quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O Questionário Proust

Fuçando aleatoriamente pela internet (quanta novidade!), encontrei um questionário com 35 perguntas, que ficou muito famoso quando o renomado escritor Marcel Proust o respondeu.

Esse questionário foi encontrado em 1924, e daí por diante foi respondido por muitas celebridades.




Pra não ficar de fora, também o respondi:


1.__Qual o seu ideal de felicidade perfeita?
Eu não tenho um ideal de felicidade perfeita. Se a felicidade fosse perfeita, eu não seria eu. Mas se for pra projetar um caminho de felicidade para eu percorrer e nunca atingir, escolho que a felicidade seja feita de mansidão.

__2.__Qual o seu maior medo?
A inexistência. Não a morte, nem a forma como será a morte. Mas a pura e simples inexistência.

__3.__Qual a característica que você mais deplora em si mesmo?
O meu comportamento autodestrutivo. Não concilio viver em paz comigo ou com o mundo. Suspeito de toda alegria. Sempre espero pelos momentos de dor.

__4.__Qual a característica que você mais deplora nos outros?
A terceirização de problemas pessoais. Se você se odeia, por qual razão precisa arrastar pessoas para seu ciclo de ódio?

__5.__Qual a pessoa viva você mais admira?
Não admiro alguém específico. Admiro qualquer pessoa que luta por ser alguém melhor.

__6.__Qual a sua maior extravagância?
Colocar uma roupa chamativa e uma maquiagem divertida, para sair e beber até o sol nascer, sem me importar com as coisas que me perturbam ou com o meu futuro.

__7.__Qual o seu estado mental atual?
Estou me segurando para não explodir em tristeza e desespero.

__8.__Qual virtude você considera mais superestimada?
Organização, justamente porque as pessoas ligam isso à eficiência e inteligência, quando essa virtude, na maioria das vezes, se limita a organização de objetos materiais.

__9.__Em qual ocasião você mente?
Sempre que eu acho necessário não magoar alguém.

__10.__O que você menos gosta na sua aparência?
Meu rosto masculinizado, definitivamente. Odeio meus traços faciais. Principalmente quando eu sorrio. É um encontro muito desastroso entre a ponta do nariz e os lábios superiores.

__11.__Qual a pessoa viva que você menos gosta?
O atual presente do Brasil. Uma besta ao quadrado.

__12.__Qual a qualidade que você mais gosta em um homem?
Expressões de curiosidade e de pensamentos profundos.

__13.__Qual a qualidade que você mais gosta em uma mulher?
Firmeza no que diz e em como age.

__14.__Quais palavras ou frases que você mais usa?
Diversas palavras de baixíssimo calão e, no meu âmago, sempre me lembro do começo do Soneto 19 de Shakespeare, em que se diz "Tempo voraz".

__15.__O que ou quem é o maior amor da sua vida?
A pessoa que eu estou agora. Que me acalma e que me passa uma certeza enorme de que me ama. 

_16.__Quando e onde você foi mais feliz?
Acho que sou mais feliz agora do que antes. Antes eu sofria sem entender, e me sentia sempre solitária e diferente das outras pessoas, nas minhas opiniões e questionamentos acerca do mundo. Hoje tenho companhia, o que faz com que eu me sinta parte dos terráqueos.

__17.__Qual talento você mais gostaria de ter?
Queria ter talento para as ciências exatas.

__18.__Se você pudesse mudar uma coisa em si mesmo, o que seria?
Meu quociente de inteligência (para cima, claro).

__19.__O que você considera como sendo sua maior realização?
Ter conseguido estudar, sem deixar o medo do fracasso me desestimular, por 06 meses, até passar na Ordem.

__20.__Se você fosse morrer e voltar como uma pessoa ou coisa, o que seria?
Eu seria uma pessoa, pois as "coisas" não possuem consciência de si, e eu adoro ter consciência. Eu iria querer ser uma Albert Einstein moderna.

__21.__Onde você gostaria de viver?
Em algum lugar calmo, com vista pro mar, mas próximo de uma grande metrópole. Isso combinaria com a minha ambiversão.

__22.__Qual o seu bem mais precioso?
O meu carro, porque é a única coisa de valor que eu tenho.

__23.__O que você entende como a mais baixa miséria?
A pobreza extrema aliada ao uso exacerbado de drogas. É uma morte em vida.

__24.__Qual a sua ocupação favorita?
Usar a minha criatividade com desenho, escrita e composição.

__25.__Qual a sua característica mais marcante?
Eu não sei, mas as pessoas costumam me chamar de "exótica".

__26.__O que você mais valoriza nos seus amigos?
Compreensão (empatia).

__27.__Quais são seus escritores favoritos?
Luiz Fernando Veríssimo, Douglas Adams, Terry Pratchett, Edgar Allan Poe, George Orwell, Arthur Schopenhauer, William Shakespeare, Machado de Assis, Vladmir Nobokov, Nietzche, Isaac Asimov e Foucault.

__28.__Qual é o seu herói fictício?
Rincewind.

__29.__Com qual figura histórica você mais se identifica?
Niccolo Machiaveli.

__30.__Quais são seus heróis da vida real?
Mr. Rogers, George Carlin, Carl Sagan, Leonardo DaVinci, Platão

__31.__Quais os seus nomes favoritos?
Paul, George, Ringo e John.

__32.__O que você mais odeia?
Ideologias. Odeio o fato de que é difícil não ficar preso a uma.

__33.__Qual o seu maior arrependimento?
Ter magoado uma pessoa importante.

__34.__Como você gostaria de morrer?
Repentinamente aos 120 anos de idade, mesmo sendo uma centenária extremamente ativa.

__35.__Qual o seu lema?
Não morrer até fazer algo pela humanidade.

 A parte interessante desses questionários pessoais, é que você não apenas se conhece mais, no momento presente, ao avaliar suas prioridades e percepções, como eles também funcionam como uma cápsula do tempo das suas infinitas metamorfoses.

 Talvez, daqui a dois anos, você sinta falta do passado, e as perguntas te ajudem a aliviar a saudade ou a te fazer crescer. Ou os dois. Sei lá. Não tô te impondo nada.

Faça. Salve. Conheça-se!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Um dia da vida

Roupas, sapatos, perfumes e cosméticos. E tudo que eu faço para me distrair.
A maquiagem para passar em cima da carne dos olhos, da carne das bochechas e perto dos dentes, onde ficam os lábios.
As blusas de tecidos finos, comprados com folhas de papel, para cobrirem o meu frágil tronco, o tronco que envolve meu sistema nervoso e órgãos internos.
Os sapatos de pele de animais, produzidos em grande escala, vendidos como modelos exclusivos, para esquentarem o conjunto de ossos, pele e calos que são meus pés.
Perfumes fortes que disfarçam o cheiro exalado naturalmente por esse corpo que está constantemente em decomposição, desde que nasceu.
Os cosméticos para retirarem as secreções naturalmente produzidas pelos cabelos e pela face, para que retardem minhas inevitáveis rugas, manchas de sol, desengordurem a superfície do crânio e me afastem de tudo aquilo que me aproxima do pensamento de ser mortal.
Tudo comprado em até 12x sem juros e sem entrada, com um pedaço de plástico que faz circular valores que só existem no mundo virtual.
Plástico esse, conquistado com horas de vida gastas atrás de um retângulo feito de árvore cortada, em um local onde se senta o perfumado corpo, trajado com as vestes e sapatos e borrado com os cosméticos, seis vezes por semana, oito horas por dia.
E assim a medida de tempo idealizada e utilizada pela espécie humana é gasta. Se passam as 24h, 48h, cinco meses, oitenta anos. O corpo toma o curso natural de morrer, as roupas se rasgam e se perdem, os sapatos estragam, o perfume oxida e os cosméticos já não resolvem mais é nada.
É assim que se vive, nesse vida gloriosa que nunca realmente se inicia, que está sempre no final.

Aprisionados

Estão presos dentro de mim, pensamentos silenciosos, mais velozes que as minhas mãos, mais coloridos que as cores que meus estúpidos olhos humanos capturam. Pensamentos impronunciáveis, complexos demais para a simples composição cerebral a que tenho acesso.
Me entopem a garganta e contorcem o meu rosto. Aceleram minha pulsação e afogam meus olhos. Meus lábios se selam e minha frágil atenção se dissolve.
É uma doença a estupidez, impede o contato entre mim e eu mesma. Tudo o que faço é simular essas sinapses que se escondem tão fundo no meu inconsciente.
No intervalo, procuro ligar as palavras a uma sentença, os traços a um desenho e as tentativas (paliativas) a uma cura.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Como agir de forma ética, segundo Immanuel Kant


"Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal." - Immanuel Kant



  Em tempos de extremismos e de justiças particulares, saber se está do "lado certo da história" é um dos questionamentos mais populares dos debates. É um tanto triste notar que é a isso que se resumiu, na última década, as complexas áreas da política, filosofia e ciência. 

  Nesse debate pífio, se perde a essência do que é ético, e todos os pormenores se diluem em um "espectro polarizado", em um jogão de domingo, regado à cerveja e insensatez. Não se debatem ideias individualmente, pelo contrário, colocam-as num saco e generalizam suas problemáticas em grupos, como que para não se perder tempo. Debate-se em 140 caracteres mal redigidos, assuntos que levaram mentes brilhantes a se debruçarem em livros por quase toda a vida - qual time será lembrado por possuir mais vitórias éticas: Palmeiras ou Corinthians?

  Numa década tão aflorada e tão revestida de certezas absolutas, é complexo encontrar textos que impõem calma, atenção e reflexão. E procurando por escritos assim, que me deparei com um tal de Immanuel Kant e suas opiniões sobre a ética:



“Não preciso pois de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: – podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? Se não podes, então deves rejeitá-la”. - Immanuel Kant



  Apesar de  ser uma reflexão antiga, por ironia, ela é revigorante. Ela é necessária aos tempos atuais, porque impõe certa responsabilidade moral às pessoas. A responsabilidade pelo próprio futuro e pela segurança de seu entorno, atinge o diálogo, implicando na individualização das ideias e na extinção de "pensamentos em lote".                                                                                                                     

Assim, antes de querer e lutar fervorosamente para subir no "trem da história" e deixar os "retrógrados para trás", é preciso saber se essa vitória foi ganha pela ética ou pela desarrazoada força bruta. É preciso tentar prever se essa vitória compensará a luta.                                                                                                                                                     

domingo, 18 de novembro de 2018

A Dama Branca - Dorothy Parker

  Muito tempo atrás, lá por 2015, bisbilhotando a internet, encontrei um poema em inglês que capturou minha atenção, mesmo eu não entendendo muito o idioma em que ele estava escrito. 

   O poema se chama "The White Lady" e foi escrito pela escritora, poetiza, dramaturga e maravilhosa Dorothy Parker, por volta de 1929. Ele foi encontrado e publicado, juntamente com outros poemas "secretos", da mesma autora, por Stuart Y. Silverstein, em 1996, num livro chamado "Not Much Fun: The Lost Poems of Dorothy Parker".

   Está na descrição do livro que a Dorothy escreveu mais de 300 poemas e versos (!), que foram escritos entre 1926 e 1933, sendo que ela publicou a maioria deles em três livros: Enough Rope (1926), Sunset Gun (1927) e Death and Taxes (1931).

  Dorothy era conhecida pela sua perspicácia e por possuir um olhar crítico em relação a sociedade. Ela foi muito criticada por sua posição política, além de ter sido uma mulher muito à frente de seu tempo, considerando que ela se tornou independente e bem sucedida numa época em que as mulheres possuíam poucas oportunidades de saírem de seus papéis de mães e donas de casa.

  No mais, a autora perdeu os pais muito jovem e sofria de depressão e alcoolismo (fonte), mas isso não impediu sua criatividade, seu humor e acidez, que se findaram em 1967, quando a mesma faleceu devido a um infarto.

  Procurei uma tradução para o tal poema. Procurei bastante, mas como não encontrei, resolvi fazer o serviço sujo, sempre tentando ser muito fiel a "The White Lady". Aproveite a leitura:

A DAMA BRANCA

Eu não posso descansar, eu não posso descansar
  Na madeira reta e brilhante,
Minhas mãos entrelaçadas sob o meu peito -
  Os mortos são todos tão bons!

A terra é fresca entre seus olhos,
  Lá eles jazem quietos.
Mas eu não sou velha ou sábia;
  Eles não me acolhem.

Onde eu nunca antes andei sozinha,
  Eu vago pelas ervas daninhas;
E as pessoas gritam e trancam suas portas,
  E agitam seus colares.

Não não podemos descansar, nós nunca descansamos
  Dentro de uma cama estreita
Que ainda ama mais os vivos -
  Que odeia os pomposos mortos!

Dorothy Parker - The White Lady (1929)

Link do poema completo, em inglês: Clique aqui