sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Deus está morto x_x'

     Andava Deus tranquilamente entre um pensamento e outro quando tropeçou nas ideias de um reacionário brasileiro. "Quanta baboseira! Esse não sou eu! Como foi pensar isso de mim?" gritou inutilmente. Isso porque dentro daquela mente apertada não havia espaço para uma única onda sonora. No entanto, Ele descobriu uma luz no fim do túnel, um local para ser ouvido, um local onde muitas pessoas de cabeças reduzidas como aquela se encontram e param para ler sobre outras opiniões: a internet.
     Após a descoberta, ao voltar para o seu reino, o todo poderoso não conseguiu acreditar no que tinha visto. Há um mar de gente conectada nesse mundo novo que Ele não conhecia, pessoas vivendo muito mais num ambiente que sequer faz parte da sua criação! A Sua curiosidade foi sendo alimentada por este novo mundo, afinal, Quais os segredos tal lugar guarda?
     A decisão foi difícil, mas Ele resolveu conquistar essa nova terra sem reis ou regras. Para isso, foi preciso descer à lan house brasileira mais próxima, investir dois reais e cinquenta centavos, pedir ajuda para ligar o computador e criar uma página na rede social do momento. Ele olhou, estático, a tela iluminada.
     O problema começou quando o que procurar se tornou mais difícil que a procura, as palavras-chave ainda eram um mistério para alguém que nunca precisou disso. Deus olhou em volta e pediu ajuda ao jovem entretido na máquina ao lado. O garoto disse que criaria conta no facebook "pro velho", mas apenas se recebesse likes num sorteio de uma página. Deus concordou, apesar de não fazer ideia do que isso seria.
     Se me perguntares por onde anda Deus nos últimos anos, a resposta será ouvida com muita confusão: rebatendo cristãos nas redes sociais, sendo popular entre ateus e deprimido.


A Autocrítica

     Não há como negar o começo incrivelmente batido dessa frase. A pobreza do discurso e a falta do conteúdo deste parágrafo inteiro é um completo desastre, e é preciso fé para que a leitura dos próximos prossiga de forma a não instigar o suicídio.
     Ah, céus! Esse desenvolvimento de texto não diz nada que seja relevante social, psicológica, educativa ou moralmente. O problema, talvez, esteja no aspecto vitimista que a autora exprime em cada sentença, deixando assim o leitor arrependido de ter sido alfabetizado.
     Não obstante, essa parte do escrita só serviu para que a autora se depreciasse ainda mais, antes mesmo de mostrar a que veio.
     Por fim, a conclusão apenas relembra a fraqueza da introdução e persiste no que se revela um texto fracassado. Sendo assim, essa redação é a prova escrita da necessidade de um pensamento ecológico na hora de se fazer uma obra.


A. C. Vilela

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Conto: A nostalgia


 Estava me recuperando de uma queda drástica da fantasia para a realidade, meu coração de 15 anos estava estraçalhado. Tinha acabado de perceber que eu não conseguiria tudo que queria na vida: a tão sonhada popularidade e o namorado super-gato-que-todas-queriam. É, eu tinha levado um fora dos grandes, além da tiração de sarro que sofria dos colegas de turma. Por falta de um exemplo bom na época eu acabei pendendo pro álcool e festas pra me sentir bem de novo. Na época, as festas eram como doses de cura. Colocava meu vestido apertado, o batom vermelho, o rímel. A máscara exagerada do que eu queria ser: uma mulher que não liga pra nada, uma prostituta intocável, alguém que faria um capítulo de um livro. Com a bebida alcoólica eu me sentia assim... Invencível, a garota que era bonita e tinha a admiração dos garotos, a garota que era diferente. Me esforçava muito pra interpretar um papel, até hoje faço isso, não gosto de ser assim. Enfim, quando fecho os olhos parece que eu volto para aquela época... quando eu o conheci.
  Uma viagem tinha sido marcada, uma semana longe dos pais, sete dias no paraíso e os hormônios adolescentes florescendo em mim. Acho que nunca mais vivi como naqueles dias, na verdade, não será possível viver nem uma cópia do que foi sentido. Só é possível recordar...
 Dentro do ônibus as risadas, meus olhares direcionados a alguém que eu desejava de uma forma proibida, demos as mãos, olhamos um pro outro, a tensão no ar... Até que ouvi a voz dele. A risada rouca, as brincadeiras bobas. Ele se aproximou. Não sei bem como fomos parar nos divertindo tanto. Mal me lembro do que dissemos, na verdade.
 A chegada no paraíso, as descobertas feitas lá, o mar, tudo era tão simétrico. O corpo dele na piscina desenhado pela água. Nada se via através de seus óculos escuros, nem dos meus. Mesmo assim, compreendíamos que olhávamos um ao outro.
 A chegada passou, fomos para o mar, todos prestavam muita atenção nas lições que passavam. Eu só tentava descobrir se ele estava me olhando de volta... Por que nunca o perguntei isso? Por que estava amanhecendo e anoitecendo tanto naquela semana?
 Estávamos na escuna. Diziam os significados de bombordo e estibordo, mas não ligávamos. Nossas peles estavam encostadas. Ombro com ombro. A felicidade estava me inundando.
 Deitados um do lado do outro naquele paraíso, não sei como tomei coragem de tocar seu cabelo. Nunca tive certeza se ele esteve dormindo. Hoje vejo fotos, eu estava sorrindo como nunca mais irei sorrir.
 Nosso primeiro beijo foi arranjado, lembro da sua sombra atrás da minha. Lembro do caminho de pedras brancas... da escada azul. Eu estava ardendo de dentro pra fora, acho que ele também. Tinha me esquecido como era amar sem álcool, como era sentir a sobriedade da vergonha. A pior coisa que aconteceu foram os passos dos outros voltando, a nossa boca saindo do laço, o olhar dele. Acho que fui a primeira a tomar os beijos dele.
 Então estávamos de volta ao ônibus, e eu não sabia como dormir do lado dele. Toda hora me levantava com alguma desculpa, toda hora eu o observava de esguelha.
 Chegamos a última parada da semana, ele não se aproximava, nós nos distanciamos. Procurei abrigo em outro abraço. Será que contaram pra ele?
 O dia acabando e ele finalmente envolveu os braços nos meus ombros, nos beijamos ferozmente. Senti tanto a sua falta, parecia que iria sufocar. Eu o mordia, o amei tanto naquele momento. Implodi, enlouqueci, saí de mim, onde estive?
 A semana acabou. O mês sumiu. Nos beijamos outras poucas vezes. Seu jeito me deixava possessa, ele não vinha a mim como eu queria. Voltei ao álcool, a outras bocas. Meu pensamento tava sempre lá do lado dele.
 O afastei de mim.
 Tentei o buscar pra mim, não deu. Os anos passaram, amo outro, ele foi virando lembrança. Ele também passou da vida. Seu velório estava cheio de tristeza. Levou uma parte do nosso segredo consigo. Parece que passou um pedaço meu junto.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Indicação de série: My Mad Fat Diaries

     Para entrar no clima da série adolescente mais espetacular que já assisti, uma música da trilha sonora que fala muito sobre a personagem principal:



       My Mad Fat Diaries é baseada no livro autobiográfico de mesmo nome da autora Rae Earl (muito ansiosa pra comprá-lo!). A série britânica passou a ser exibida em 2013 pelo canal E4, mas só passei a assisti-lá por estar com tempo de sobra pra enfrentar meu preconceito com conteúdo adolescente, conceito que foi desconstruído já no primeiro episódio da série por a)Ser inovadora e b)Ter uma trilha sonora fantásssstica.
      A história original, do livro, se passa na década de 80, mas a série é ambientada na década de 90. E, preciso destacar isso: a impressão que o telespectador tem é de que voltou no tempo. Dá até pra sentir o clima úmido britânico do final do século 20.

      Além disso, a personagem principal é gorda e está aprendendo a lidar com toda a pressão que é viver numa sociedade que adora a magreza e a conformidade. É perceptível que a Rae, representada pela atriz Sharon Rooney sofre, mas não vive só de tristeza não, pelo contrário, ela é uma adolescente, ou seja, vive numa montanha russa emocional, às vezes no fundo do poço, às vezes no topo do universo. Ela é incrível, é profunda, engraçada, tem bom gosto e vê o mundo com uma perspectiva tão humana, sente medo, insatisfação, inveja, alegria, amor, raiva e age por impulso (pra caramba).
Archie, Chloe, Izzy, Chop, Finn (<3)

     Ademais, os personagens secundários são tão bem construídos quanto a Rae. A série tem o efeito surpresa. Por exemplo, alguém que você imagina que seja um figurante, de repente, se torna uma pessoa muito importante, e alguém que é muito importante pode não ser nada. Todos reagem com muita naturalidade, nenhum deles, até agora, enfrentou algo de uma forma idealizada, alias, as séries inglesas que mais gosto tem muito disso.

    Sério, corre lá pra assistir. Agora.


 MMFD tem duas temporadas, e a terceira já está sendo produzida mas, infelizmente, não há previsão de estreia :'(.

E ela resolveu escrever um conto

     Clarissa estava distraída naquele dia, talvez fosse o cansaço de um longo e produtivo dia de trabalho. ''Fiz a máquina capitalista rodar'', pensava enquanto via vitrines a caminho do restaurante com seus colegas de trabalho. Chegaram, sentou-se na mesa com os outros, observou o menu ''Tudo aqui é muito caro, deveria ter guardado mais dinheiro''.
- Olá, o que desejam?- perguntou o garçom.
- Uma xícara de café, obrigada.
   Em segundos o primeiro gole de seu café foi engolido.

- Sabe o que odeio? Indígenas. São um bando de estupradores alcoólatras, miseráveis e sem caráter, de vida fácil, sustentados pelo governo. Eu os atropelaria com meu carro!

     ''Quem disse isso?'', pensou. Risadas. Observou os rostos a sua volta voltados a um ponto em comum: Benício. Cada um dos espectadores carregava um olhar diferente. Uns riam, outros concordavam, e Clarissa.
- Benício, o ódio e o amor tem muito em comum, sabe por quê? É por que, se sentidos qualquer um deles em demasia a racionalidade é substituída, logo deixamos de ver as coisas com clareza e lógica, o que, no seu caso, atinge a sua percepção sobre a humanidade dos indígenas. Ainda, quando você diz algo assim, é subentendido que não há parentesco indígena dos que estão presentes? Talvez você não esteja familiarizado com a história, mas dentro das veias de qualquer brasileiro, e isso o inclui, corre o sangue indígena, que por estupro ou por amor fizeram possível essa nossa conversa. Em ambos os casos, a razão de não nos encontrarmos muito com nossos parentes é talvez por que estejam... mortos. E não mortos de velhice ou alcoolismo, mas assassinados, ou melhor, exterminados por pessoas não-indígenas. Olha, colega, a única coisa da sua afirmação que posso concordar é que eles são miseráveis, já que deles tomaram tudo, tanto a cultura quanto seus meios de sobrevivência. A vida deles é cheia de obstáculos, como, por exemplo, seus primeiros desafios estão entre: nascer e chegar aos 10 anos, já que uma grande parte morre por inanição nesse país. Toma vergonha, Benício!

      Quando Clarissa tomou a coragem de pôr para fora a indignação que sentia, o assunto já havia sido trocado. Agora falavam sobre motores de carros.

- Garçom, mais uma rodada!- disse Benício.