quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Lápis-lazúli

Aos gregos brilhava o céu num rosado
Homero, ao pé d'água encostado:
É cor de vinho este mar!

Até então, olhos viam sem notar
Escondida à plena vista
Tão bela cor desabrochar

Mira! Atrás das nuvens!
Em diversos tons pra maravilhar
Atente teu enxergar:

Azul é o céu!
Azul é o mar!
Azul do menino da barriga a brotar

Azul da cor da Barba de um nobre violento
Da veste dos ricos nos reinos
Das divindades nos templos

Azul do ponto pálido no Universo a flutuar
Azul da calmaria: hipnotiza o descansar
Azul do amor, que veio visitar

Azul dos teus olhos a me olhar
Do cano alto do teu all star
Azul, o que senti ao me deixar.




 

domingo, 6 de novembro de 2022

No berço do abismo

 Certo dia despertei

despertei com outros olhos

o real é ilusório

agora, nada sei


Tudo é transitório

os instintos se revoltam


Da vida tive ódio

só a morte é real

Espetáculo fantasmagórico 

Sem aplausos ao final


Inicia com a sina

ao nascer já se termina

um suspiro fatal


Aqui jaz o material

da qual se fez meus olhos

Jaz meu peito de animal

a vida é sonho irreal


Imergi em loucura

as coisas finitas - a fissura

Mortas enquanto paridas

no grande esquema frugal


Circulei espectro entre os espectros, em carne

nada realmente dói, nada realmente arde

Eis que o medo me invade!


No pânico o pensar imerso

na mera poeira do Universo

O céu me assusta - não o impeço


As estrelas me ofendem em seu infinito

Me doem na pele, resta o grito

Encarando a morte

quase não a sobrevivo!


Cansei-me... cansei do perigo

Troquei minhas lentes e achei abrigo

O que sinto é real, apesar de finito


A carne que arde é onde me exprimo

Eu sou! Eu vivo! Ao choro e riso!

Há amor, há pranto e sigo

Embalando no berço do abismo.



quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Etimologia


Ninguém sabe bem 

de onde a saudade vem


Há quem diga que vem da solidão

Da negra bílis, uma melancolia

do sangue pisado de um coração


Que do latim vem a escrita

como a bíblia do cristão

Ou dos belos traços de estilo

de letras de alcorão


De soidade vem saudade

ou da saudade vem solidão?


Não se encontra na fonética

a fonte e explicação

da moléstia que se cura

com uma só conjectura:

A moléstia, em questão.


Pensa

Não pensa em mim...

Não pensa em mim?

Não pensa em mim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Poetria X

Te quero? 
Te quero.

De corpo nu
e alma despida

De olhos abertos
e mente destrancada

Ouvir tua voz
não de fantasmas

De pés prontos
a mil lances de escada

Da tua própria versão
- detrás da fachada

Se não isto
Então, nada.