sábado, 11 de abril de 2026

Matadores em série

  Deparei-me com a notícia de que há menos matadores em série hoje, no mundo, que nos anos 1980. Os EUA são o maior exemplo disso. E se há uma queda acentuada por lá, há uma queda acentuada global por consequência porque, curiosamente, lá é que se encontra o maior número desse perfil criminoso. Têm muitas teorias sobre o declínio na terra do Tio Sam: eficiência policial, a liberação do aborto e os muitos avanços forenses genéticos que impedem que um assassino faça muitas vítimas.

  No entanto, cá no Brasil, o aborto ainda é crime, a polícia trabalha com os recursos de um palhaço de circo e no presídio só cabem detentos desalmados (com alma, dá superlotação). Então, pensei com meus botões, porque por aqui não vemos tanto esse tipo de crime? Meu amigo, concluí que é a escala 6x1. Acompanhe-me:

 Para ser um matador em série é preciso, acima de tudo, de tempo. Não dá para perseguir uma pessoa após 8h de expediente e nem perder o descanso do domingo mutilando um defunto. Quem é que tem horário, neste país, de sair do ponto de ônibus, vigiar a vítima, correr atrás dela, arrastar um corpo de 70kg e ainda ter de descongelar o frango para a janta?! É simplesmente impossível. É um tipo de crime de países mais desenvolvidos, sabe como é? 

 Pode argumentar aí que temos crimes de sobra no Brasil, que todos nós já passamos por algum assalto na vida. Mas repare bem que ladrão brasileiro não é vagabundo. Repare bem que ele assalta após o horário comercial ou nos feriados e finais de semana. Tanto é que um foliante, no carnaval, já vai preparado com dois celulares para a folia (um pro assaltante). O crime neste país é uma das poucas coisas que são organizadas!

 Matar em série, por outro lado, exige maior comprometimento que um assalto que acontece em 5 minutos, ou até mesmo um sequestro relâmpago que, como o nome já diz, exige uma menor jornada de serviço. 

 Olhe, se o psicopata for realmente comprometido com sua vilania, neste país tropical, fica sem ter como pagar o aluguel. Nenhuma empresa toleraria tanto atraso! Ao contrário dos seriais killers norte americanos que sempre tiveram, às custas da exploração imperialista, tempo suficiente para suas tramóias! Isso é desigualdade na prática.

 É dos ianques os maiores nomes sanguinários que matam sem intenção útil. Enquanto no Brasil, os psicopatas matam como meio para algo: herança, tráfico, uso de drogas, pagamento de agiota e crime do colarinho branco, for the americans, é a morte pela morte. O american way, talvez seja tão consumista, que a contracultura seja o prazer de caçar sem finalidade de lucro.

 Pois bem, a notícia ruim é que na terra da liberdade houve queda dos serial killers mas aumento dos mass murderes. Quase 4 mil assassinos em massa registrados! Registrados, veja bem — porque lá até isso tem controle. Por lá já estão cheios de detectores de metal nas escolas fundamentais. E no nosso país? Neca de pitibiribas!

 A não ser que haja um sindicato dos matadores em série, neste Bananil, teremos que nos contentar com mais um documentário sobre a Richthofen. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Arriscado

Hoje, tenho mais medo que ontem

de subir em lugares altos

de quebrar um osso

de andar sozinha na noite escura

de perder um amigo


Hoje, tento mais que antes

controlar a altura dos meus pulos

a rigidez dos meus movimentos

andar só à luz 

calar o que sinto.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Sobre poesia

Tirei de uma cena da adaptação de "Persuasão" que a poesia raramente é apreciada com moderação por aqueles que a desfrutam por inteiro e que só quem conheceria a perda conseguiria apreciar Byron a ponto de ficar depressivo. E concordo. 

A poesia é potente! Ela potencializa nossas emoções porque conversa com elas intimamente, nua. Um bom poema nos faz encenar, por dentro, os mecanismos que a neurociência estuda. 

Um tal Pavese meditou que escrever é como conversar sozinho com uma multidão. Disso, é fácil inferir que poetizar é como revelar grandes segredos em voz alta e contar fluentemente sobre o que é indizível. 

Note que o que se sente durante um episódio de raiva está além da definição estabilizada do dicionário ou da neurociência. Sentimos aversão e nossos neurônios se agitam? Sim. Mas, e o ódio de Banchs? Já sentiu assim?

(...)

El reposo en la selva silenciosa.
La testa chata entre las garras finas
y el ojo fijo, impávido custodio.

Espía mientras bate con nerviosa
cola el haz de las férulas vecinas,
en reprimido acecho... así es mi odio.


Lou Salomé e seu existencialismo filosófico. Já sentiu?

  As truly as I'd love a friend, 
I have always loved you, riddling life
whether I've laughed with you or wept, 
whether you've brought me pleasure or strife.
(...)

A melancolia  de Cecília Meireles?

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens 
e sentir passar as estrelas 
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. (...)

E aquela frustração de Camões?

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho 
Destemperada e a voz enrouquecida, 
E não do canto, mas de ver que venho 
Cantar a gente surda e endurecida. (...)

E os dias de autoestima de Maya Angelou?

Men themselves have wondered   
What they see in me.
They try so much
But they can’t touch
My inner mystery.

When I try to show them,   
They say they still can’t see.   

I say,
It’s in the arch of my back,   
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I’m a woman
Phenomenally.


A poesia traduz, sem tanta precisão científica, o mundo secreto dos sentidos e define, à sua maneira, o que precisar se dizer dele. É uma forma de comunicação que conversa conosco utilizando-se de um algo além das leituras rigorosas as quais estamos acostumados e ainda nos faz compreender muitos outros sentidos que podem ser extraídos de uma mesma palavra.

A poesia também tem uma musicalidade que só é entendida pelas mentes humanas. Não é ouvida pelos ouvidos. Não há, para ela, teoria musical. Há um ritmo agregado a cada uma. O ritmo de Shakespeare, a exemplo, pulsa como um coração. A cada batimento a palavra é dita com sinceridade e drama:

Tempo voraz, corta as garras do leão,
E faze a terra devorar sua doce prole;
Arranca os dentes afiados da feroz mandíbula do tigre,
E queima a eterna fênix em seu sangue;

Mesmo que não se seja um bom ator para proclamar com destreza o ritmo poético, a experiência própria é quem faz o letramento musical dentro de nossas mentes. Dentro de mim, ouço trovões ao ler o soneto 19 de Shakespeare, por exemplo.

A contradição da poesia mora no fato de que ela traduz muito, mas é muitíssimo difícil de ser traduzida para outro idioma. A leitura de um poema fica preciso em sua lingua de origem. A musicalidade daquele idioma é única e a significação das palavras que provocam coesão são traduzidas deixando muito do conteúdo pra trás. Se se traduz as palavras literais, nada mais haverá da música e dos sentidos. E por isso adoro a tradução do Soneto 19. É belíssima!

Outro paradoxo é que, apesar de tratarem, muitas vezes, de sentimento universais e atemporais, é preciso estar contextualizado para conseguir extrair mais sentido dos poemas, como o poema "A Pulga" de John Donne:


Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Na época do poema as pessoa que o leram já sabiam do lugar-comum proposto por Donne. Ou seja, saberiam que a união do sangue de duas pessoas era uma intimidade como o sexo - e elas conseguiram entender mais plenamente a sagacidade de "A Pulga" do que um leitor moderno e seu anacronismo acidental.

No poema, a intervenção da pulga que uniu o sangue dos amantes já teria "pulado para a etapa mais importante", que seria a união do sangue, e justamente por isso, o eu lírico solicita o encontro sexual (a etapa deixada de fora), invertendo a ordem moral para se servir de uma tática de sedução.

Durante o poema, ele vai entregando argumentos para conseguir transar com a sua amante, como a premissa implícita que a pulga não provocou a perda da virgindade dos amantes, que a troca de sangue já teria sido feita sem pecado ou perda da virtude e que agora só faltava concretizar o ato sexual.

Os poemas mais antigos eram curiosos por serem como jogos de palavras a serem desvendados. 

"A cada parto agudo é necessária a novidade sem a qual a maravilha desaparece e, junto com ela, a graça e o aplauso" (Tesauro)

A graça era (e ainda é) ler um poema que desenvolve um argumento fazendo uma correspondência inesperada de palavras aparentemente desconexas. 

Nos poemas, lemos palavras dessemelhantes sendo usadas para desvelar uma perspectiva íntima ou até mesmo existencial. É divertido extrair um sentido de um poema engenhoso, mas é também revigorante ter uma perspectiva abraçada pelas palavras de um poeta ou até mesmo descobrir elocubrações que nunca antes participaram da nossa própria experiência. 

Cada tipo de arte possui uma digital incomparável. A poesia nos dá uma companhia única, que não é encontrada numa música, num filme, no DSM-5 ou em tratados filosóficos.  A  poesia significa mas sem a pretensão científica ou filosófica de estabilizar sentido. Ela te faz sentir o que ela sentiu, mas sem te explicar o que foi. É um micro-cosmos inalcançado pelos átomos.

quarta-feira, 4 de março de 2026

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Divórcio

Sentaram-se lado a lado. E então viraram os rostos. Ela olhou para o chão. Ele, para ela. Ela para ele. E ele para o chão. Ruborizaram.

 Ela quem tomou o primeiro fôlego:

- Como posso te dizer?

- Dizendo-me. - As mãos dele suavam.

- Então te digo: Eu te amo. E sinto...

- E eu já não sinto mais o mesmo.

- De me conhecer? - respondeu, surpresa.

- Não, do início, do nosso primeiro beijo, aqui, neste mesmo banco.

- Mas... nunca nos beijamos. - disse-lhe, confusa.

- Sabe como é... na minha mente, já nos divorciamos.

Ela riu.

- Sim - ele prosseguiu - Foi tudo muito bonito. Nosso primeiro beijo foi logo aqui, após confessar que me ama e eu retribuir com um beijo. Guardei esse beijo por tantos anos, desde a primeira vez que te vi. Sempre soube que nos casaríamos, mesmo antes, quando não passávamos de estranhos. Deste banco, te levei para tomarmos sorvete, uma coisa leva outra, então para um lanche, para alugarmos nossa primeira casa, juntarmos nossas vidas, conhecermos nossas famílias. Fomos muito felizes.

- E como é que essa felicidade toda aí foi embora?

- Bom, eu queria casar no altar, você em alguma noite embriagada de Las Vegas. Eu desejava filhos, e você não queria nem mesmo mudas de plantas, entende?

- Mas você disse que nos casamos.

- Nós casamos.

- Onde, afinal?

- No altar. 

- E como é que troquei Las Vegas por isso?

- É daí o nosso fim. - disse, segurando a mão dela com firmeza - E sentados aqui, já percebo a razão. Acho que você foi a primeira a não sentir mais.

- Como é isso?

- Eu queria filhos, então essa foi sua concessão à minha felicidade. E a minha concessão à sua felicidade foi sentir um grande vazio, sem nunca poder ver nossa prole brincando pelos jardins que não tínhamos em casa.

- Em que momento lhe dei um filho?

- Olha só, você adivinhou... Bom, alguns anos depois, quando já não conversávamos mais sobre qualquer coisa além de impostos.

- E conversamos por meio de nosso filho por quanto tempo?

- Por tempo demais.


Levantaram-se. E nunca mais olharam para trás.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Bem criancinha

Quando me dei conta de ter nascido, percebi que eu morava na casa da minha avó - na verdade, eu não pensava como 'casa da minha avó', eu sentia o que era 'casa' antes da palavra e da propriedade. É difícil explicar como eu entendia o mundo sem saber o que aqueles barulhos orquestrados, que saíam da boca dos adultos, significavam. 

Um dia fez sentido, para mim, que minha vizinha respondesse ao som de "Bia". Eu a vi através das grades. Agarrei-me ao portão e resolvi testar a teoria. Tinha vontade de vê-la, porque ela era legal e me deixava brincar de boneca. Gritei aquele som a plenos pulmões! O "bê" era difícil, saiu "Pia". E essa foi minha primeira palavra.

Num primeiro momento, os gigantes se encantaram com a minha tagarelice, mas depois que aprendi a formar muitas frases, o fato de que eu verbalizava não demorou para se tornar notícia velha. Eu não era lá muito ouvida, porque tudo o que eu estava conhecendo já era conhecido, então achei legal o fato de falar para dentro: A grama é do chão de terra, a noite é escura, o louva-a-deus não canta hino louvando Deus.

Eu fui subindo nos armários, nas mesas, então nas árvores, nos galhos cada vez mais altos, nos muros, no telhado e passei a fugir de casa com uma boa frequência.

Lembro-me razoavelmente, como num sonho, de esperar meus pais tirarem a sesta para poder abrir o portão e fugir. Talvez por isso a minha empatia com os cães domésticos. Não é que eu não gostasse de casa, mas puxa vida! Um mundo inteiro lá fora, as risadas das crianças brincando na rua, os carros voando no asfalto, os gatinhos bonitinhos desfilando e os adultos lá, descansando a barriga! Eu dava é no pé. E já tinha um pouco de astúcia. Era gatuna e curiosa. 

Minutos, ou horas, após andar e andar até a Avenida Campo Grande, senti ter sido içada por um gigante, que me apoiou nos ombros. Era o vigilante da rua. Estava me resgatando. 

Com a idade, fui ficando mais sábia e não ia mais às avenidas perigosas e movimentadas durante as minhas escapulidas. E eu já contava até 10 e, se forçasse, trinta e dez, noventa e dez, até duzentos e noventa e dez! Ficava tentando contar mais alto só para provar que eu conseguia chegar ao último número dos números (ficava logo após o mil cento e alguma coisa que eu não tinha aprendido).

A idade nos traz desafios cada vez mais complicados: o da vez era que as crianças da rua eram mais velhas e já estavam na 1ª série. Senti uma grande aflição ao ser deixada para trás com a minha amiga Bianca. Ela me disse que, na escola, ia para aprender a ser mais inteligente, que se contava até o infinito e que se via mais crianças ainda do que na rua.

Eu e Bianca ficávamos olhando da janela da casa dela as crianças com suas mochilas bonitas, uniformizadas, como se fossem heróis indo ao combate. Eram elas tão maiores e mais inteligentes que nós! Não muito depois, fui traída pela minha amiga. A mãe a matriculou na pré-escola e fui deixada para trás.

Lembro de pedir à minha mãe para ser matriculada também, mas ela me disse para esperar, que eu estudaria já, já. E esse já, já que não chegava nunca? Nos terríveis tempos letivos, a rua ficava triste e deserta. Mas assim que eu conseguia pedalar muito rápido minha motoca, esquecia de tudo. Eu vivia num eterno presente.

Alguém me contou num certo dia que, quando se cresce, a infância todinha é esquecida. Tentei forçar a memória para pensar no útero da minha mãe e, horrorizada, constatei que falhei. Bem criancinha, um pensamento mais longo representava 2/3 da minha vida. Tive medo de não recordar de mim mesma.

Daí é que passei a lembrar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sísifo no RH

 Para obter recursos para sobrevivência e para o lazer, é preciso se submeter a certas coisas que só ficam toleráveis mediante certos valores modernos que fariam Aristóteles hiperventilar. A vida feliz no capitalismo exige o valor da ganância, coisa que eu não tenho. Eu não acho o valor ruim, aliás, preciso de um pouco disso para desandar para o sucesso. Ando incluindo na minha rotina uma parte para meditar sobre: o que quero para o futuro? Aonde me vejo daqui a 5 anos? Tenho plano de carreira? Qual o meu salário ideal? Não me julgue. Perguntas de RH são tudo o que sei sobre essa questão tão essencial à vida moderna, e são o caminho que encontrei para pensar sobre planejamento.

 Meu irmão caçula tem aulas, veja bem, de "Projeto de Vida"! Ele já sabe que existe um mar que não está para peixe aí à frente, e desde os 8 anos já está sendo programando para o futuro. Sabe onde aprendi a projetar a vida? Clube da Luta. Eu não queria ser o Narrador. Eu tinha uma ojeriza em me tornar um adulto mecanizado, classe-média, orientado ao trabalho, dopado por antidepressivos, assistindo TV, sozinha, no meu apartamento próprio e razoavelmente bem localizado em Los Angeles. Não! Pelo amor de Deus! Qualquer coisa, menos isso. 

 Em retrospecto, percebo que queria ser o Tyler Durden - mas não tem plano de saúde. Por quanto tempo vivi sob essa esperança de não ser um grão entre as massas e poder sair por aí dando socos e fazendo negócios ilícitos? Agora, pra lá dos 30, sinto como se fosse eu um bebê dando os primeiros passos na disciplina. 

 Disciplina é, justamente, robotizar-se, fazer o mesmo todo dia, é se incomodar em passar o natal com a família porque eu deveria estar fazendo um revisaço de Direito Civil. Penso que, com a ganância, com a vontade de ter mais, ser mais, mostrar mais, tudo isso serve de motivação para se manter ali, naquela rotina exaustiva de estudos, depois de 8h de CLT.

 Assisti a um vídeo de uma menina jovem adulta que estava aos prantos porque percebeu que não seria atriz e que teria que se dedicar a um emprego normal, o que mataria aquele tipo de sonho que deveria ter sido abortado, mas foi deixado para nascer com má-formação, aos berros do sofrimento. Já me vi no lugar dela, porém sem nenhum sonho. Zero. Mesmo. E por isso, na época dos meus vinte, eu nem consegui chorar. Chorar por perder quê? A liberdade de beber 12 litros de cerveja mensalmente? Fala sério...

 Um grande problema é que eu não vejo o labor como a parte da minha vida que me completará como ser humano, e muito menos penso nas minhas paixões como fontes de renda. O trabalho é só um meio para a finalidade de comprar lápis de cor profissional. Apesar de ser muito saborosa a sensação de ver minhas pinturas comissionadas circulando por aí, trabalhar diretamente com arte está muitíssimo fora do meu alcance, além do que meu timing já passou, com a vinda das IA's.

 Eu me aprumei na vida por não ter outra coisa a ser feita dela. Além disso, já estava entediada com a rotina antiga. Nos últimos anos venho tentando ter a tal da ganância, desenvolvê-la sem medo de ultrapassar a justa medida. Por indicação de um amigo, numa certa vez, colei o salário da carreira pretendida em frente ao meu campo de visão da mesa de estudos. Não deu certo. Tenho a sede de vencer de um afogado. O que anda dando frutos é pensar que um esforço aqui, me poupará, lá na frente, de passar tanto perrengue - e que, novamente, não há outra coisa a ser feita.

Dentro do possível, mentalizo que darei conta, sim, de administrar situações difíceis da vida, como a de me focar numa certa carreira, com suas responsabilidades e tal. E uma forma boa é pescar, na memória, situações em que consegui me safar por ser engenhosa ou espertinha. A confiança depende do percentual de acertos no site de questões. Ultimamente, baixíssima. Ando cansada, de um período de esgotamento físico, e me pego sonhando com gloriosos tempos de aposentadoria por idade que conquistarei.

Há que se imaginar Sísifo lendo o Vade Mecum. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

TV

 O mundo me foi apresentado pela tevê de tubo, antes do livro ter uma chance. Foi num canal chamado TV Cultura que descobri que eu era analfabeta, que existiam as ciências, que existiam cientistas que faziam mágicas com seu engenho e que o mundo era infinitamente maior. Ali que soube que tinha gente que dançava sincronizada, que existia sapatilha, bailarina, música clássica e instrumento musical. Eu não tinha nada disso no auge dos meus 5 anos de idade. Ou tinha, mas não notava. 

Foi a tevê que me fez notar a estante de livros, para além da estante. E por não saber ler, eu subia, pegava um livro, via a imagem, cheirava as páginas. Eu brincava com a caneta, fingindo escrever em letra cursiva, e torcendo para ter escrito algo, de verdade, por acidente. Mas eu mostrava meu eu lírico para o adulto, e ele só sorria e abanava. É... não foi dessa vez, eu pensava.

A ficção foi-me apresentada, também, primeiro com narrativas simples, personagens doces, éticos, nerds, curiosos, assim como eu queria ser. Mas que baita contraste comigo! Bem ao contrário do Smilinguido, eu perdia a paciência, mostrava a língua, jogava a chave da casa da vizinha no mato, beijava o meu coleguinha na boca, era egoísta, brigava com meu irmão, me desentendia com os moleques da rua, furtava remédio de tutti-frutti do armarinho de primeiros-socorros, quebrava os brinquedos para ver o que tinha dentro, comia sabão, caca de nariz e sentia inveja. Que horas que eu iria evoluir se levava bronca e surra todo dia? 

Os anos 2000 vieram, os canais mudaram, e tive acesso à MTV. Num primeiro momento, em que vi homens adultos com roupas de couro, maquiagem e todos aqueles sons estridentes das guitarras, eles me causaram um estranhamento enorme. Chocaram meu mundo. Percebi que as coisas poderiam ser diferentes, chamativas, contracultura, dramáticas e... legais. 

Foi algum acorde alto que me gritou o que, até então, eu não tinha percebido: os personagens monocórdicos de outrora, só eram possíveis naquele mundo ficcional preto e branco, em que as leis sociais eram rígidas como as físicas. Tudo era harmonioso e inalcançável! Nem sempre o adulto quer te ouvir, seguindo o roteiro da expectativa, nem sempre você não quer mostrar o dedo do meio para ele!

Quanto mais o rockstar era estranho, mais eu me esforçava para ultrapassar a estranheza, porque eu sentia (muito mais do que sabia) que neles habitava esse tanto de ódio que eu tinha. E como eram raras as representatividades de rebeldes nas novelas, nas séries e na vida! Eu os admirava tanto, que trabalhava com o material que me era fornecido. 

A certa altura acreditei que o estilo era a única alternativa a uma vida patética, no meio das massas. Se me punha à frente da TV numa sexta-feira chuvosa, o Matanza me vinha aos ouvidos dizendo que era deprimente, com tantas caixas de cerveja, barris de whisky, carne vermelha e cheiro de bagulho do outro lado do portão. "Vai ficar aí, mané?". E lá vem a memória de Bom é Quando Faz Mal tocando na maior altura, dentro da brasília dos pais de algum amigo.

Por um bom tempo, eu emulava aquela ideia de rebelde, com o que eu sabia da rebeldia. Só para testar. Só para saber a sensação de conviver amarrada aos meus defeitos e longe daquele medo do conflito, tão induzido nas criações femininas. Às vezes me colocava em perigo, às vezes em depressão - mas se me mantive naquele estilo de vida por tantos anos, é porque antes de ficar massante, era massa. 

Mas o arquétipo da rebeldia inconsequente chega a ser mais ingênuo que o das princesas encantadas. Primeiro porque depende do mundo inteiro sendo tolerante com os erros. Segundo, é que a raiva é sintoma de alguma esperança em ser. E nossos fígados só aguentam até um certo ponto. Há que haver um meio-termo! 

Não tem uma só versão anterior minha que não ficaria absolutamente indignada com quem sou hoje.  Puxa, quantos defeitos venho carregando de lá para cá! Quanta coisa deixei de fazer, planos que mudei, oportunidades que recusei, desafios que desisti. Estou entre as massas, não mudei o mundo. E esta sou eu, em toda a minha presença.

Consigo ver aquelas tantas caras decepcionadas através do espelho. Para algumas eu dou razão, para outras, o dedo do meio. As tevês morreram!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Little birds

Culpa e prazer, prazer e culpa. Essa é a segunda vez que escrevo algo sobre sexo que não seja uma piada ou um assunto muito sério e acadêmico que envolva violência de gênero. A minha primeira vez foi num poema que está perdido por aqui. A minha segunda vez é esta.

Há anos atrás li uma frase que dizia que a vergonha seria uma mentira que alguém conta para nós, sobre nós mesmos, assinada por Anaïs Nin. Um pouco de pesquisa: Autora de livros eróticos. Ora, pois nunca eu tinha lido um, e nem me interessava. 

Não me interessava por dedução. Quando se escreve sobre sexo, na maioria das boas obras literárias, ele fica ali mais de plano de fundo. Nas más obras: é o epicentro, usado como isca para manter o instinto primitivo do leitor concentrado para a próxima página. Usa-se muito como gancho para sustentar histórias ruins, ocultar erros nas construções dos personagens, é um tipo de truque que se desgasta rápido e fica entediante. Sim, já sei autor, agora ele engole a saliva, e ela o admira com medo. Daí que colocam vampiros de 200 anos sexualmente interessados na Taty, estudante de ensino médio do interior do Tocantins. Vão-se 10 tomos e ela ainda não sai dos 15 anos. Quem é o vampiro, afinal?

Mas a frase de Nin não parecia com as frases prontas dos livros da minha adolescência, me trazia algo de mais instigante. Ela escrevia contos eróticos, mas não só. Era uma poeta, também. E uma poesia boa, sensível, algo que a distinguia de outras autoras de livros de "fantasia". A curiosidade me seduziu. Li a versão em inglês disponível no Kindle, do livro Little Birds. Não vi se há versão em português. Com exceção de um texto ou outro muito bizarro e obviamente problemático (busco aqui não ser anacrônica), outros foram ótimos de ler. Sensíveis e sensuais de se ler.

    “It was a period of drunkenness, of blindness, of living only with the hands and mouth and body.” 

Na obra da Anais, o sexo é a história per se. Em Little Birds, ela aborda essa sensação misteriosa do autodescobrimento, sendo corajosamente explícita sem perder uma boa construção de contos, personagens críveis e humanos - é como se estivesse observando as memórias nostálgicas de alguém que encontrou o prazer e a libertação, que aproveitou a juventude longe da vergonha. É sedução com elegância, com um je ne sais quois: 

"There are women’s voices that sound like poetic, unearthly echoes. Then they change. The eyes change. I believe that all these legends about people changing into animals at night — like the stories of the werewolf, for instance — were invented by men who saw women transformed at night — from idealized, worshipful creatures into animals and thought that they were possessed.” (a. n.)

Aliás, a palavra "shame" aparece pouquíssimas vezes nos treze contos. É um livro bem pouca-vergonha. 

Anais me fez lembrar de um bom filme chamado 'O amante' (1992), que assisti há uns dois anos. É cultzão e serve a poucos gostos. Mas tem o sexo perfilando cada cena. Pois bem, zanzando pela internet descobri que se tratava de uma adaptação do livro, de mesmo nome, da romancista francesa Marguerite Duras. 

A leitura de 'O amante' foi saborosa. Duras é também uma autora explícita e poética, sensível e envolvente. Não senti ter lido um romance, mas um diário, uma reconstrução feita à base de memória inconstante, melancólica e saudosa:

"Durante séculos, os navios fizeram com que as viagens fossem mais lentas e mais trágicas do que são hoje. A duração da viagem recobria naturalmente a extensão da distância. As pessoas estavam habituadas a esses lentos ritmos humanos na terra e no mar, a esses atrasos, a essa espera dos ventos, dos céus abertos, dos naufrágios, do sol, da morte" (m. d.)

As duas autoras já se encontraram, colaboraram em projetos, e me parece que tiveram uma certa divergência artística. Após ler as duas autoras, sei bem a razão. É filosófica. Se Nin via no sexo o prazer da liberdade, Duras via o preço da liberdade. Uma era nostálgica, a outra saudosista. Diferenças cruciais e interessantes sobre como encaramos o nosso próprio instinto, nosso prazer, desejo e a cultura.

Acho que Duras acreditou mais nas mentiras que contaram sobre ela mesma. Nin, criou o próprio mundo para que não morresse no dos outros.