sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

O idiota essencial

 Luis Fernando Veríssimo vê o homem apaixonado como a parte mais honesta da experiência humana, é o cerne do que o constitui como individuo, é o seu âmago, é o que dá o pontapé celular inicial das propriedades da carne, é o idiota essencial; é aquele cara atrás de um poste, que finge encontrar ao acaso a mulher amada no local em que ele sabe que a iria a encontrar. É o cara que simula ler, no poste, a lista de bichos e à proximidade dela diz "olha que coincidência". O verdadeiro homem seria aquele imbecil ali, e não o cidadão adulto e razoável que o mascara. O homem nunca é tão ele mesmo quanto atrás daquele poste.

Não atrás de um poste, mas atrás de uma caneta, esteve o Vinícius de Moraes, o idiota essencial mais elegante que conheço, um aficionado pelo apaixonar-se. O Toquinho, seu parceiro musical, já confirmou isso num podcast recente, falando que havia nele uma busca incessante pelo amor da vida. A sua amiga, Tônia Barreto, no documentário Vinícius (2005) o descreveu como uma espécie de Don Juan, que se autoinstigava à paixão só para ter sobre o que escrever. De fato, foi um grande apaixonado. E um apaixonado em série!

 O impasse do Vinícius é que logo após a conquista da paixão arrebatadora, ele se esgotava do fogo da poesia e logo ia arranjando desculpas para partir para outro "amor da vida". Entre elas, implicar com uma cirurgia do nariz que teria desfeito a bela e única face da musa. 

 Fico pensando... se ele escrevia tão bem quando apaixonado, o que não escreveria se tivesse amado de verdade alguma de suas musas? Imagine só as epopeias! Ou talvez, tivéssemos perdido um grande poeta brasileiro para o absoluto silêncio... Isso porque, mesmo tendo à disposição a sensibilidade, criatividade e a inteligência necessárias para se escrever poemas sobre o amor de verdade verdadeira, amar é uma dessas coisas que nos deixam realmente sem palavras. É parte tão fundamental do nosso íntimo, ainda mais que o poste, que sua expressão é manuseada com grande cuidado pelos maiores autores do mundo, como o Pablo Neruda nos Cem Sonetos de Amor.

 O Neruda foi o tipo de autor que, no auge do sentimento, conseguiu conectar as exuberâncias da rosa de sal, do topázio e cravos com a ardência da paixão e, sem soar brega, disse que nada dessa exuberância toda representava o amor que ele sentia pela Matilde Urratia. Infelizmente as palavras limitavam a correta descrição precisa daquele amor em palavras (e ele tentou pelo menos 100 vezes!). Apesar da limitação, a mensagem alcançou certamente a destinatária, isso porque os amantes são cidadãos de um mundo feito de entrelinhas. E entre as linhas do poema XVII... como deve ter sido para Matilde saber que ela era amada como se ama a certas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma? Talvez só sendo amada assim. 

Escrever sobre amar, como sentimento, não como ato, é como pisar numa corda bamba que, a qualquer deslize, é ridículo. E escrever enquanto se está embriagado de amor é ainda mais complicado. Bom, se me acusarem de passar todos os dias a falar sobre o amor, mea culpa!, confesso que falo, mas calo muito... muitíssimo mais o que sinto. E isso a contragosto. 

Sobre o amor, esse grande mistério à plena vista, não escrevo, presto reverência.

Omeprazol

 Para o estômago se usa muito o omeprazol - um alívio temporário que não cura. Para sabermos o motivo da azia e cessá-la em sua essência, consideramos a possibilidade de que aquela pizza talvez tenha sido a culpada. Contudo, é difícil apurar uma intolerância quando nosso cardápio é aleatório. 

Os nutricionistas nos impõem uma rotina para investigar se a culpa é do glúten ou da lactose. Retira-se o glúten, observa-se. Reintroduz-se na dieta e elimina-se a lactose. Está formada a equação. Note como é necessária a exclusão de certos grupos alimentares para perceber que o pão desceu bem, mas o queijo é que nos coalhou. As variáveis foram isoladas e o resultado é claro: evite a lactose.

 Na vida, cabe a metáfora: Exclua-se de certos ambientes, corte alguns contatos e teste! Se os gases pararam, meu bem, o certo é que não os retome.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Crise

 O que fazer numa daquelas crises de ansiedade? Lembrar de inspirar, logo em seguida, espirar, nessa ordem. Repetir o ato de respirar numa frequência mais lenta e autoconsciente. Tomar um chá de camomila. Lembrar de respirar enquanto toma o chá - não demais para evitar afogamentos. Banhar-se com água morna. No mundo ideal nos chuveiros existiria a opção de se banhar com chá.

Tenha alguém para conversar. Melhor se for alguém que se pode levar para baixo do chuveiro para conversar sobre como seria bom se de lá caísse chá de camomila. Senão, outro alguém. Um alguém legal, confiável, que julgue pouco e ouça bem - características similares as de quem se poderia levar para o banho. Ou se expresse de algum modo, num blog, por exemplo. 

Planeje o dia seguinte, anotando os afazeres numa folha de papel. Medite com aquele tal método dzogchen. Leia um livro sobre um assunto leve, como 'O pequeno livro do amor'... ou um assunto muito entediante, como um manual Direito Tributário.

Lembre-se, por fim, que não morrerá. Ao menos não imediatamente. Se imediatamente, aconselho que pule o banho, o chá de camomila etc. e vá direto para a UTI. Mas se o seu tempo restante for o de uma infusão de camomila, o tráfego estiver ruim, saca? Opte pela infusão e descanse em paz.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Quanta feiura!

Juro. 

Nós mulheres fomos criadas para sermos bonitas e o negócio é tão bem feito que não largamos essa ilusão durante toda a vida útil. 

Eu tinha bochechas rosadas, olhos grandes e castanhos e um cabelo loiro cortado em tigela. "Olha lá como é bonitinha! Que sorrisinho! O que essa belezinha não me pede sorrindo que não lhe entrego chorando?". E a gente sorri, de sorriso largo e ganha um chiclete, um bombom, uma boneca. A belezinha, no entanto, vai sumindo desengonçada e dá lugar às acnes, pelos em lugares estranhos, dentes encavalados, cabelos oleosos. Daí que a gente se vê no espelho e já constata que ninguém quer nos ver sorrindo até que os dentes se ajeitem. Santo deus! Os peitos são nossa chance, sabe? Mas nossos seios, ou crescem demais, ou crescem de menos. Se demais, ninguém nos olha nos olhos. E se de menos, ninguém nos olha! Nin.Guém.

A mulher entra numa busca obcecada por aquele carinho inicial que a beleza proporcionava. Umas escondem os seios com camisas largas, outras enchem o sutiã de algodão. A descoberta do bojo, para mim, foi mais revolucionário que o fogo ou a roda. Para acne: maquiagem; para os temíveis dentes: aparelhos ortodônticos. Hoje ainda os fazem invisíveis. A jovem sorri e ninguém poderá chamá-la de Bete a Feia. Cá pensando, mesmo com esse avanço tecnológico que poupa o sofrimento da adolescente, a beleza não sabe correr como a feiura sabe perseguir. Ser feia é inevitável. 

A gente quebra a cabeça, gasta as economias, financia o procedimento estético, mas não adianta de nada. É só dar uma olhadinha na rede social que o feitiço se desfaz. PLIM! Penso, ainda hoje, uma já trintona, cética, racional, formada, especialista, feminista, que se eu fosse bonita, absolutamente todos os meus problemas estariam resolvidos. O Imposto de Renda não existiria. O Estado não teria a coragem! Eu nunca pagaria do bolso um IPVA. O IPTU é que me mandaria tributos para eu continuar habitando no terreno urbano. Tenho certeza que a minha beleza valorizaria o imóvel e a comunidade. 

Ah, se eu fosse bonita... eu nunca teria meu coração partido. Eu não teria tristeza. Se eu fosse bonita, eu não precisaria ir ao ginecologista, tenho certeza disso. E só iria ao dentista para servir de exemplo por possuir uma bela arcada dentaria, sem tártaro algum. Nem bafo pela manhã.

Se eu fosse bonita, e disso tenho certeza, não ficaria doente, e se ficasse, seria aquela doente de novela sabe? Aquela protagonista que curte a vida e serve de exemplo quando, ocasionalmente, aparece com um tubo de oxigênio. Seria uma Branca de Neve repousando lindamente num caixão de vidro. 

Mas o mais importante, a economia seria mais humana se eu fosse bonita. Isso porque, se eu fosse bonita, eu teria então tempo suficiente para arrumar solução para a distribuição de renda. Justamente porque esse é o tempo que gasto ao olhar horrorizada meus duzentos autorretratos. 

Se eu fosse... eu não seria a imagem que vejo agora no reflexo do espelho. Se todas as mulheres fossem... o aborto estava legalizado.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Dezoito horas

Vermelho.

Veículos furiosos aceleram e desaceleram com seus motores quentes, buzinas estão a postos, o ódio nos semblantes; encaram fulminantes o semáforo para que se adiante. Eis a ansiedade dos segundos que separam o vermelho do amarelo. Duas cores os separam do descanso, do compromisso, da cerveja, do abraço, do riso, do choro, do mercado, do lanche, da comida. Amarelo! E todos sabem que o amarelo é quase verde. 

À direita, um velho ultrapassa os carros e passa o semáforo que os aprisiona. Nos faróis acesos constata-se um brilho de inveja.  Cigarros são jogados ainda acesos; motociclistas costuram o tráfego com seus barulhentos escapamentos. O som aumenta! É verde! Bam! As rodas queimam o asfalto. O carro da frente da fila é velho, demora dois segundo da partida. Xingamentos explodem por entre vidraças. As motos vencendo a corrida. Buzinas buzinam. O carro acelera e inaugura a partida.

Enquanto isso, o senhorzinho com longas orelhas, pedala vagaroso uma Monark. Ele, que nunca conseguiria queimar o asfalto com suas sandálias de borracha, inspira a borracha queimada que o persegue. A luz dos faróis ilumina seu caminho, o que o salva de uma garrafa quebrada que boia na água fétida do esgoto que fica no meio-fio. Paciente e cansado, espremido entre o asfalto dos carros e a calçada dos pedestres, é ultrapassado em menos de uma quadra. 

Os motoristas passam velozes e deixam para trás da avenida e da memória o senhorzinho orelhudo e aquela vaga inveja. Trocam de faixa, desviam, contornam, uns dão seta, mostram o braço, o dedo do meio, a língua, os punhos, mudam abruptamente de direção, param, são multados pelo pardal. Motos desviam do quebra-molas, condutores se chacoalham ao passarem direto pelo obstáculo. Uns correm prum botequim, outros aceleram prum funeral. Ultrapassam pela esquerda, reciprocamente. A ambulância impedida de resgatar um condutor; a polícia acelera para pegar o ladrão. O ladrão refugia-se na calçada. 

O senhorzinho pedala numa subida difícil, quase é atingido por um ladrão. Ele vira primeiro à direita, depois esquerda, até que descansa os pés numa íngreme descida que o transporta. Na descida, passa em frente a um funeral. Com seus ouvidos cansados, ouve risadas de uma família que há muito não se reunia. Mas não registra o pensamento. Depois vira à direita, retoma o pedal, desacelera, desce cuidadoso, amarra o pneu no poste batido e desce no botequim. Cumprimenta o dono, pede "a de sempre".

Sua cachaça é servida num copo meio-lavado, senta-se numa meia-cadeira, encosta-se num improviso de mesa. Ouve lágrimas de solidão, corações partidos, Amado Batista e bolas de bilhar, enquanto descansa os olhos, e o descansa o coração. Deu o último gole de sua cachaça fatal.