quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Little birds

Culpa e prazer, prazer e culpa. Essa é a segunda vez que escrevo algo sobre sexo que não seja uma piada ou um assunto muito sério e acadêmico que envolva violência de gênero. A minha primeira vez foi num poema que está perdido por aqui. A minha segunda vez é esta.

Há anos atrás li uma frase que dizia que a vergonha seria uma mentira que alguém conta para nós, sobre nós mesmos, assinada por Anaïs Nin. Um pouco de pesquisa: Autora de livros eróticos. Ora, pois nunca eu tinha lido um, e nem me interessava. 

Não me interessava por dedução. Quando se escreve sobre sexo, na maioria das boas obras literárias, ele fica ali mais de plano de fundo. Nas más obras: é o epicentro, usado como isca para manter o instinto primitivo do leitor concentrado para a próxima página. Usa-se muito como gancho para sustentar histórias ruins, ocultar erros nas construções dos personagens, é um tipo de truque que se desgasta rápido e fica entediante. Sim, já sei autor, agora ele engole a saliva, e ela o admira com medo. Daí que colocam vampiros de 200 anos sexualmente interessados na Taty, estudante de ensino médio do interior do Tocantins. Vão-se 10 tomos e ela ainda não sai dos 15 anos. Quem é o vampiro, afinal?

Mas a frase de Nin não parecia com as frases prontas dos livros da minha adolescência, me trazia algo de mais instigante. Ela escrevia contos eróticos, mas não só. Era uma poeta, também. E uma poesia boa, sensível, algo que a distinguia de outras autoras de livros de "fantasia". A curiosidade me seduziu. Li a versão em inglês disponível no Kindle, do livro Little Birds. Não vi se há versão em português. Com exceção de um texto ou outro muito bizarro e obviamente problemático (busco aqui não ser anacrônica), outros foram ótimos de ler. Sensíveis e sensuais de se ler.

    “It was a period of drunkenness, of blindness, of living only with the hands and mouth and body.” 

Na obra da Anais, o sexo é a história per se. Em Little Birds, ela aborda essa sensação misteriosa do autodescobrimento, sendo corajosamente explícita sem perder uma boa construção de contos, personagens críveis e humanos - é como se estivesse observando as memórias nostálgicas de alguém que encontrou o prazer e a libertação, que aproveitou a juventude longe da vergonha. É sedução com elegância, com um je ne sais quois: 

"There are women’s voices that sound like poetic, unearthly echoes. Then they change. The eyes change. I believe that all these legends about people changing into animals at night — like the stories of the werewolf, for instance — were invented by men who saw women transformed at night — from idealized, worshipful creatures into animals and thought that they were possessed.” (a. n.)

Aliás, a palavra "shame" aparece pouquíssimas vezes nos treze contos. É um livro bem pouca-vergonha. 

Anais me fez lembrar de um bom filme chamado 'O amante' (1992), que assisti há uns dois anos. É cultzão e serve a poucos gostos. Mas tem o sexo perfilando cada cena. Pois bem, zanzando pela internet descobri que se tratava de uma adaptação do livro, de mesmo nome, da romancista francesa Marguerite Duras. 

A leitura de 'O amante' foi saborosa. Duras é também uma autora explícita e poética, sensível e envolvente. Não senti ter lido um romance, mas um diário, uma reconstrução feita à base de memória inconstante, melancólica e saudosa:

"Durante séculos, os navios fizeram com que as viagens fossem mais lentas e mais trágicas do que são hoje. A duração da viagem recobria naturalmente a extensão da distância. As pessoas estavam habituadas a esses lentos ritmos humanos na terra e no mar, a esses atrasos, a essa espera dos ventos, dos céus abertos, dos naufrágios, do sol, da morte" (m. d.)

As duas autoras já se encontraram, colaboraram em projetos, e me parece que tiveram uma certa divergência artística. Após ler as duas autoras, sei bem a razão. É filosófica. Se Nin via no sexo o prazer da liberdade, Duras via o preço da liberdade. Uma era nostálgica, a outra saudosista. Diferenças cruciais e interessantes sobre como encaramos o nosso próprio instinto, nosso prazer, desejo e a cultura.

Acho que Duras acreditou mais nas mentiras que contaram sobre ela mesma. Nin, criou o próprio mundo para que não morresse no dos outros.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Autoflagelatoria

 Sempre me vem a vontade de escrever pela madrugada. Mas para escrever, preciso do meu notebook, do silêncio e da companhia da solidão. E tempo. Me vejo ocupando o ponteiro do relógio com outras mil coisas improdutivas. Ando consumindo muito: das compras de final de ano aos conteúdos da internet. Consumo. Consumo e consumo mais um pouco. 

 Alie isso ao fato que, por ver tanto, ouvir tanto, já não consigo lá bem distinguir algo que me inspire a iniciar uma digitação. E é por isso que não escrevo tanto. São múltiplos os fatores para não criar. Mas eis-me aqui. Escrevendo, vagarosamente, protelando para produzir. Produzir... Não... eu deveria estar pensando mesmo é em criar!

 Produzir tem dessa polissemia de trabalho, de capitalismo selvagem, de blockbuster. Como se pudéssemos quantificar a necessidade de autoexpressão numa cifra em dólar. Vira tudo uma alíquota ou algum outro termo mercadológico que nos permita precificar e comparar a produtividade de um artista em relação a outro. Acho que me reinfecto com esse vírus da produtividade quando me deparo com tantos bons textos, bons trabalhos, tanta gente tão melhor, em seu mínimo, do que o máximo que eu poderia ser. 

 Produção é coisa cansativa, desgastante, tem cheiro de burnout, tanto é que caio nessa procrastinação autoflageladora antes mesmo de colocar o pincel na tela. Me estressar tanto para não receber nem um mísero centavo? A produtividade artística com certeza sairá numa sequência de 'Sociedade do Cansaço': a 'Sociedade da Exaustão'.

 Algo que venho pensando há algum tempo é que criar é um privilégio. Mesmo que essa criação seja ínfima, ortograficamente questionável e esteticamente entediante. O artista não deve deixar a mão enferrujar completamente. O excesso de consumo talvez o faça entender que tudo que é preciso ser expresso já o foi. Não foi. Cada humano é feito de uma infinidade de sensações combinadas que são únicas, como as digitais do dedo anelar. 

 Nem sempre nos é possível chorar a lágrima de alguém; é preciso sentir a umidade na nossa própria pele, para que nos venha o suspiro do alívio. O amor, por mais que Neruda tenha apontado sua direção secreta, ali entre a sombra e a alma, talvez esteja no coração. Talvez mais à esquerda.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Vai indo a Dete, vai indo eu

 Já não fala nada com nada, os dentes postiços balançando na boca. O cabelo metade raspado, metade embolado - seria isso um erro crasso do cabeleireiro? É falta de habilidade para conseguir cortar os cabelos de uma idosa hiperativa caducando? Minha avó não soube me dizer. Só soube me dizer "É... o tempo tá passando. Vai indo a Dete, vai indo eu".

 Minha avó e suas tantas amigas Betes, Marlenes, Ednas, Suelis, eu considero com carinho, como se fossem minhas avós. Queria poder encarar esse futuro como essas mulheres. Elas vão mais a velórios do que a casamentos e já não cuidam dos netos, mas dos bisnetos. Umas amam ser viúvas, ou queriam ter ido com o marido, ou queriam que o marido se fosse logo... Outra nem sequer se lembra de ter casado. Literalmente.

 Elas estão enfrentando, mais ou menos juntas, desafios já conhecidos da terceira idade. Já conhecidos porque já estão nessa há tempo suficiente para saberem que os joelhos doem com a friagem e que omeprazol é uma vez ao dia. Criança chora mesmo, homem dá trabalho, e que só não há solução pra morte. Apesar de tudo, vivem com humor. E se não humor, com carisma... ou só vivem, que já tá bom.

 Uma ou outra amiga veio perdendo uns parafusos nesses muitos anos de vida que se empilharam e as que não, já estão bem cientes que possuem mais passado do que futuro. Desparafusadas ou não, reúnem-se para um tereré ou chimarrão, sentadas nas cadeiras de área. Falam da igreja, da célula, do passado, dos netos e daquela mulher ali passando na rua com aquele vestido esquisito. Ainda fazem suas apostas sobre o mundo espiritual: nos braços do Pai.

 A Dete perguntou mil vezes se minha avó quem cortou cabelo dela. "E eu lá sou cabeleireira, Dete?". E a Dete perguntou se a minha avó sabia quem tinha trocado o lençol da cama. "Ah, agora sou camareira?". E a Dete, confusa, sorri, e olha o movimento da rua.

 A Dete foi minha professora substituta por uns meses, quando eu estava lá no ensino fundamental e ela não tinha nenhuma manchinha no eletroencefalograma. Acho que foi ensino religioso. A aula consistia na leitura da bíblia para os alunos, mas para mim e ela: conversas fiadas. Ela chegava e eu já puxava a minha cadeira para a mesa da professora. Até hoje tento buscar sobre o que tanto conversávamos naqueles dois tempos de aula. E ainda voltávamos a pé, para casa, papeando sobre deus sabe o quê. Ah, se nem eu me lembro, quem dirá ela...

 A minha avó também tem as Marlenes. A cada interação que presencio fico entre anotar a conversa ou me entreter. Até hoje só me entretenho. Metade da fofoca eu nem entendo, não sei quem é Magali, filha do Salvador da loja de estetoscópios, mas o jeito que elas conversam me faz imaginar vividamente que a Magali seja magrela, esquálida, mas de um olhar bondoso e o Salvador alto, meio careca, pele bronzeada e gago. Era bondoso, porque o funeral estava cheio. Deve fazer bem conhecer gente que conhece gente que quase ninguém mais conhece. 

 Já diz a ciência que os bons amigos, casamentos estão ligados à longevidade - talvez tanto quanto a boa alimentação e o exercício físico. E fica provado que de nada adianta correr por 42km sem poder contar com amigos por 42 anos. Mesmo que com uns desentendimentos aqui e ali, isso é bom gerador de assunto. Não há árvore que pare em pé sem suas raízes.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Céu

No céu da minha memória,

moram os mortos da minha história

Lá vivem, sorriem e amam

Conversam, vigiam e chamam -

Uns até mesmo oram.


No céu da minha memória

nunca envelhecem, nunca choram

Ironizam a tragédia -

O terreno é da comédia.


Fecho os olhos 

a saudade me fecha.

Feito uma flecha,

o amor me consola.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Fernanda

 Nos últimos dias as pessoas me perguntam duas vezes se eu estou bem. A primeira é por protocolo; a gente sorri e respondo que sim. A segunda vez é logo em seguida, é aí que vem o nó na garganta e os sorrisos apagam. 

É ali que me lembro dos cachos de cabelo dela encostando na minha bochecha direita. Ali é quando lembro do nosso último abraço - que jamais, jamais, pensei que seria o último. Não imaginava que, lembrando da minha amiga, ela me tiraria a alegria e a vontade de viver. Essa foi a terrível e única vez que ela me machucou sem nenhum arranhão.

Se fosse eu quem tivesse ido, o mundo estaria bem melhor representado, isso eu garanto. Às vezes penso que tudo não passa de um pesadelo. Na verdade, ela está lá na casa dela, tomando chá, relaxando ao lado da janela, folheando o vade mecum. 

A Fer nunca terminou de ler O Corcunda de Notre Dame. Eu não a convenci a gostar de poesia. Eu dizia que ela entenderia poesia quando se apaixonasse. A fiz prometer que me contaria sobre o primeiro amor e jurei que ela logo se casaria. Nós não viajaremos para São Paulo juntas para visitarmos os museus. Ela não virá comemorar meu aniversário no dia 16. E o presente que ela me entregou 3 dias antes do acidente fatal está ali na minha estante.

Ano passado, todos os amigos se reuniram na casa dela no dia 21 de dezembro, apesar do aniversário dela ser no dia 19. Menos de um ano depois, estávamos todos lá, sentados em volta da mãe dela, esperando o pai trazer a Certidão de Óbito. Uma amiga da família foi passando o documento no círculo de visitantes, um a um lendo, relendo. Politraumatismo. 27 anos.

Penso que se fosse para realmente escrever algo decente sobre a Fer, eu teria que dispor dos meus dias para criar um livro de vários tomos. Começaria com uma ironia fúnebre: eu dizia a ela que não sobreviveria aos 27 anos, porque me identificava com os astros do rock que partiram nessa idade. E foi-se a Fer aos 27. E eu aqui, aos 30, sem ela. 

É surreal a morte. Até o dia 21 de outubro de 2025 eu pensava que quem morria eram os outros, e nunca quem eu amo. 

Como a Fer era uma pessoa muito sóbria, inteligentíssima, dona de uma coerência ímpar, eu ando lutando para combater meus demônios. O maior presente que ela deixou foi o exemplo. Ativamente luto para agir como ela agiria. Ela conversaria com os amigos para ver se estavam realmente bem; se moveria para prestar as homenagens devidas, teria uma palavra de conforto para a família, e ela seguiria bem e sã pelos muitos anos da vida tranquila que ela teria.

Para me confortar, gosto de pensar que ela nunca sofreu realmente, justamente porque valorou as coisas certas de serem valoradas: o amor, a família, a amizade, a aventura, a intelectualidade... A Fer sempre andava por um caminho de retidão. Ela sabia separar o certo do errado intuitivamente e de forma bastante adequada. E essa intuição foi se apurando cada vez mais, desde que a conheci, quando tínhamos 13 e 15 anos. 

A Fer era tudo (e infinitamente mais) porque teve uma criação amorosa - e até mesmo por isso guardo um grande carinho pela família dela. A Fer é a mãe dela, é o pai, a irmã, a avó, o primo. E eu gostaria de poder fazer algo por todos eles. Mas não sei o que fazer.

Quando respondo, pela segunda vez, se estou bem, 

respondo que ficarei.