quarta-feira, 14 de outubro de 2015

STATUS QUO

Não gosto de soar arrogante,
mas nesse mundo todo papel programado é fundamental
Tudo que digo se torna importante
Com essa gente que encontra defeito em tudo o que é normal
O ''mas'' nas minhas sentenças agora são um problema
E é tudo por causa desses politicamente corretos
Sempre me pego num dilema
E é difícil lidar com esses novos sentimentos indiscretos
Tudo o que rio já não me parece tão legal
Agora parece que convivo com um decreto
De me sentir arrogante em tempo integral

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A comédia que é a vida

 Quando se é criança- pelo menos no meu caso-, você não quer papel nenhum, só quer brincar. Aí acontece aquela fase embaraçosa em que você não é criança e nem adulto, aquela que, no fim das contas, ninguém se sente muito orgulhoso de ter passado, das decisões que tomou durante ela: a adolescência.
 Durante a adolescência, tudo o que a gente quer é ser o legalzão da turma, e se não der, pelo menos que não sejamos os mais zoados. Pra sobreviver nessa selva, nesse antro de aparelhos ortodônticos e acnase, a gente acaba por pegar uns personagens de filmes, séries, jogos, uns trejeitos daquela tia legal e independente que mora na cidade grande e torce pra essa caracterização peloamordedeus funcionar.
 A minha personagem não funcionava muito bem, o problema mesmo é que eu era indecisa que dava dó, toda hora eu mudava o conceito de ''legal'' e ''chato''. Então, tinha esse dia que eu acordava Madre-Tereza-de-Calcutá e ia regularmente as aulas, tirava notas boas e ficava distante dos gatinhos do colégio- parecia até que eu tinha pedido medida protetiva de 100 metros de tudo de prazeroso que a vida tinha a oferecer-, e tinha esses outros dias que a rebelde sem causa relevante surgia.
 Lembrar disso é engraçado, mas me deixava cansada esse teatro todo. Haviam essas pessoas que diziam pra gente ser quem é, mas isso não fazia muito sentido pra mim na época porque eu não sabia se eu era alguém pra ser, se é que me entende.
 No fim, essa fase passou tão rápido, toda aquela coisa de hormônios a flor da pele deixou de me assombrar. Estou num processo de desaceleramento emocional e isso está me fazendo muito bem. Percebi que quando a gente cresce, prefere ser a melhor versão de si ao invés de ser a melhor versão que puder encontrar na cultura pop. Mas não serei hipócrita nesse texto, sinto um tanto de falta daquela bolha de emoções violentas, mas só sinto mesmo, não voltaria atrás com uma máquina do tempo pra viver tudo de novo, por enquanto.
 Enfim, esse texto é meio sem final, já que a vida é essa comédia nonsense com a qualidade que varia entre Monthy Python e Zorra Total, que não vai te dizer se o que você sente é real, se o que você pensa é correto. Quem sabe, daqui 10 anos eu não esteja mais de acordo com o que aqui foi escrito.

:*

Essa gente enfadonha...

 Até hoje tento encontrar a razão de ter feito um blog, de colocar um monte de coisa pessoal e que iria para o cantinho do esquecimento na internet. Talvez seja porque eu sempre perco meus diários nas minhas bagunças, talvez seja porque eu quero fazer as pessoas sentirem algo bom, que não seja pena ou vergonha alheia, ou eu seja só egocêntrica mesmo, uma menina afim de avaliar a si mesma através do que escreve. Acho que não é preciso ter razão nenhuma, afinal de contas, pra escrever coisas íntimas e acessíveis a qualquer um. E esse ''qualquer um'' inclui stalkers, estupradores, criminosos. Acho que eu deveria simplesmente parar de escrever um blog, afinal, isso é muito perigoso. Tô falando demais, não tô? Sobre o que eu ia dizer mesmo? Estou ficando parecida com aquela gente prolixa, sabe? Aquele tipo de gente enfadonho, que fala demais e não chega a lugar nenhum, que diz tanta coisa e não termina o assunto, que faz perguntas retóricas em excesso. Isso chega a deixar as outras pessoas zonzas. Queria mesmo é colocar um prolixo num potinho e observá-lo implodir de tanto falar e falar. Odeio essa gente! Apesar que odiar... Odiar é uma palavra extremamente forte, né? Como que a língua humana é evoluída, gente! Uma palavrinha consegue ter uma carga forte de emoções e com a capacidade de nos deixar atordoados: felizes, tristes ou bravos. Sentir é algo incrível, assim como aquela animação em que os sentimentos tem sentimentos... Sabe, mudei de ideia, gente prolixa é até interessante, pode te oferecer informações interessantíssimas e acrescentar muito em sua vida e em sua carga cultural. É, eu amo esse pessoal prolixo. Mas ainda não sei por que eu fiz um blog.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Moscando

     Uma mosca estúpida deu a luz a várias outras moscas estúpidas, à exceção de uma. A mosca-não-estúpida tinha consciência de si e concluiu, após algumas horas de vida que: a) é uma mosca e b) é tão estúpida quanto todas as outras, com a diferença que é a única a notar isso. Qual a razão disso de viver? perguntou a outra desnorteada de sua espécie; a resposta foi um insatisfatório ''bzzz''.
    Depois de um tempo tentando estabelecer diálogos entre suas irmãs, a mosca-estúpida-e-consciente voou deprimida a procura de algo que a fizesse ser feliz- tão feliz quanto suas compatriotas- mesmo tendo tantas perguntas e medos dentro de si. E, enquanto estava no meio de um raciocínio sobre a conexão entre felicidade e a ignorância, ficou presa numa teia e foi, consequentemente, comida por uma gigante e estúpida aranha. 
    Nesse mesmo tempo, as moscas estúpidas que não foram presas pela teia, seguiram voando para nenhum lugar em especial...

A.C.Vilela

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O Planetário

Reportagem da marciana Cleonice Silveira para a revista O Planetário 13/04/2.352 às 13:35.


 Numa galáxia distante e desconhecida por grande parte do universo, em razão da sua falta de estímulo ao turismo, há um planeta sem nome que possui diversos habitantes inteligentes e civilizados que alegam veementemente não existirem. E é por essa razão que há dois anos terráqueos atrás, tredecilionários filantropos, atrás de um novo mercado de viagens à locais muito, muito distantes, enviaram cinco estudiosos desempregados de renome para que fizessem uma pesquisa filantrópica de mercado e trouxessem os motivos pelos quais tais seres pensam de forma tão... deprimente.
  
A ideia do tredecilionário Zheus é ajudar a comunidade em questão a ter mais alegria através do turismo - mercado quente após a descoberta de três galáxias trafegáveis. Em rara entrevista, Zheus declarou: "a alegria de nosso planeta será espalhada através do turismo, alguns amigos foram até o local e voltaram deprimidos, o que foi positivo, visto que o mercado psiquiátrico teve um bom aumento de produtividade... no entanto, não por muito tempo, o que é negativo, considerando sua queda em razão dos suicídios. Eu e outros colegas pensamos, então, numa alternativa de mercado que muito beneficiará a população: o turismo. A parte filantrópica é a suavização da depressão e suicídios".
 
Meses de estudos sobre o local trouxeram resultados exóticos: o suicídio de quatro dos cinco especialistas enviados até lá. Os suicídios foram os primeiros a acontecerem naquele planeta, segundo dados da Milionários Filantropos - S/A.

O corajoso único sobrevivente, ex-psicólogo e atual interno do Centro Marciano de Recuperação, Teobaldo Rios, passa por terapia de choque para evitar recaídas às drogas e evitar que ele destrua os últimos dados coletados no planeta de interesse. O motivo de sua depressão está exposto no trecho abaixo, conseguido com exclusividade por nossa equipe de reportagem, da única entrevista que não foi destruída pelo pesquisador em ato recorrente de vandalismo. Vamos à ela:

Teobaldo- Olá minha senhora, muito obrigado por ter concordado em participar desse estudo que pretende trazer empregos para sua sociedade. Você pode me dizer seu nome? Mas antes disso, a sua cidade é extremamente organizada e tem belíssimas paisagens, meus parabéns a vocês! Foi por essa razão maravilhosa que os Milionários Filantropos - M.I. S/A se interessaram tanto em trazer uma franquia de suas agência de turismo para este local cativante. Infelizmente o problema 'existência' pode acabar afastando possíveis viajantes que procuram um pouco de felicidade na hora de sair da rotina...

Inexistente- Eu não tenho um nome. Aqui ninguém tem isso. Obrigada pelos elogios, mas vocês tinham dito que estavam aqui pelo prazer de aprender e promover o intercâmbio de culturas, e não vender. Enfim... isso é irrelevante.

Teobaldo- S-sim, claro, isso também. Bom, prosseguindo... Não há algo que denomine a sua pessoa, ou melhor, que dê referência a quem você é?

Inexistente- Não há motivos para denominar o que não existe.

Teobaldo- Preciso insistir, senhora, meu emprego está em jogo. Não existe nada que te defina para que eu possa colocar nos arquivos?

Inexistente- Pode me chamar de inexistente, se for te animar.

Teobaldo- Ahã... tudo bem, senhora Inexistente. Notei que, assim como você, seu planeta não tem um nome. Passei os últimos meses tentando descobrir qual era e me disseram que não há razão pra isso... Chega de falar de mim, vamos falar sobre o fato da senhora existir tanto quanto eu e estar em negação sobre isso.

Inexistente- O que te faz crer que você ou eu estamos existindo? Não consigo compreender esse raciocínio estrangeiro.

Teobaldo- Hora, eu existo sim, pois penso! Estou pensando nesse exato momento.

Inexistente- O que me deixa confusa é que você acredita que pensar é um requisito para existir. Se for levar isso em conta, você existe, mas uma cadeira não existe, já que não raciocina.

Teobaldo- Então, vou me exprimir melhor: existir é estar no tempo. O que acha dessa?

Inexistente- [risos] Mas quando o tempo acabar, no que irá cravar sua existência? O tempo é um conceito! Nessa sociedade, ninguém existe de verdade, somos um breve suspiro. Só vivemos se houver alguém que se lembre do que fomos. Nos tornamos, depois, apenas sonhos. E todos sabem que sonhos não existem.

 A M.F. S/A foi procurada pela equipe, mas não quiseram gravar entrevista. No entanto, enviaram nota nessa manhã, transcrita a seguir:

''A M.F. S/A ainda está em luto pelo falecimento [posso suavizar, se quiser] de quatro dos nossos pesquisadores e em dor pelos traumas psicológicos sofridos pelo especialista número 5, durante a missão de expansão econômica e cultural de nossa empresa. A M.F. S/A se preocupa com todos os seus funcionários e deseja a todos um feliz ano novo.''


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