segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Fuligem

 A história parece um termo que se aplica exclusivamente ao passado, há 100 anos. Incorreto -  acontece aqui e agora. Não só numa bastilha, com grandes explosões e derramamento de sangue, nem só na Ucrânia ou com o Vladimir Putin, mas no trivialíssimo. Nós deixamos um trecho de história por cada canto em que pisamos.

 A arte faz parte dessas marcas, como fez-se história o belo Davi de Michelangelo, e as nossas artes rupestres, que foram feitas ali, por alguma criança que pintava uma caverna sem nem sonhar com a Faber Castell. Se antes as cavernas, hoje as pichações nos postes de luz. Sim, o piche conta história como o grafite, amoralmente. E há também a grande tela moderna: os carros.

 Para-brisas com pinturas rupestres de órgãos sexuais masculinos, vidros-vigia com ordens para lavagem: lave-me! lave-me! Capôs com corações de poeira. Mãos deslizadas no vidro traseiro nos evocam Rose e Jack, imediatamente. As riscas laterais nos mostram a competência do motorista. Os pneus do meu carro contam a história dos meio-fios da cidade. 
 
 Se parar para pensar, uma obra de arte nos conta três histórias: a do mestre, a sua própria e a dos homens.

 O scrotum do touro de bronze de Wall Street foi mais lustrado do que as bolas de cristal de muitas cartomantes. A estatueta do túmulo de Oscar Wilde tinha os lábios gastos de tantos beijos fanáticos que recebeu (e por isso mesmo eu fui atrás da sua literatura). Quando era criança eu queria tocar na saia da Bailarina de Degas e o desejo se avivou quando pude a ver no MASP. Para evitar que os humanos manchem a história dos outros, colocam vidros, cordas de contenção etc. E acho isso tudo muito válido. Mas imagine só um museu das marcas humanas? A "Faceira" de Bernadelli, coitada... Melhor não.
 
 Odeio viajar, principalmente de ônibus. Só gosto de estar no destino, passeando na pinacoteca, no MASP... Olho para qualquer lado, menos para aqueles trambolhos de transportes: ele me conta uma história de enjoos, peleja e odores indesejáveis. Pensar no destino é um refúgio, pra mim. Numa dessas viagens, o motorista avisou que haveria atraso. Desci da lata de sardinha, meio grogue de Dramin. Fiquei de frente para os bancos da rodoviária e notei um contorno na parede em que estava um banco recostado. Era um busto escuro tatuado nos tijolos. Até limpei meus olhos. É como se fosse uma sombra abandonada, sem dono. Notei, ainda, outras várias sombras solitárias. Uma sombra por banco, e a sombra mais forte num dos bancos que estava quebrado. 

 Fantasmáticas, as sombras guardam multidões condensadas numa só pintura natural. Se eu fosse boa da matemática, faria uma média de altura dos viajantes naviraienses. Sentou-se um fugitivo, depois uma garotinha, um senhor, uma namorada, no colo do namorado, o motorista exausto. E eu, que estive ali, naquela rodoviária municipal, nem sei quantas vezes antes. E toda vez que retorno, as sombras estão um pouco diferentes, e eu me sinto um pouco pregada ali, na fuligem de gente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Poetry V

Show me your soul

I can show you mine

We can show at three

At the same time


3

2

1

You resign

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Assisti Hamnet para que você não assistisse

  Hamnet. Filme premiado, conta sobre o casamento de Shakespeare e Agnes, imaginado por uma autora tal aí, que inclusive participou da elaboração do roteiro. E quem é que foi escalado para representar justamente um dos maiores gênios da literatura? Mescal.

 Paul Mescal. Um ator sem variedade emotiva. Só sei que ele sente satisfação com atuação por sempre estar envolvido numa produção nova. De fato, ele não me prometeu nada e entregou-me exatamente o prometido. Transfigurou Shakespeare num homem performático. E a cena em que ele recita 'to be or not to be' foi escrita para ele, pelas mãos do próprio diabo.

 Tudo piorou quando Agnes o chama de "Will". Não se fala o nome dele por várias cenas, para dar ênfase ao momento em que ela finalmente o chama assim. Will... Will?! Essa aí foi para fazer algum espertalhão no cinema dizer à acompanhante entediada: "É Will de William Shakespeare™." 

 Aliás, a chuva de referências cultas em meio a cenas nada a ver, para fazer o espectador se sentir inteligente porque reconheceu que tal frase é de Hamlet, tal outra de Macbeth, tira totalmente a concentração de uma atuação já aparvoada.

 A história é estupidamente moderna. Poderia sequer ser sobre William Shakespeare. Poderia Will ser de Wilson John Von-Middle Class of America. Restringe toda a belíssima criatividade do escritor a um drama de núcleo familiar.

 Para tentar - tentar - tirar algum proveito da atuação - leia o 'a' de atuação, como prefixo de nada - Agnes precisa lembrar a audiência sobre o quanto o pamonhola do Will é bom, como é maravilhoso, tal qual uma esposa abandonada tenta elogiar o ex tóxico para as amigas. 

 Eles discutem como se fosse uma rom-com, mas usando inglês arcaico. Como vou acreditar que um Zé-Nadinha daquele é um gênio da literatura mundial? Deus! Se alinhe, homem!

 E se Will é um personagem cansativo em razão do ator, Agnes foi uma personagem ruim interpretada por uma excelente atriz. 

 Agnes é, basicamente, uma jovem mística. Esse casal eu já vi na rua: um performático de mãos dadas com uma jovem mística. Enfim. Ela foi escrita para ser esse estereótipo da mulher livre - por falta de criatividade de se escrever uma mulher com personalidade.

 Agnes não tem nada de muito interessante, por isso lhe deram um falcão como pet. E modulam sua inteligência ao bel prazer da cena. É normal que o QI varie em alguns pontos percentuais, mas o de Agnes... Ora ela entende o mundo de uma forma intuitiva e mágica, ora acha que um palco de teatro é a realidade.

 Sobre Hamnet, escalaram a criança com a maior cara de dózinha e disseram: aumente em 100x a sua ingenuidade. Acontece que naquele século, a ingenuidade findava aos 5 anos, porque aos 6 a criança já precisava pagar IPTU. Olha, não dá para crer numa criança de 11 anos tão bebezinha nem mesmo hoje, quanto mais em 1500!

 A direção é sofrível, a tal ponto que chega a ser cômica. Por falta de carga dramática, alongaram as cenas tristes.  Dez minutos vendo uma criança se contorcer de sofrimento, em algum momento, nos faz produzir uma lágrima.

 E a fotografia do filme? Simples como os personagens. Com exceção da famosa cena do teatro shakespiriano, todo o resto é pálido. Parece-me que tinham apenas essa cena em mente quando produziram o filme. Todo o resto foi só um estofo.

O filme nos apresenta uma história que pretende ser profunda, um Shakespeare genial, uma Agnes livre, um Hamnet puro e doce. Mas são todos ocos. O filme nos diz: admire o gênio; emocione-se; sinta ternura.

 E senti foi é ódio.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Dois stalkers se apaixonam

**

Sabem mais um do outro, 

que casais em bodas de ouro. 

Ela gosta de comer carneiro, 

ele foi à academia no sábado

Ela gastou duzentos reais no mercado 

e ele, trezentos, de delivery

Um único toque - um esbarrão calculado

Teve mais erotismo que todo sexo livre

Sobre os raros contatos visuais, 

preciosos, sagrados e vitais! 

Seguem-se com tanta fissura, 

reciprocidade parece loucura.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fora do enquadramento

 Esteticismo é um movimento filosófico que busca o belo, supremo, através das formas e cores, dos sentidos e das experiências. Ignora a moralidade, o utilitarismo e a política - ou seja, todas essas forças invisíveis que conduzem as ações humanas. A beleza está onde a vista alcança, afinal. E foi Oscar Wilde que me convenceu que a filosofia da estética é a forma mais elevada da futilidade. Não há profundidade que não tenha superfície.

 Para escrever sobre o livro do Wilde, pensei em várias opções: detalhar, de forma bastante reflexiva, pesquisada e aprofundada sobre o esteticismo, ou prestar-lhe reverência ao me apegar às aparências. Opção b, então.

 É muito interessante como a literatura põe a filosofia em exercício. Em 'O Retrato de Dorian Gray', o jovem, belo, rico e inocente protagonista se percebe ao ver seu próprio retrato. A pintura foi feita de forma romanesca, pelas mãos e coração do pintor Basil Hallward. O amor, romântico, mesmo, apaixonado, deslumbrante, de forma sobrenatural, capturou o supremo belo: Dorian.

 O retrato não foi visto só pela musa e o artista, mas também por um personagem muito curioso, a quem muito me identifiquei, Lord Henry. Ele é uma peça central na influência sobre a psiquê de Dorian. É um falastrão, cínico, que se diverte muito ao argumentar ideologias. Um dos primeiros (dentro de muitos) monólogos do Lorde, fala justamente sobre o poder da influência que um ser exerce sobre o outro. 

 Henry é um personagem que destrincha diversos assuntos no decorrer do livro, e ele exerce influência não só em Dorian, como também no próprio leitor. Me flagrei concordando até mesmo com misoginias.

 Lorde Henry, por diversão, é como o verniz do retrato. Apresenta fatos que pesam na delicadeza da inocência psíquica de Dorian. O persuade acerca da brevidade da juventude, da necessidade de se viver o presente, de não remoer o passado ou ansiar o futuro. A vida é bela e tudo que é ruim deve ser sobreposto por algo melhor. Nada deve ser enfeiado, quando pode ser embelezado. Para ele, Dorian é essa representação: é perfeito, tal qual o retrato pintado por Basil, e quer conservá-lo assim.

 Dorian se depara com seus próprios privilégios, com sua beleza e é atingido pelo chumbo da influência. Sente-se ansioso e angustiado com o fim da breve juventude e inveja, com muito afinco, como a pintura do quadro nunca envelhecerá. 

 O criador, sua musa e um crítico. Os amigos vislumbram a pintura. Num rompante de raiva, Dorian deseja trocar de lugar com o quadro.

 E ele troca. 

Após cometer o seu primeiro pecado.

 Enquanto o retrato se amaldiçoa, sujo de pecados, Dorian passa seus dias com o vigor da juventude e com o Karma de um santo. Nenhuma responsabilidade o afeta: quebra corações, embosca amigos, vive egoisticamente. Nada acaba com sua felicidade de ser e de estar. Sua vida se torna a sua obra de arte, e a obra de arte se torna uma vida: que envelhece, toma as consequências, enfraquece e morre.

 O trato entre Dorian e a pintura é firme. Mas ele teme e esconde o quadro. Ele se envergonha das chagas, mas quando vai espiar seus pecados, sente triunfo por ser mais bonito, rico e livre que aquela tinta toda. E o furor da vitória sobre as consequências vai aumentando junto com a vergonha de expor a pintura para qualquer olhar, que não o próprio (talvez nem o próprio).

 Algo que me chamou atenção, na obra, é que muitos dos pecados de Dorian foram escondidos dentro de vários capítulos. Várias páginas são dedicadas para descrever todas as coisas bonitas compradas e experienciadas e vistas pelo jovem. Daí fiquei me perguntando onde está o pecado em possuir tapeçarias, instrumentos musicais e viagens? Até que o livro vai se findando... TOUCHÉ! Dorian escondeu até mesmo do narrador. É um pecador, um manipulador e um mentiroso. Sua beleza é que hipnotiza!

 Em algum momento Dorian tenta se (re)compor, ser bom. Decide ser bom para ser belo por inteiro. Faz boas ações, tolera mais, se retrai, afasta-se do mundo, podre e sujo. Busca refúgio para não pecar. E sente-se bem.

 Vai, então, até o retrato para confirmar sua mudança. Mas, lá está! Em seus lábios putrificados, a marca da hipocrisia. 

O bom não se contenta com o belo.

E o trato chega ao final.