terça-feira, 9 de abril de 2024

Efemeridades

  Nem tudo me é possível, mas expando o que me é provável. Assim venho me conhecendo: ao testar-me os gostos e desgostos. 

 Usei várias máscaras durante meu crescimento, queria me encaixar nos lugares que não me cabiam. E só soube que não me cabiam, através do rigor científico da experiência empírica.

  Descobri que não sou fria, muito menos misteriosa (como gostaria). Pelo contrário, gosto muito de conversar: não sobre o dia, mas sobre os dias. Também sou hipócrita, porque escrevendo percebo que gosto do que é fútil, pouco menos do que é filosófico. Danço sozinha no meu quarto e prefiro amar sem dizer que amo.

  Também notei que amo todas as pessoas, mesmo as cruéis, contanto que não sejam entediantes. Mas se me entediam, busco tirar delas algum proveito, e elas acabam por estimular meu ócio criativo. Gosto de despertar nos outros uma interrogação, sobre qualquer coisa, mesmo sobre o dia (que disse a pouco que desgosto, mas que gosto).

 Analiso os personagens da minha vida, os acontecimentos, tudo, como se sequer existissem fora da minha mente. Sempre estou mergulhada numa realidade fictícia, meio cá, meio lá, meio em nenhum lugar. Antes não pensava assim, mas hoje me acostumei com meus paradoxos.

 Gosto de bagunças interiores e espasmos de rebeldia. Gosto dos meus desenhos, principalmente aqueles feitos no ócio, com caneta BIC, nos cantos das folhas do caderno. Prefiro dormir tarde, o silêncio das madrugas é reconfortante, como nenhuma outra hora consegue ser.

 É de madrugada que passo batom por motivo nenhum e que escrevo poesia, em que as músicas fazem mais sentidos e em que as cores da aquarela estão mais vivas. É quando sinto a melhor companhia de todas "mins" que aqui habitam, e que se espalham nos meus multiversos metafísicos. E apesar de falar muito, disso não falo com ninguém. Só escrevo.

A vida adulta me furtou as madrugadas de solitude. Até agora, não sou tão avessa a esta fase, até porque flerto com o poder de escolher as ordens que seguirei, coisas que a adolescência nem a infância possuem. Mas sem as madrugadas livres, sem o ócio, fica difícil escrever tanto quanto preciso, então a minha escrita anda enferrujada. Para que não se enferruje de vez, precisava escrever algumas efemeridades, mesmo nesta madrugada. Estou descumprindo muitas regras e violando vários princípios enquanto estou aqui, digitando.

Boa noite.

terça-feira, 12 de março de 2024

O amor do místico na alma do cético

O amor exige do cético

o misticismo dos signos, 

a zetética da Ética

sem a qual é indigno


Exige da fé, da astrologia

o infinito da numerologia

do mito, da crença, da fantasia

da cegueira voluntária da ideologia


Exige sem aspiração imortal, só de ida

Amando, como tal, na própria vida

Esgotando amar no campo do possível


Com olhar clínico da expertise sensível

Aventura teórica que se inicia e finda

O amor é espírito que entre os átomos brinca.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Carnavalesco

Dança a baiana, o preto, o branquelo, a moderninha, o jacu e o pardo

Arrasta a sandália raspada, o tênis de marca, o pé pelado, o salto quebrado

Inspira o perfume lançado, a marola... Ih! grudou cerveja no solado!

Balança o cabelo vermelho, o grisalho, a careca branca, o encaracolado

Beija a boca bonita, a boca que era esquecida e o beiço do desdentado

Da Mônica, do Cebolinha, da Afrodite e do político cassado

Se enrosca nos abraços e afagos dos enamorados

Ah, espera o sol baixar, espera a lua, espera mais um bocado!

Encharca a boca d'água, volta melhor que ela seca no abadá rasgado.

E dança mais o gaúcho, o paulista e aquele Walter Mercado!

Dança você, feliz, do meu lado

Porque a festa nunca se acaba!... até o fim do feriado.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Prosaicologia I

Todo mundo ama igual, todo mundo sente o mesmo. É a mesma confusão em todo parte e em todo corpo. É a mesma ebulição em todos os nervos. 

Dura, cá ou lá, o mesmo tanto de tempo para que o peito entenda que aquela colisão de átomos não foi um mero curto-circuito. 

Quando se dá conta da explosão, já se houve explosão.

E há quem pense que foge, quando é um fugir sempre acorrentado.

E o coração de todo mundo bate na mesma arritmia. O sangue, do A+ ao O+ sobe e desce rápido em todas as veias. 

Todos os olhos apaixonados de todas as cabeças apaixonadas afiam a visão, e toda visão é de amor. 

Os sentidos troçam a intuição.

"É ele ali, cruzando a rua?"

Se já o vi há pouco em dez canais da televisão, se já o vi no alto da montanha, passeando com o cachorro, cuidando do jardim, se estava ao meu lado há um segundo atrás? Se já o vi em todo trajeto até aqui?

Mas é ele ali? É ele ali cruzando a rua?"

E os narizes se especializam na arte da osmologia. A nota do amor reside em cada perfume exposto da perfumaria, em cada flor do campo, flutua no éter, busca-o como a um fugitivo, quando ele nunca realmente descola das narinas.

Os ouvidos, deliriosos narcisistas ouvem em toda música o canto do amor, como se feita para si. 

Cada um de todos sente pelos poros que ali em seu coração bate um amor jamais visto, jamais sentido, jamais escrito. 

Mas o amor é um clichê sem contorno, esconde-se num enredo, parece ter bifurcações, mas é linha reta. 

Pode-se contá-lo dentro de um monastério, dentro de uma estação de trem, embaixo da ponte, em cima do castelo. 

Seja comedido, seja retribuído, proibido ou embriagado. 

Esteja a princesa no alto da torre ou a prostituta na zona boêmia. 

Dure ele o que durar. Dura-se um dia ou mesmo uma vida! Mesmo que essa vida dure um dia só. Ou que o amor se acabe ao raiar do sol.

Vira-se, revira-se, é ele, o mesmo autor de todas as histórias, das fábulas, das canções, das poesias, o maestro de todos os mesmos desfechos. 

Tamborila os pequenos dedos em suas flechas. Travesso, o amor é como criança inocente correndo feliz com uma tesoura. Sabe-se lá se vai doer! Sabe-se lá se cairá. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Serotonina, Destino e contradição

  Todos nascemos com a capacidade de amarmos mutualmente e o nosso berço regula esse amor. Sinto amor pela minha família, ela foi a primeira a me ensinar nesta terra o que eu deveria aceitar e negar, o que me fazia sentir cuidado e o que eu deveria fazer para cuidar de quem amo.

  Aprendi que no amor a gente também se estressa, que tem quem te tenha amor, mas que seja mais egoísta, que tem quem não te ame apesar de aparentar te amar, que vai te dizer palavras bonitas depois de um ato cruel, mas que essas palavras não são de amor, só de culpa. 

 O amor da família é tão confuso! O amor da família é inescapável! O amor da família é... condicionado! Tal qual cachorros, fomos treinados para amar sangue do nosso sangue. Perguntei-me numa época: existe saída? Há algo maior e genuíno?

 Os filmes me ensinaram, os livros, as revistas, os sites, os blogs, e EUREKA!: o amor da família era sempre mais turbulento do que o se encontra nas almas gêmeas. O amor existe e ele é romântico! Minha alma caminhava por aí a me esperar! 

  Tal qual os românticos, desenvolvi essa expectativa que no primeiro suspiro, no primeiro arrepio, o amor da paixão me livraria das intempéries do condicionado amor familiar e eu conheceria o verdadeiro. Apaixonei-me pelos poemas, o lia nas prosas, sentia-o no vento, sentia o amor fibrilar no éter!

  Até então, eu cria em muitas coisas, dentre elas, o poder do Destino ou que o destino de tudo era o amor. E esperei... esperei. Esperei. Esperei. Cansei-me de esperar. E procurei, então, o caminho sem ajuda nenhuma do Destino. Ou o Destino queria me fazer procurar? Procurei. E confundi-me em seus labirintos: a admiração é o amor que chegou? A beleza é o amor? O coração batendo errante é o amor? O amor se foi, que horas ele volta? Quais suas regras? Há manual de instrução? Há de ser corajoso para perseguir o amor ou se ele fugiu não era para ser? 

 A beleza não é o amor, ela acaba, a admiração é só admiração, o coração batendo errante? Timidez ou arritmia, ou desejo. Conclui: é tudo tão mais simples e carnal. O amor é esse pseudo-mistério que preenchemos com nossas crenças. Tudo que envolve amor, envolve serotonina, dopamina, sinapse cerebral, envolve, como finalidade, a sobrevivência da espécie pela reprodução humana. Esse conjunto de sentimentos, de condições genéticas, marcas do espaço-tempo, unidos, que são tão recorrentes entre nós humanos, é o que chamamos de amor. Ele é bom quando dura, quando recíproco, quando socialmente aceito, é ruim quando é contra-cultura, ou solitário, ou quando se finda, seja pela reduzida produção dos hormônios, seja pela própria morte que a tudo separa.

 Há quem possa perseguir o amor para o alcançar, há quem receba o amor no colo, levinho, sem esforço. Há quem passe por intempéries e consiga consumar o amor, há quem passe por intempéries para fracassar. E quem fracassa, diz para si "não era o amor a visitar, era a carência a confundir". O amor, como os deuses, não erra. Em todo erro o amor não está, em todo acerto é ele por certeza. Toda moléstia é o preparo para a sua eufórica chegada! Que cansativo é o amor. Que indiferente é o amor.

 A descrença em muito me foi confortável, menos quanto ao amor. Tal qual todas as coisas, é uma ficção, um delírio coletivo, uma mentira feita por esses nossos cérebros criativos, repassada de geração em geração. Uma mentira contada muitas vezes se torna uma "verdade", e essa é a mentira: é o amor. E poemas se tornaram essas piadas de mau gosto, os filmes só querem a bilheteria, os livros, o best seller. Esta é a realidade: os poetas apertam os botões certos e reagimos com o maquinário, apaixonados. Manipuladores! Mentirosos! A vida é uma tragicomédia mal dirigida!

 Cessei minha busca. Não o espero, não o procuro, não penso nele, ele não pensa em mim, o destino inexiste, todos os caminhos são pontes a serem construídas, não meros passeios definidos por nossas sinapses cerebrais, nossas expectativas, nossos sonhos. O saudável é manter as sinapses cerebrais direcionadas para determinadas reações químicas. Somos máquinas orgânicas, pré-programadas, racionais por acidente, não há nada além. No lugar de fios, temos veias, carne e ossos no lugar de metais e plásticos.

Até que o amor chegou.