segunda-feira, 15 de abril de 2024

Poetria XXX

Olho por entre as fendas das paredes

De angústia, rangem meus dentes

Cubro com força meus ouvidos...

mas nenhum ruído vem incomodar.


O silêncio e seu prenúncio:

Este mundo não vai desabar!

"Mas iria!" - e depois assumo:

 Não é por mim que irá se acabar


Desde que o mundo é mundo

um acaso inoportuno não o tira do lugar

Muito menos estes infortúnios da vida


Nada fugaz lhe agita, estou aqui só de ida

Mesmo assim, a toda tragédia ocorrida

Fico tola, a assombrar: o mundo irá se acabar!

terça-feira, 9 de abril de 2024

Efemeridades

  Nem tudo me é possível, mas expando o que me é provável. Assim venho me conhecendo: ao testar-me os gostos e desgostos. 

 Usei várias máscaras durante meu crescimento, queria me encaixar nos lugares que não me cabiam. E só soube que não me cabiam, através do rigor científico da experiência empírica.

  Descobri que não sou fria, muito menos misteriosa (como gostaria). Pelo contrário, gosto muito de conversar: não sobre o dia, mas sobre os dias. Também sou hipócrita, porque escrevendo percebo que gosto do que é fútil, pouco menos do que é filosófico. Danço sozinha no meu quarto e prefiro amar sem dizer que amo.

  Também notei que amo todas as pessoas, mesmo as cruéis, contanto que não sejam entediantes. Mas se me entediam, busco tirar delas algum proveito, e elas acabam por estimular meu ócio criativo. Gosto de despertar nos outros uma interrogação, sobre qualquer coisa, mesmo sobre o dia (que disse a pouco que desgosto, mas que gosto).

 Analiso os personagens da minha vida, os acontecimentos, tudo, como se sequer existissem fora da minha mente. Sempre estou mergulhada numa realidade fictícia, meio cá, meio lá, meio em nenhum lugar. Antes não pensava assim, mas hoje me acostumei com meus paradoxos.

 Gosto de bagunças interiores e espasmos de rebeldia. Gosto dos meus desenhos, principalmente aqueles feitos no ócio, com caneta BIC, nos cantos das folhas do caderno. Prefiro dormir tarde, o silêncio das madrugas é reconfortante, como nenhuma outra hora consegue ser.

 É de madrugada que passo batom por motivo nenhum e que escrevo poesia, em que as músicas fazem mais sentidos e em que as cores da aquarela estão mais vivas. É quando sinto a melhor companhia de todas "mins" que aqui habitam, e que se espalham nos meus multiversos metafísicos. E apesar de falar muito, disso não falo com ninguém. Só escrevo.

A vida adulta me furtou as madrugadas de solitude. Até agora, não sou tão avessa a esta fase, até porque flerto com o poder de escolher as ordens que seguirei, coisas que a adolescência nem a infância possuem. Mas sem as madrugadas livres, sem o ócio, fica difícil escrever tanto quanto preciso, então a minha escrita anda enferrujada. Para que não se enferruje de vez, precisava escrever algumas efemeridades, mesmo nesta madrugada. Estou descumprindo muitas regras e violando vários princípios enquanto estou aqui, digitando.

Boa noite.

terça-feira, 12 de março de 2024

O amor do místico na alma do cético

O amor exige do cético

o misticismo dos signos, 

a zetética da Ética

sem a qual é indigno


Exige da fé, da astrologia

o infinito da numerologia

do mito, da crença, da fantasia

da cegueira voluntária da ideologia


Exige sem aspiração imortal, só de ida

Amando, como tal, na própria vida

Esgotando amar no campo do possível


Com olhar clínico da expertise sensível

Aventura teórica que se inicia e finda

O amor é espírito que entre os átomos brinca.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Carnavalesco

Dança a baiana, o preto, o branquelo, a moderninha, o jacu e o pardo

Arrasta a sandália raspada, o tênis de marca, o pé pelado, o salto quebrado

Inspira o perfume lançado, a marola... Ih! grudou cerveja no solado!

Balança o cabelo vermelho, o grisalho, a careca branca, o encaracolado

Beija a boca bonita, a boca que era esquecida e o beiço do desdentado

Da Mônica, do Cebolinha, da Afrodite e do político cassado

Se enrosca nos abraços e afagos dos enamorados

Ah, espera o sol baixar, espera a lua, espera mais um bocado!

Encharca a boca d'água, volta melhor que ela seca no abadá rasgado.

E dança mais o gaúcho, o paulista e aquele Walter Mercado!

Dança você, feliz, do meu lado

Porque a festa nunca se acaba!... até o fim do feriado.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Prosaicologia I

Todo mundo ama igual, todo mundo sente o mesmo. É a mesma confusão em todo parte e em todo corpo. É a mesma ebulição em todos os nervos. 

Dura, cá ou lá, o mesmo tanto de tempo para que o peito entenda que aquela colisão de átomos não foi um mero curto-circuito. 

Quando se dá conta da explosão, já se houve explosão.

E há quem pense que foge, quando é um fugir sempre acorrentado.

E o coração de todo mundo bate na mesma arritmia. O sangue, do A+ ao O+ sobe e desce rápido em todas as veias. 

Todos os olhos apaixonados de todas as cabeças apaixonadas afiam a visão, e toda visão é de amor. 

Os sentidos troçam a intuição.

"É ele ali, cruzando a rua?"

Se já o vi há pouco em dez canais da televisão, se já o vi no alto da montanha, passeando com o cachorro, cuidando do jardim, se estava ao meu lado há um segundo atrás? Se já o vi em todo trajeto até aqui?

Mas é ele ali? É ele ali cruzando a rua?"

E os narizes se especializam na arte da osmologia. A nota do amor reside em cada perfume exposto da perfumaria, em cada flor do campo, flutua no éter, busca-o como a um fugitivo, quando ele nunca realmente descola das narinas.

Os ouvidos, deliriosos narcisistas ouvem em toda música o canto do amor, como se feita para si. 

Cada um de todos sente pelos poros que ali em seu coração bate um amor jamais visto, jamais sentido, jamais escrito. 

Mas o amor é um clichê sem contorno, esconde-se num enredo, parece ter bifurcações, mas é linha reta. 

Pode-se contá-lo dentro de um monastério, dentro de uma estação de trem, embaixo da ponte, em cima do castelo. 

Seja comedido, seja retribuído, proibido ou embriagado. 

Esteja a princesa no alto da torre ou a prostituta na zona boêmia. 

Dure ele o que durar. Dura-se um dia ou mesmo uma vida! Mesmo que essa vida dure um dia só. Ou que o amor se acabe ao raiar do sol.

Vira-se, revira-se, é ele, o mesmo autor de todas as histórias, das fábulas, das canções, das poesias, o maestro de todos os mesmos desfechos. 

Tamborila os pequenos dedos em suas flechas. Travesso, o amor é como criança inocente correndo feliz com uma tesoura. Sabe-se lá se vai doer! Sabe-se lá se cairá.