Para obter recursos para sobrevivência e para o lazer, é preciso se submeter a certas coisas que só ficam toleráveis mediante certos valores modernos que fariam Aristóteles hiperventilar. A vida feliz no capitalismo exige o valor da ganância, coisa que eu não tenho. Eu não acho o valor ruim, aliás, preciso de um pouco disso para desandar para o sucesso. Ando incluindo na minha rotina uma parte para meditar sobre: o que quero para o futuro? Aonde me vejo daqui a 5 anos? Tenho plano de carreira? Qual o meu salário ideal? Não me julgue. Perguntas de RH são tudo o que sei sobre essa questão tão essencial à vida moderna, e são o caminho que encontrei para pensar sobre planejamento.
Meu irmão caçula tem aulas, veja bem, de "Projeto de Vida"! Ele já sabe que existe um mar que não está para peixe aí à frente, e desde os 8 anos já está sendo programando para o futuro. Sabe onde aprendi a projetar a vida? Clube da Luta. Eu não queria ser o Narrador. Eu tinha uma ojeriza em me tornar um adulto mecanizado, classe-média, orientado ao trabalho, dopado por antidepressivos, assistindo TV, sozinha, no meu apartamento próprio e razoavelmente bem localizado em Los Angeles. Não! Pelo amor de Deus! Qualquer coisa, menos isso.
Em retrospecto, percebo que queria ser o Tyler Durden - mas não tem plano de saúde. Por quanto tempo vivi sob essa esperança de não ser um grão entre as massas e poder sair por aí dando socos e fazendo negócios ilícitos? Agora, pra lá dos 30, sinto como se fosse eu um bebê dando os primeiros passos na disciplina.
Disciplina é, justamente, robotizar-se, fazer o mesmo todo dia, é se incomodar em passar o natal com a família porque eu deveria estar fazendo um revisaço de Direito Civil. Penso que, com a ganância, com a vontade de ter mais, ser mais, mostrar mais, tudo isso serve de motivação para se manter ali, naquela rotina exaustiva de estudos, depois de 8h de CLT.
Assisti a um vídeo de uma menina jovem adulta que estava aos prantos porque percebeu que não seria atriz e que teria que se dedicar a um emprego normal, o que mataria aquele tipo de sonho que deveria ter sido abortado, mas foi deixado para nascer com má-formação, aos berros do sofrimento. Já me vi no lugar dela, porém sem nenhum sonho. Zero. Mesmo. E por isso, na época dos meus vinte, eu nem consegui chorar. Chorar por perder quê? A liberdade de beber 12 litros de cerveja mensalmente? Fala sério...
Um grande problema é que eu não vejo o labor como a parte da minha vida que me completará como ser humano, e muito menos penso nas minhas paixões como fontes de renda. O trabalho é só um meio para a finalidade de comprar lápis de cor profissional. Apesar de ser muito saborosa a sensação de ver minhas pinturas comissionadas circulando por aí, trabalhar diretamente com arte está muitíssimo fora do meu alcance, além do que meu timing já passou, com a vinda das IA's.
Eu me aprumei na vida por não ter outra coisa a ser feita dela. Além disso, já estava entediada com a rotina antiga. Nos últimos anos venho tentando ter a tal da ganância, desenvolvê-la sem medo de ultrapassar a justa medida. Por indicação de um amigo, numa certa vez, colei o salário da carreira pretendida em frente ao meu campo de visão da mesa de estudos. Não deu certo. Tenho a sede de vencer de um afogado. O que anda dando frutos é pensar que um esforço aqui, me poupará, lá na frente, de passar tanto perrengue - e que, novamente, não há outra coisa a ser feita.
Dentro do possível, mentalizo que darei conta, sim, de administrar situações difíceis da vida, como a de me focar numa certa carreira, com suas responsabilidades e tal. E uma forma boa é pescar, na memória, situações em que consegui me safar por ser engenhosa ou espertinha. A confiança depende do percentual de acertos no site de questões. Ultimamente, baixíssima. Ando cansada, de um período de esgotamento físico, e me pego sonhando com gloriosos tempos de aposentadoria por idade que conquistarei.
Há que se imaginar Sísifo lendo o Vade Mecum.
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