sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Inundação

 Não consigo espremer uma só lágrima deste par de olhos. O sofrimento flui todo em mim, inundando as memórias com seu líquido agridoce. São águas tormentas nascidas na calma alegria. Não haveria aqui tamanho sofrimento sem antes uma grandiosa felicidade. Eis que a tristeza passou a gotejar e esta é a medida: uma chuva de felicidade para uma só gota de infelicidade. E talvez, só talvez, seja essa tempestade o que chamam de saudade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

ÍTACA de Constantino Kavafis (1863-1933)

Quando partires em viagem para Ítaca

faz votos para que seja longo o caminho,

pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

o feroz Poseidon, não os temas,

tais seres em teu caminho jamais encontrarás,

se teu pensamento é elevado, se rara

emoção aflora teu espírito e teu corpo.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

o irascível Poseidon, não os encontrarás,

se não os levas em tua alma,

se tua alma não os ergue diante de ti.

Faz votos de que seja longo o caminho.

Que numerosas sejam as manhãs estivais,

nas quais, com que prazer, com que alegria,

entrarás em portos vistos pela primeira vez;

para em mercados fenícios

e adquire as belas mercadorias,

nácares e corais, âmbares e ébanos

e perfumes voluptuosos de toda espécie,

e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;

vai a numerosas cidades egípcias,

aprende, aprende sem cessar dos instruídos.

Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.

É teu destino aí chegar.

Mas não apresses absolutamente tua viagem.

É melhor que dure muitos anos

e que, já velho, ancores na ilha,

rico com tudo que ganhaste no caminho,

sem esperar que Ítaca te dê riqueza.

Ítaca deu-te a bela viagem.

Sem ela não te porias a caminho.

Nada mais tem a dar-te.

Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.

 Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,

 já deves ter compreendido o que significam as Ítacas



domingo, 25 de setembro de 2022

Sonho lúcido

Tão quieta 

e no silêncio

ouço, só, meu respirar lento


Luto contra o sono

sinto o corpo zonzo 


O devaneio solto

quando penso no teu rosto


Emulo tua voz

Te enquadro em minha visão


Na contramão do mundo

Quebro a hegemonia

Ponho-te ao meu lado

Num excesso de poesia


sábado, 24 de setembro de 2022

Errata

 Foi um erro com acerto

Sinto muito. Prometo!

Um erro que foi


De novo, cometo

"O mesmo erro?"

O que foi?


Tem conserto o terceto

Agora, prometo

O erro se foi!


Repito em terceto

"Neste quarteto?"

Mas o que cometo

É sempre à dois.





domingo, 4 de setembro de 2022

Bem te vi

Luzes piscavam

Sons tocavam

E tanta cantoria!


Contigo havia sonhado

Sim - naquele dia!

Mas agora era outra a hora:

Era hora de folia


Muitos corpos enroscavam

E o chão desarrumado

de muitos pés que dançavam

E a tudo embaralhavam


Enquanto sapatos sapateavam

fora da pista que só acolhia

seus calcanhares sem companhia


Como no sonho: De coincidência a realidade preenchia

Uma novíssima Euforia!

Um primata que assiste pirofagia


Foi tua a presença que calou a gritaria

Trocou-se música por arritmia

A cantoria, agora, era cardíaca


Assim que te vi

Aproveitei e revi

Teus pés! Teus que estavam ali!


E eram os únicos que importavam -

Os demais importunavam

minha viva fantasia


Tão logo ei-la vivido, 

bem te vi e a extasia!

O sonho é revolvido.


A Realidade subordina

E ela toda prevenida

evaporou-te na surdina.