terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ideia fixa

Me sinto repetitiva. Obcecada. Não consigo dormir e não consigo me manter completamente acordada. Ando sonhando e me deito acordada. Acho que preciso escrever algo que eu não sei o que é, e que também não sei por onde começa. Então fico digitando o tempo todo, esperando a inspiração descer e ungir a minha mente. É algo grande, tenho alguma certeza disso. E está bem amarrado em mim. Diria até que está me reprimindo. Talvez seja brega, talvez seja épico, mas é algo... Mas que algo? O que eu preciso tanto dizer, que não sai de mim?

É amor, culpa, raiva, tensão? Será fictício ou real? Eu realmente não sei. 

Mas parece urgente. 


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Infância e literatura

 Meu primeiro contato com a literatura, aconteceu na estante da casa da minha avó, em alguma madrugada da minha infância, em que perdi o sono, nos dias em que pernoitava na casa dela. Comecei a ler por curiosidade de saber o que aquelas capas divertidas escondiam dentro de si.

 Um dos primeiros livros que li, depois de devorar boa parte da "Série Vaga-Lume", foi de uma coletânea chamada "Para gostar de ler - Poesias, Volume 6". Ali eu conheci a Cecília Meireles, Mário Quintana, Vinícios de Moraes e Henrique Lisboa, e acho que esses nomes foram uma introdução magnífica ao mundo das poesias e poemas.


* poesia é a “Arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significados”, enquanto poema é “Obra em verso ou não em que há poesia” *



 Acho que é por isso que os poemas e poesias me são tão especiais, eles me lembram de uma época boa, me ensinaram o sentir a vida de uma forma bastante artística, além de tudo isso, me deram uma boa ajuda no ENEM, uma década depois.



 Aqui vai a seleção de alguns dos meus poemas favoritos, atualmente:

O último poema do último príncipe

Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre minha caixa torácica

- Matilde Campilho

Tiranias

antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos

então
falávamos baixo
nos policiávamos

hoje
as coisas mudaram
os ouvidos têm paredes

de nada
adianta
gritar

 - Rui Proença


Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

- Olavo Bilac (1919)

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Ansiedade

  Você se surpreendeu, amou naquele tempo e espaço, como se fosse viver ali para sempre, sem uma pista sequer da duração do seu sorriso. A felicidade é assim, algo sempre inesperado, não tem hora certa para começar ou acabar, e não há razão de racionalizá-la demais.

 Abrace esse ritmo lento do tempo, quando estiver em um momento especial, com toda a sua integralidade, sem alarde. Deguste o doce sabor da vida, perceba como ela é generosa, intensa, uma experiência sempre única, e como é um verdadeiro milagre poder apreciá-la conscientemente.

 Aproveite esses instantes bons, não de forma a decorá-los e encaixotá-los em seu cérebro, como futuras fontes de nostalgia, ou mesmo porque eles irão se desfazer num segundo ou dois, mas porque esses momentos te fazem sentir, genuinamente, a alegria de ser humano, de se ter o sangue correndo nas veias e todas as sensações abstratas inclusas nisso.

 Não há arrependimento em se estar completamente presente.

 Acorde e sinta a vida.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Os sonhos que não realizei

   Fico aqui tentando criar hipóteses, sofrendo imaginariamente com todas elas. Será que existem realidades alternativas? Talvez em uma delas as coisas tenham dado certo, ou talvez, em alguma delas, eu teria tudo. Tudo o que eu quero seria meu, estaria ao alcance das minhas mãos. Finalmente! Finalmente!

  Mas do que adianta me perder nesses pensamentos? O meu mundo é esse, e a minha vida é essa, e nada, absolutamente, poderá mudar as consequências das escolhas pessoais que me trouxeram até onde estou hoje.

 Existem coisas que não dariam certo, mesmo se a realidade toda fosse chacoalhada como um pano velho ou que os multiversos se colidissem. Não adianta insistir, as coisas nem sempre nos são favoráveis.

 É normal que nossos sonhos sejam afunilados ou até fuzilados, durante o nosso tempo de crescimento. É uma tortura lidar com essa frustração de não alcançar tudo, eu sei bem, mas não há como crescer confortavelmente. A realidade é dura assim, e não há atalhos. Temos que lutar, porque a alternativa é bem pior que isso.

  Sorte sermos humanos, sorte que a adaptação faz parte da nossa natureza. Caso contrário, ficaríamos parados em choque no primeiro sinal de que a carreira como astronauta fashionista não decolaria.

  A vida perfeita não existe, os planetas não se alinharão. E isso é ótimo.

 É ótimo porque você pode alcançar a vida boa, numa boa, bem tranquilamente, relax e sem estresse. Imagina só se tivesse tudo que almeja de uma vez só? Ia ficar sem rumo! Teria que encaixar todas as profissões que a Barbie já teve, nas 24h do dia - e ainda lidar com a falta de privacidade que advém da fama mundial como atriz.

 Você vai descobrir que realizar sonhos não é sinônimo de felicidade. Que ter tudo não quer dizer muita coisa. Por experiência pessoal, concluí que talvez falhar nos leve a conseguir as coisas que precisamos muitas vezes sem perceber.

  Nem sempre conseguimos o que queremos, grande coisa!

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Taman shud, a assombrosa trajetória dos astros e Omar Khayyam

  Eu tinha muito tempo livre no meu primeiro emprego, além de acesso limitado à internet. Um dos poucos sites permitidos no ambiente de trabalho era o Wikipédia - e eu ficava presar nesse site, lendo diversos "mistérios inexplicáveis" por horas a fio, e numa dessas, li sobre o caso Taman Shud: 

  
"Caso Taman Shud, também conhecido como o "Mistério do Homem de Somerton", é um inquérito criminal não solucionado acerca de um homem não identificado encontrado morto às 06:30 da manhã de 1 de dezembro de 1948 na praia de Somerton em Adelaide, Austrália."


  Durante o inquérito policial aberto para apurar a morte desse homem (que até hoje não foi identificado), encontraram um pedaço de papel onde constava as palavras "Taman Shud". 

  Depois disso, especialistas foram convocados para interpretarem o significado da frase, e eles concluíram que ela significa "fim" ou "terminado". Além disso, descobriram que o papel tinha sido arrancado do livro de poemas denominado "Os Rubaiyat", escrito pelo persa Omar Khayyam.
  Omar Khayyam era poeta, matemático e astrônomo, que viveu entre 1040 e 1120 d.C, e escreveu livros importantes sobre álgebra e poesia. Ele era islâmico, mas tinha uma visão diferente sobre Deus - para ele, havia um ser superior, no entanto, ele acreditava que os fenômenos e acontecimentos não eram resultado de sua intervenção divina, mas das concretas leis da natureza. 

  Lendo tudo isso, me peguei mais curiosa por Omar Khayyam do que pelo "Caso Taman Shud", e fui atrás de ler o livro de poemas "Os Rubaiyat" (até porque eu não entenderia nada sobre o livro dele que aborda as ciências exatas).

  Descobri que "Os Rubaiyat" é uma métrica de poemas, e que essa coletânea foi batizada assim por Edward Fitzgerald, responsável pela tradução e subsequente fama desses escritos.




  Sou apaixonada por poemas, e temos a sorte de possuir o livro disponível gratuitamente, em português, nesse link aqui.

   Li boa parte dos poemas traduzidos pelos escritores Fernando Pessoa e Alfredo Braga - este último criticou algumas das traduções feitas e argumentou que nenhuma delas é 100% fiel ao persa, considerando que elas sempre carregam as perspectivas pessoais de cada um dos autores.

  Para Braga, é necessário analisar o autor, antes de traduzir a obra, e na introdução do livro, ele tentou decifrar quem é Omar Khayyam e como seria o estilo de escrita deste último, se falasse português: 


"Um homem erudito e sofisticado, que sabe da assombrosa trajetória dos astros, da pureza da rigorosa geometria, e da elegante álgebra, que percebe a inconseqüente soberba dos homens sábios (e a dos outros) e caminha entre rosas, tulipas, lindas mulheres e finos vinhos, provavelmente não ia se entregar a tão imponente singeleza para falar do último gesto, daquele ato inelutável de um outro crepúsculo"


 Khayyam teria uma escrita, portanto, "pontual, concisa e elegante", sem floreios, como muitas das traduções feitas.

  

99. Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu
pensamento.


109. Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos 
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.


  Mas como dito anteriormente, apesar de muito questionar a religião, Khayyam ainda acreditava em Deus, no entanto, assim como interpretou Nietszche em "O anticristo", séculos mais tarde, essa existência não abarca a vida após a morte. Para ele, Deus criou a vida, mas não a vida eterna:


79. Não terás paz na terra, e é tolice acreditar
no repouso eterno. Depois da morte
teu sono será breve: renascerás na erva
que será pisada, ou na flor que murchará.


89. Somos os peões deste jogo do xadrez
que Deus trama. Ele nos move, lança-nos 
uns contra os outros, nos desloca, e depois 
nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada.


  Apesar de tanto questionar o universo, Khayyam não quis questionar a razão de sua existência, e fiquei na dúvida se foi por cansaço ou se foi por saber, de antemão, que não havia uma:


83. Não pedi para nascer. Recebo, sem espanto ou ira,
o que a vida me entrega. Um dia hei de partir; 
não me importa saber qual o motivo
da minha misteriosa passagem pelo mundo.


  Khayyam também escreveu sobre o amor e muito sobre o vinho. Pelo que percebi, o amor e a embriaguez (um dos poucos entretenimentos da época), seriam sua rota de fuga das suas crises existenciais.


91. O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se consumindo no prazer e na dor.

93. O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.


 Para lidar com as frustrações, Khayyam, que escreveu os poemas quando já passava dos 70 anos de idade, deu um conselho que devemos seguir à risca: viver enquanto estivermos vivos:


78. Sente todos os perfumes, todas as cores,
todas as músicas; ama todas as mulheres.
Lembra-te que a vida é breve e que breve voltarás ao pó.


 Lendo os poemas do livro, me tocou muito o fato de Khayyam, criado numa época com pouco acesso a informações, um homem das ciências exatas, de uma religião muito provavelmente limitadora, antagônica ao concreto, à filosofia e à ciência (como a grande maioria das religiões), contestar sua mortalidade... Um homem de novecentos anos atrás fez o que muitos se negam a fazer nessa era de informação - ele olhou para o céu, e contemplou as estrelas, e pensou na sua morte e na passagem do tempo, e se permitiu sentir fascínio e medo, sem recorrer às explicações floreadas, revestidas de uma confortável "verdade divina".

 Quero morrer, como ele morreu, sabendo do meu inevitável fim e usando essa informação ao meu favor. Aproveitarei meus dias até que eles acabem - mas sem a exorbitante quantidade de vinho recomendada por Khayyam, até porque meu fígado não aguentaria mais 70 anos nesse ritmo.

Ces't la vie!

Taman shud.