terça-feira, 21 de dezembro de 2021

O Sonho

Engoliu-me O Sonho
Ah, foste tão aguardado! 
Focam estas vistas em tons esverdeados

Na relva, devaneios demorados
Sussurros e gracejos desgraçados
Entre bafejos, infantil descuidado...

Não acordo. Há perigo ao encalço!
Foges, tu, aterrorizado
Esqueceste tua ausência
No solo, ei-la forjado

Aguardo só, ao terror irado
Contento-me com as pistas do teu legado
Rastro para sempre marcado

Evaporou-se teu corpo alado
Consumido, deixou-me ilhado
Foi-se o presente, esqueceu-se o passado
E tamanha ausência me fez prostrado

Há um tanto de saudade...
Encheria um lago!
Daquela vida em terra firme
tão longe do imaginário.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Tempestades silenciosas

  Não costumava sentir lá muita coisa. Olhando aqui à distância, não... não percebia nada. Não percebo o que sinto até que algo grandioso me sacuda e me faça compreender, num salto, o quanto algo importa. É como se meus sentimentos fossem a caixa preta de uma avião e quando os reconheço, já é tarde demais. Ao invés de aterrissar, caí de amores. Uma queda livre, assustadora e embriagante. Sem paraquedas ou pensamentos de segurança. Estatelada no chão, ainda me sentia acomodada nas macias nuvens. Tão bom é amor! Agora, repetindo-se a história, sofrerei um novo impacto. Sei disso. E dos grandes! Como um raio solitário, que é acompanhado pelo estrondo, na distância de sua magnitude! Explico: Veio essa grande tempestade. Com ela, um show de raios iluminou o céu. Azul! Rosa! Branco! E então tanto vento! Foram todas as estruturas carregadas pelos ares, num turbilhão de mesas, cadeiras, janelas, metáforas e portas. No entanto, prossigo aqui, entrando na sala inexistente, apoiando os pés na acomodação inexistente, como se tudo prosseguisse no lugar. Quando o estrondo finalmente me acordar do devaneio apático, o que restará de mim? Tento muitas vezes adiantar o processo. Não adianta. Espremo os olhos com o fim de deles saírem água. Não saem. Então penso longamente sobre tudo. Os pensamentos são incessantes, porém desacompanhados do sentir. Os pensamentos são os raios? Os fatos são os raios? O sentir é o estrondo. Me é a única certeza de ser ele o estrondo. E por isso, tempestades silenciosas me assustam.



quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Poetria IV

Gota à gota
Desnuda-se o céu das nuvens
Finas facas, incontáveis

Delicadamente 
o grosseiro vento
se dissipa

Calmo silêncio

Aí resfria

Na pele,
o pelo arrepia

O grande estrondo:
- É tempestade!

Brilha a noite
E se pinta:
Azul, branco 
Lilás
e rosa

O revolto revolta
E molha

Se desfaz, 
refaz
E nunca cessa

Mas cessa.

O sol cresce e se espicha 
Perpassa as frestas 
Que alegria!

terça-feira, 9 de novembro de 2021

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Sinais

 Seus olhos são tão belos! Mas estão cegos. Quando olham em minha direção, me reparam com uma contida raiva. É contida, mas percebo pelas sobrancelhas, pela sua visão nebulosa, inanimada, que não olham para fora, mas para dentro, onde habita uma eu, talvez criada à sua imagem e semelhança. 

 E quando sua boca se abre para me responder, com relutância, os sons saem reprimidos. Os dentes cerrados importam numa acústica abafada. A escolha das palavras tendem às mais ríspidas. Há, entre seus lábios, um hálito particular, que cheira à ódio. 

 O silêncio não é menos pior. O silêncio é gélido, incômodo, como uma placa de alerta para que me afaste.

 Há em seu corpo, muitos sinais de perigo. Há em mim, o impulso de arriscar. 

 E me arrisco. 

 Sempre me arrisco.