na nossa percepção com relação ao outro. Curioso é o âmago pessoal de cada palavra que expressa um sentir.

 Talvez a felicidade machuque o outro, e pode-se encontrar justificativas para uma sensação tão dicotômica quanto essa, mas o quanto ela alegra e o quanto ela fere, é algo que é sentido apenas e tão somente por quem se alegra e se machuca, ao mesmo tempo.

  Há raros momentos em que se sente uma conexão com o outro, de modo que as emoções parecem fluir entre si, como se fosse o existir indivisível. Chamam de empatia, e sente-se a empatia. Envolvem-se dois em uma só gargalhada ou um só choro, num momento em que humores aparentemente se tornam uníssonos em sentimento e proporção. Mas a empatia nada mais é que uma sensação, nada mais é que um sentir individual. Cada qual sente o que é de si e nunca o que é do outro. 

  As sensações íntimas são uma linguagem que não tem real tradução. E é isso que nos faz únicos, e é isso que nos faz tão solitários. Sempre sozinhos, dentro de si.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Remói

Felizes memórias

acabadas histórias

Cruel fantasia,

é tão alto teu custo!

E ingênua rega o que te asfixia


Imerge no líquido embriagante

Vai! Rememora!

Mergulha fundo

e afunda

Bem longe... distante do agora

E ainda mais adiante,

sem que nunca lhe baste 

a triste alegria


Imerja na sola história! 

Ensope de felicidade genuína

Submerja em sorrisos que cessaram

e em esperas ansiosas

que não te esperam mais

E rindo,

se afoga


Alto o preço da memória!

Se remóis,

te estorva

Se aconchega, 

te devora

E ainda, teimosa, afliges a água fria.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Apatia

Onde meu corpo descansa

não resta uma só gota de sangue

A madeira - úmida - me ama

e acolhe com temperança


Ouço-lhes abafado, e lamento

Fétido unguento!

Todos tão vivos e sorridentes,

e o meus dentes se desprendem

e minha pele se consome.


Sentem o sol, a tristeza e o agora

Enquanto mal sinto a terra -

essa, impaciente

me devora.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Embrionário hinário

 Quando se ama, o outro se torna o epicentro dos sentimentos, e portanto o nosso mundo, a nossa casa, a terra em que (re)nascemos e ali formamos a nossa nova vida. O outro torna-se, de uma só vez, nosso lar e criador, e dele retiramos a validação da nossa própria existência como suas criaturas. Afinal, o que somos nós sem as leis físicas e as reações químicas do cosmos que nos forma? E no momento em que o outro ganha tamanha proporção em nosso coração, quando o outro é, de repente, o universo, a sensação é a de que alcançamos o nirvana, que somos um com o outro e unos, um, "tudo está bem, tão bem!". Meditamos nisso, nos encontramos nele, e nele nos acolhemos "esse é o incrível Cosmos". Observamos o céu em seus olhos, e é tudo tão belo nesse mundo! "Belo Cosmos!". Vai-se o sol, que esquenta e cai a noite, que aquieta e nos acolhe, vem o frio, que ameniza e então chove, molha-se o solo e nascem as flores e suspiramos "assim é o belo Cosmos!". 

 Tanto admiramos "Belo Cosmos!". Admiremos O Cosmos, "Belo Cosmos!" onde as brilhantes estrelas colidem, "belo Cosmos!", e então gloriosamente implodem "belo cosmos!", transformam-se em buracos negros que a tudo sugam "cosmos!" e em que os planetas se formam e as galáxias se misturam, e o tempo se confunde entre gravidades diversas, e novas formas de vida surgem e ressurgem aos montes, algumas florescem e então morrem, e outras sequer desabrocham "se ninguém as viu, foram sequer vida?". Assim é O Cosmos, assim distante, assim indecifrável, assim imprevisível, assim caótico, assim indiferente "cosmos?!".

  "Indiferente cosmos!". Fantasias e delírios narcísicos à parte, o cosmos é o que é, ele existe e é tão menos sentimental e humanizável! O cosmos não se revela tido que nada tem a esconder. O cosmos não dá ou retira ou retribui, não cria ou destrói "indiferente cosmos!".

 Reconheçamos! No cosmos há tudo que há "e todos aqui habitamos!". É o tecido leve, onde está costurado meu lar "nosso lar!". Nele em que existimos tantos anos antes, em que até então não deixamos de existir e em que existiremos (e hei de existir!) tantos anos além, até nossos dias acabarem. Nesse cosmos em que de fato existimos, em que somos a criatura indesejada de um criador sem desejos, onde nasceu a terra em que apoiamos nossos pés, esse cosmos findará em si, também, num dia qualquer, seja noite fria ou no alto sol do verão.

 E nessa, exatamente nessa realidade, em que apoiamos os pés e formamos pensamentos, é onde nos validamos como seres da existência, "aqui!" nesse cosmos "nesse cosmos!"... que é tão diferente de mim, e com tanto em comum à você.