quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

TV

 O mundo me foi apresentado pela tevê de tubo, antes do livro ter uma chance. Foi num canal chamado TV Cultura que descobri que eu era analfabeta, que existiam as ciências, que existiam cientistas que faziam mágicas com seu engenho e que o mundo era infinitamente maior. Ali que soube que tinha gente que dançava sincronizada, que existia sapatilha, bailarina, música clássica e instrumento musical. Eu não tinha nada disso no auge dos meus 5 anos de idade. Ou tinha, mas não notava. 

Foi a tevê que me fez notar a estante de livros, para além da estante. E por não saber ler, eu subia, pegava um livro, via a imagem, cheirava as páginas. Eu brincava com a caneta, fingindo escrever em letra cursiva, e torcendo para ter escrito algo, de verdade, por acidente. Mas eu mostrava meu eu lírico para o adulto, e ele só sorria e abanava. É... não foi dessa vez, eu pensava.

A ficção foi-me apresentada, também, primeiro com narrativas simples, personagens doces, éticos, nerds, curiosos, assim como eu queria ser. Mas que baita contraste comigo! Bem ao contrário do Smilinguido, eu perdia a paciência, mostrava a língua, jogava a chave da casa da vizinha no mato, beijava o meu coleguinha na boca, era egoísta, brigava com meu irmão, me desentendia com os moleques da rua, furtava remédio de tutti-frutti do armarinho de primeiros-socorros, quebrava os brinquedos para ver o que tinha dentro, comia sabão, caca de nariz e sentia inveja. Que horas que eu iria evoluir se levava bronca e surra todo dia? 

Os anos 2000 vieram, os canais mudaram, e tive acesso à MTV. Num primeiro momento, em que vi homens adultos com roupas de couro, maquiagem e todos aqueles sons estridentes das guitarras, eles me causaram um estranhamento enorme. Chocaram meu mundo. Percebi que as coisas poderiam ser diferentes, chamativas, contracultura, dramáticas e... legais. 

Foi algum acorde alto que me gritou o que, até então, eu não tinha percebido: os personagens monocórdicos de outrora, só eram possíveis naquele mundo ficcional preto e branco, em que as leis sociais eram rígidas como as físicas. Tudo era harmonioso e inalcançável! Nem sempre o adulto quer te ouvir, seguindo o roteiro da expectativa, nem sempre você não quer mostrar o dedo do meio para ele!

Quanto mais o rockstar era estranho, mais eu me esforçava para ultrapassar a estranheza, porque eu sentia (muito mais do que sabia) que neles habitava esse tanto de ódio que eu tinha. E como eram raras as representatividades de rebeldes nas novelas, nas séries e na vida! Eu os admirava tanto, que trabalhava com o material que me era fornecido. 

A certa altura acreditei que o estilo era a única alternativa a uma vida patética, no meio das massas. Se me punha à frente da TV numa sexta-feira chuvosa, o Matanza me vinha aos ouvidos dizendo que era deprimente, com tantas caixas de cerveja, barris de whisky, carne vermelha e cheiro de bagulho do outro lado do portão. "Vai ficar aí, mané?". E lá vem a memória de Bom é Quando Faz Mal tocando na maior altura, dentro da brasília dos pais de algum amigo.

Por um bom tempo, eu emulava aquela ideia de rebelde, com o que eu sabia da rebeldia. Só para testar. Só para saber a sensação de conviver amarrada aos meus defeitos e longe daquele medo do conflito, tão induzido nas criações femininas. Às vezes me colocava em perigo, às vezes em depressão - mas se me mantive naquele estilo de vida por tantos anos, é porque antes de ficar massante, era massa. 

Mas o arquétipo da rebeldia inconsequente chega a ser mais ingênuo que o das princesas encantadas. Primeiro porque depende do mundo inteiro sendo tolerante com os erros. Segundo, é que a raiva é sintoma de alguma esperança em ser. E nossos fígados só aguentam até um certo ponto. Há que haver um meio-termo! 

Não tem uma só versão anterior minha que não ficaria absolutamente indignada com quem sou hoje.  Puxa, quantos defeitos venho carregando de lá para cá! Quanta coisa deixei de fazer, planos que mudei, oportunidades que recusei, desafios que desisti. Estou entre as massas, não mudei o mundo. E esta sou eu, em toda a minha presença.

Consigo ver aquelas tantas caras decepcionadas através do espelho. Para algumas eu dou razão, para outras, o dedo do meio. As tevês morreram!

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