sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Toda história de amor é triste

Talvez por isso que eu goste dos romances. Eles são trágicos. Todos os namoros acabam, os romances acabam, os beijos e até a própria vontade de amar acabam um dia. Shakespeare grita pra que o amor dele seja eternamente lembrado, pra que o tempo não devore os sentimentos dele, tempo voraz! Mas ele vai. O tempo devasta tudo, devora as garras do leão, as lembranças, o ódio e o amor.

O formigueiro

 Eu tenho apenas esse defeitinho que não me deixa em paz: problemas em conviver com pessoas muito corretas - que nunca erram ou que o que fazem, pensam ou a forma como vivem é considerada correta de alguma forma pela sociedade.
 Talvez seja essa a razão do meu círculo de amigos ter diminuído tanto nos últimos anos. Afinal, uma boa parte do corpo social ao qual estou inserida é composta por gente com esse comportamento engomadinho.
 Sabe, não é que eu odeie essa galera nem nada, é só que eu me divirto com essas caricaturas de humanos. Esses seres andando de forma civilizada, se comportando como se fossem parte de algo importante. É como ver um documentário sobre um pequeno formigueiro: pessoinhas fazendo seu trabalhinho no escritórinho, ouvindo suas musiquinhas que falam sobre o amor ou cerveja, tirando suas fotinhos pro instagram, usando suas roupinhas e compartilhando mensagens de auto-ajuda em suas redes sociais, torcendo por curtidas e atenção que só Erich Fromm (pra variar) explica.
 O que eu quero, quando vejo esse tipo de gente, é pervertê-las. É deixá-las constrangidas. É plantar o caos, nem que seja um pouquinho. Gosto de vê-las saírem dos próprios eixos. ''Oh, céus, o meu umbigo não é o centro da galáxia! Existem outras pessoas além de mim e minha opinião não é uma certeza absoluta pro universo!!''. Quando a conversa rende, por milagre, é como se eu ouvisse todas as coisas que a tornaram o que são hoje racharem um tiquinho.
 Será que é arrogância da minha parte? Não é como se eu me sentisse superior e aparte desse tipo de comportamento. Ademais, me sinto um tanto esquizoide perto delas e acabo divagando quando percebo que estão com medo de entrar num assunto que não envolva o clima ou a vida de um terceiro que, na imensa maioria das vezes, nem sequer está lá para se defender.
 Não estou com vontade de me colocar num pedestal nem nada, falo mal das pessoas e converso sobre o clima, mas canso de ficar só nisso: fulano foi traído, o clima está uma loucura. Preciso de gente que reclame e que veja defeito no status quo e que não tenha medo de entrar num assunto polêmico ou desconhecido.
  A vida anda meio parada, não é não?

*Texto escrito em abril de 2015

domingo, 1 de outubro de 2017

Insegure-se

 É muita prepotência falar, pense mais consigo. Não se deve falar nada, em momento algum!
Por que, se você disser alguma coisa, corre o risco de virar chacota, de tropeçar nas coisas que pensa, errar na vírgula e dizer algo contrário ao pretendido.
 Veja bem, se for possível não escreva o que vem a sua mente ou faça muitas perguntas... Na verdade, o ideal é que você evite qualquer coisa relacionada a linguagem e simplesmente aceite a sua ignorância em silêncio, já que questionar muito ou escrever demais vai te fazer parecer uma criança de novo.
 Eu sei, isso é muito extremo, e por isso talvez você deva abrir uma exceção para não cair na falta de modos. Fale só quando te direcionarem a palavra, mas com moderação porque ninguém suporta um falador. Faladores são vistos como pessoas fúteis, e você não quer ser um desses, não é mesmo? O que você quer ser é um pensador, uma pessoa quieta e misteriosa, alguém que todos queiram conhecer melhor. E o segredo, meu caro, é não deixar que te conheçam, e muito menos que te desvendem. Entendeu?
 Pronto, esse será seu papel daqui pra frente e com ele garanto que você se dará muito bem.

*Texto de 29/10/2015

Platônico

Quanto mais afastado você se mantiver das pessoas, melhor. É mais simples lidar com a figura idealizada de um ser humano, do que ter que conhecer a fundo sua humanidade, a sua parte mais delicada, mais frágil.

É embaraçoso perceber que a imagem, antes santificada, é suja, defeituosa e carente de atenção. É mais embaraçoso ainda ter que se desvencilhar dessa situação - você se sente culpado. A culpa te deixa muito tempo no mar profundo que é a alma do outro, e quanto mais você permanece, mais estragos acontecem.

Saia enquanto é tempo.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

eu, Eu e os outros


  Aprendi muito cedo a administrar minhas emoções perto das pessoas. Acredito que duas ou três delas saibam sobre meu outro lado: o lado depressivo e de difícil convivência, a parte de mim que é a mais verdadeira, que é a que mais odeio e a que mais odeiam.

  Acredito que todas as pessoas possuem esses dois Eus, mas a diferença entre os meus é um pouco espantosa pra quem se aproxima muito de mim. Externamente, sou a pessoa que sorri, a pessoa que é calma, que lida com os estresses da vida. Quando estou próxima de outras pessoas, até eu acredito nesse Eu.

  Antes eu demonstrava minhas duas faces para o mundo, e ele, com razão, me odiava. Primeiro porque eu posso me irritar muito, muito, muito, muito facilmente, porque falo demais, tenho manias estranhas, me entristeço com pouco, porque tento decifrar tudo e todos a todo momento e distribuo lições de moral não requisitadas com muita frequência.

  Por muito tempo acreditei que o problema eram os outros, mas com o passar dos anos fui percebendo que a forma como eu sou é muito complicada. Sou como uma pedra presa no calcanhar das pessoas, que são educadas demais para se soltarem, que toleram por tempo demais o intolerável. Ninguém precisa lidar com isso.

  Vendo que o meu lado mais verdadeiro afetava demais os outros, resolvi o reservar. Uma ou outra pessoa, nesse período de reserva, gostou do lado exposto ou até mesmo se apaixonou por ele. Apesar de saber como eu sou, vez ou outra, gostei ou até mesmo me apaixonei de volta - e nessas situações, inevitavelmente, me conheceram por completo.

  Quem me conheceu de verdade, infelizmente (para mim e não para eles), perdeu o interesse e teve que se afastar, acho que os deixei pasmos, acho que os machuquei e os irritei. Coloquei muito peso nas costas dos outros, eles se sentiam e se sentem responsáveis e, acredito eu, porque as faço pensar assim.

  Apesar de saber bem como sou, de tentar me conhecer e melhorar, como humana, como uma estúpida humana, cometo os meus erros e acabo deixando se aproximarem de mim. Por que faço isso? Acho que porque sou, além de uma pedra, um tipo de buraco negro. Um buraco negro cujo o outro lado é uma prisão.

  Sinto muita pena das pessoas realmente próximas de mim, que tem que aguentar todo o meu enorme peso. Sinto também das que, apesar de não perceberem, caem na minha mentira (omissão também é mentira) diariamente.

  Sinto muito. Vocês não deveriam sentir nada em relação a mim. Eu deveria dar mais amostras do meu eu, para que assim as pessoas fiquem cientes e se afastem antes de criarem comigo embaraçosos laços afetivos. Claro que eu poderia resolver essa questão de uma forma mais drástica, mas não tenho coragem. Enquanto isso não acontece, por favor, afastem-se de mim. Eu os entendo até demais.