quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Outro poema

Te amo: quando seu Eu aparece

Quando se esconde em si

o ardor desaquece


Isso! Alivie minha prece...

tire de mim a trama

do solitário apagar das chamas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Pulso

O céu na minha mente

Abro as pálpebras e com uma só visão

o universo todo se acende


Esse incandescer... como explicá-lo à razão

cuja expressão é algo que não se compreende

sem que antes tenha se sentindo o pulsar do coração

assim, tão de repente?



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Infinitude

Em meio ao vazio, flutuava solitária

Seguindo os rastros do nada

Inconsciente e involuntária

Quando dentre as trevas, uma surpresa iluminada: foi acompanhada!


Como mágica, se riu em alegria,

e esqueceu-se de como o silêncio funcionava

O seu vagar foi cercado de cantoria

uma festa completa, onde a monotonia hibernava


Mas, incontrolável, o tempo não pôde se segurar

e assim findou-se a folia

Novamente solitária, às lamúrias voltou a vagar

E a ninguém poderia culpar, por ter lhe apresentado o pranto e a melancolia


Agora, aprisionada em seu não findar

Se ia... se ia.





terça-feira, 4 de agosto de 2020

Deixa

 Repentinamente, sem aviso, surge esse sentimento estranho, e então eu imagino toda parte do seu corpo e lembro de tudo que tem seu cheiro. E daí  me vem as letras do seu nome, todas elas, repetidamente, num ciclo.
  
  Saber a intensidade dos seus batimentos cardíacos e a medida de sua íris quando me vê, de nada adiantaria. Saber se seus joelhos estão virados na minha direção, se seu corpo se inclina ao conversarmos, se sua voz se amansa e se o foco de sua visão são meus lábios, de nada adiantaria. Não adiantaria me tornar fluente na sua linguagem corporal, se nunca poderei aproximá-la a mim menos que a distância dos olhos.

  Apesar de tudo, não há dor que seja melhor que a do amor. Pelo amor vale sofrer, porque é justamente ele que faz a vida ser tolerável. Recíproco, unilateral, não importa! O amor inspira a arte, o amor inspira as músicas e as grandes festas das nossas vidas, além disso, é no amor que muitos de nós nascemos. 

  Não deveríamos nos arrepender de senti-lo, mesmo quando breve, nem de nos culparmos, quando ele é tão natural e incontrolável. O amor envolve as partes preciosas da existência, e ainda nos agracia em diversas formas diferentes, em tempos diferentes, em pessoas diferentes. 

  Não há porque morrer por amor, muito pelo contrário: há de se viver por ele!

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Florbela Espanca


  Florbela Espanca, batizada como Flor Bela Lobo, e que optou por se autonomear Florbela d'Alma da Conceição Espanca, foi uma poetisa portuguesa, que se suicidou em 1930. 

  Seus poemas são maravilhosos, e se percebe que seu peito era cheio de amor! Encontrei a poetisa em um grupo de literatura e sua obra nunca mais saiu da minha cabeça. 





  Abaixo, dois dos poemas dela que mais gostei de ler:



FANATISMO

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
- Florbela Espanca, em "Livro de Sóror Saudade"

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Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentindo
Não se pode disfarçar.

Os olhos são indiscretos;
Revelam tudo que sentem,
Pode mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.


Aos olhos dele
Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa;
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

- Florbela Espanca