terça-feira, 24 de outubro de 2023

Poetria XXIII

Depois de tanto adiar

e protelar o meu agir

Dei-me a chance do tentar

esforcei-me em tudo, tudo! E fugi

do meu instinto impaciente

E assim descobri: 

o meu melhor

não é bom o suficiente.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

O ser de maior

 Para uma sociedade capitalista, amadurecer significa ganhar dinheiro o suficiente para sair da casa dos pais e gastar o salário num segundo núcleo econômico-familiar. Para essa sociedade que vivo, amadurecer e ser adulto são sinônimos. Quanto mais cifrões, mais adulto. Mais posses, mais responsabilidades, mais maduro! Mais filhos, mais humano! Mais sucesso, e o sucesso é sempre financeiro, mais feliz!

 O adulto é alguém que tem muitas responsabilidades. Nossa sociedade cobra muitas responsabilidades desde a infância, tanto sociais quanto financeiras, mas o adulto as têm mais e por mais tempo. Ele é uma consequência disso. Eles têm um acúmulo de muitos anos de muitas responsabilidades sociais e financeiras. É isso que faz com que os adultos sejam identificados como tal e também a razão pela qual sorriam pouco. Quando sorriem é com sarcasmo, note bem. 

  O adulto não tem mais alguns privilégios como a juventude, então possuem mais dores e também não sabem cuidar direito delas - até porque nunca foram ensinados a se cuidarem para além daquilo que traz ganho financeiro e, se não ganho, o status do ganho. E isso até nos meios mais cults. Percebe que a educação é tratada como uma ferramenta para o ganho financeiro? Um status? A educação não é tão mais interessante que os assuntos cotidianos entediantes que os adultos escolhem falar. Não possuem um só assunto que seja curioso ou divertido. Falam uns dos outros nessa arte nem tão sútil de controle moral e de comportamento alheio. "Olha como ela se veste". "E como ele se porta?". Se esboçam emoções sinceras, garanto, é porque o cortex pré-frontal foi desligado pelo álcool. 

  O adulto só ri de coisa de adulto, quando está sóbrio, não de bobeira. Ri aquela risada amargurada sobre aqueles assuntos entediantes da vida humana: louça acumulada, problemas no casamento, filhos e sobre como a cerveja gelada é boa. Tem a lista completa do que gosta e desgosta. E tudo que gosta deve ser liberado e tudo que desgosta, proibido. Sem meios-termos.

  O adulto só entende o que está acostumado a entender, nada de novo, porque aprender o que não se precisa dá fadiga. E eles estão sempre tão... tão fadigados! E isso tem suas implicações. Ele confunde - como só um adulto pode confundir - a felicidade com o alívio. O alívio da conta que foi paga, do filho que dormiu, da companheira que está de bom humor (ou pelo menos calada, sem encher sua paciência). Sente o alívio do dia acabado, da semana que passou, da aposentadoria que se aproxima. Só pensa na morte quando está suicida, nada além.

 O adulto é mais invejoso, mais triste, mais estressado. Não se impressiona com nada que não lhe forneça uma ostentação financeira. Porque é o financeiro o status, o símbolo, o marco da maturidade moderna. As chamas do iluminismo educacional apagadas dentro de sua alma, o que resta é uma luz led numa vida maquinal. São tudo o que foram treinados para serem desde a infância, com o acréscimo daquelas rugas ali, cabelos brancos acolá. 

  Ser adulto é ser humano infeliz completo, até que a morte o separe. Cruzes!

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Poetria XXII

O meu amor é deitar ao teu lado, 

numa noite escura, 

e contemplar estrelas...

na retina tua.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Eu ia dizendo

Esse gosto de sal...

Engulo a saliva grossa

o ar de tocar as cordas vocais não toca

Não sai palavra, o ar dá volta, 

retorna, a expiração se agiganta

O silêncio esbarra no dente, tranco o lábio

Só ouço o nó na garganta.



segunda-feira, 18 de setembro de 2023

NADA ACOTECE FEIJOADA

 


Enquanto o ar condicionado faz efeito, enquanto o sono não vem, nessa noite quente de inverno, deito os dedos nas teclas, apago, reescrevo e eis o motivo: não tenho qualquer coisa a dizer. Coisa nenhuma. Só uns pensamentos cansados.

 A vida dos poetas é animada? A vida dos escritores, dos artistas, dos pintores? Sim. Creio que sim. Eles vivem! E é a vida acontecendo com eles, essa que perpassa seus crânios, tira deles toda boa arte e poesia. A arte é a vida expressada. Mesmo a arte ruim e a má poesia são a vida... Acho que a vida perpassa até mesmo os artistas ruins, buscando uma forma de se expressar. A culpa não é da vida, mas do crânio do artista que não funciona direito e passa uma vida que se expressa desajeitada, cheia de plágios, erros gramaticais, imitações, remixes. Às vezes a vida quer se expressar num artista que está com as mãos muito ocupadas e o labor tira o lápis das mãos. Mas o pulso da arte pulsa, pulsa, pulsa no pulso, nas mãos, nos dedos, na vida do artista.


 Essa vida não anda acontecendo direito comigo e a culpa é minha, que estou enclausurada. Meu crânio anda sobrecarregado, não tem espaço para a arte, só para o cansaço. O pensamento está cronometrado e minhas mãos sempre, sempre, sempre ocupadas. Daí não sai nada de arte. Nem boa, nem ruim. Nada. Não deixo a vida acontecer comigo e não aconteço com ela. Por isso não entendo qual o meu impulso de escrever. Também não entendo meu pulso de viver, de pensar ou de ocupar minhas mãos. Mesmo assim eu vivo do jeito que dá, penso no que posso, quando consigo e deixo as mãos calejadas. Ocasionalmente, sai alguma arte - arte cronicamente má. Mas arte.


 A parte boa da arte má é que ninguém se importa, ninguém entende. Ela sai porque deve sair e sai com as palavras que o artista conhece, com seus vícios de linguagem, com a estrutura que intuitivamente entranharam na escola primária. Com quantas artes se faz um artista? Uma só? Só se for boa?

 E cá estou. Sem ter o que dizer, dizendo nada, fazendo arte.