terça-feira, 8 de setembro de 2026

Dois stalkers se apaixonam

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Sabem mais um do outro, 

que casais em bodas de ouro. 

Ela gosta de comer carneiro, 

ele foi à academia no sábado

Ela gastou duzentos reais no mercado 

e ele, trezentos, de delivery

Um único toque - um esbarrão calculado

Teve mais erotismo que todo sexo livre

Sobre os raros contatos visuais, 

preciosos, sagrados e vitais! 

Seguem-se com tanta fissura, 

reciprocidade parece loucura.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fora do enquadramento

 Esteticismo é um movimento filosófico que busca o belo, supremo, através das formas e cores, dos sentidos e das experiências. Ignora a moralidade, o utilitarismo e a política - ou seja, todas essas forças invisíveis que conduzem as ações humanas. A beleza está onde a vista alcança, afinal. E foi Oscar Wilde que me convenceu que a filosofia da estética é a forma mais elevada da futilidade. 

 Para escrever sobre o livro do Wilde, pensei em várias opções: detalhar, de forma bastante reflexiva, pesquisada e aprofundada sobre o esteticismo, ou prestar-lhe reverência ao me apegar às aparências. Opção b, então.

 É muito interessante como a literatura põe a filosofia em exercício. Em 'O Retrato de Dorian Gray', o jovem, belo, rico e inocente protagonista se percebe ao ver seu próprio retrato. A pintura foi feita de forma romanesca, pelas mãos e coração do pintor Basil Hallward. O amor, romântico, mesmo, apaixonado, deslumbrante, de forma sobrenatural, capturou o supremo belo: Dorian.

 O retrato não foi visto só pela musa e o artista, mas também por um personagem muito curioso, a quem muito me identifiquei, Lord Henry. Ele é uma peça central na influência sobre a psiquê de Dorian. É um falastrão, cínico, que se diverte muito ao argumentar ideologias. Um dos primeiros (dentro de muitos) monólogos do Lorde, fala justamente sobre o poder da influência que um ser exerce sobre o outro. 

 Henry é um personagem que destrincha diversos assuntos no decorrer do livro, e ele exerce influência não só em Dorian, como também no próprio leitor. Me flagrei concordando até mesmo com misoginias.

 Lorde Henry, por diversão, é como o verniz do retrato. Apresenta fatos que pesam na delicadeza da inocência psíquica de Dorian. O persuade acerca da brevidade da juventude, da necessidade de se viver o presente, de não remoer o passado ou ansiar o futuro. A vida é bela e tudo que é ruim deve ser sobreposto por algo melhor. Nada deve ser enfeiado, quando pode ser embelezado. Para ele, Dorian é essa representação: é perfeito, tal qual o retrato pintado por Basil, e quer conservá-lo assim.

 Dorian se depara com seus próprios privilégios, com sua beleza e é atingido pelo chumbo da influência. Sente-se ansioso e angustiado com o fim da breve juventude e inveja, com muito afinco, como a pintura do quadro nunca envelhecerá. 

 O criador, sua musa e um crítico. Os amigos vislumbram a pintura. Num rompante de raiva, Dorian deseja trocar de lugar com o quadro.

 E ele troca. 

Após cometer o seu primeiro pecado.

 Enquanto o retrato se amaldiçoa, sujo de pecados, Dorian passa seus dias com o vigor da juventude e com o Karma de um santo. Nenhuma responsabilidade o afeta: quebra corações, embosca amigos, vive egoisticamente. Nada acaba com sua felicidade de ser e de estar. Sua vida se torna a sua obra de arte, e a obra de arte se torna uma vida: que envelhece, toma as consequências, enfraquece e morre.

 O trato entre Dorian e a pintura é firme. Mas ele teme e esconde o quadro. Ele se envergonha das chagas, mas quando vai espiar seus pecados, sente triunfo por ser mais bonito, rico e livre que aquela tinta toda. E o furor da vitória sobre as consequências vai aumentando junto com a vergonha de expor a pintura para qualquer olhar, que não o próprio (talvez nem o próprio).

 Algo que me chamou atenção, na obra, é que muitos dos pecados de Dorian foram escondidos dentro de vários capítulos. Várias páginas são dedicadas para descrever todas as coisas bonitas compradas e experienciadas e vistas pelo jovem. Daí fiquei me perguntando onde está o pecado em possuir tapeçarias, instrumentos musicais e viagens? Até que o livro vai se findando... TOUCHÉ! Dorian escondeu até mesmo do narrador. É um pecador, um manipulador e um mentiroso. Sua beleza é que hipnotiza!

 Em algum momento Dorian tenta se (re)compor, ser bom. Decide ser bom para ser belo por inteiro. Faz boas ações, tolera mais, se retrai, afasta-se do mundo, podre e sujo. Busca refúgio para não pecar. E sente-se bem.

 Vai, então, até o retrato para confirmar sua mudança. Mas, lá está! Em seus lábios putrificados, a marca da hipocrisia. 

O bom não se contenta com o belo.

E o trato chega ao final.


 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Walkman

 Certa vez, peguei o walkman da minha vó. Ouvi uma canção e pensei que cantava acompanhando muito bem a fita cassete. Quando retiro os fones, a surpresa: eu cantava é muito mal. A sobreposição da voz do cantor é que ritmava meu cacarejar! 

 Sei lá por qual razão, essa coisa besta do cotidiano criou uma cicatriz em mim. Aquela fita me fez duvidar de mim mesma - talvez pela primeira vez. O quanto me engano sobre meus talentos? O quanto a vida seria difícil? Acho que na época do walkman eu tinha tanto futuro pela frente e tanto potencial pra tanta coisa que ainda viria, que meu grasnar feriu de morte uma gama das minhas certezas.

 Mal eu sabia que ter sido chamada de especial não passava de armadilha mental de todas as crianças dos anos noventa. E aquele desafino era apenas uma pista, dentro de milhares de evidências da minha mediocridade.

 Sei lá o que aconteceu entre os anos 80 para que os pais criassem os filhos para serem únicos, especiais e prodigiosos! Talvez a constante troca de moedas daquele tempo alimentasse o povo brasileiro de esperanças e toda essa espera positiva tivesse sido direcionada à nova geraçãozinha, fofucha, suja de barro, que brincava de tazos e subia em árvores: os millenials.  

* E nós fomos desembocando a crescer, já com o segredo da riqueza assegurado: formação acadêmica. Alto entretenimento: computadores de mesa. E com aquele sistema de ensino frágil da escola pública, pensávamos que éramos bem mais inteligentes que a geração anterior... Quatro mais quatro, na quarta série? A vida adulta seria uma moleza! E compraríamos kinder-ovo e coca-cola com nossos salários.

 O primeiro grande desafio da minha geração foi ignorar a própria mediocridade enquanto migrava para o discman. Na época do Ipod, pulamos a marolinha anunciada pelo Lula, achando que teríamos tempo para nossa própria complexidade emocional.

 Lá por 2012, quando sentimos aquele alívio sobre os Maias terem errado a data de nosso fim, acho que estávamos parcialmente errados. Foi o início do fim das nossas ilusões. Naquele ano, os millenials foram ficando mais adultos e o mundo foi se mostrando menos receptivo às nossas expectativas.

 Ah, como foi cansativa a nossa migração dos litrões de cerveja para os boletos! A cada 10 postagens no facebook, 11 eram reclamações sobre a conta do mercado, sobre o salário baixo. Mas a nossa esperança sobre dias melhores estavam mesmo ali. Nossa geração não economizou. Preparou-se para um mundo em que dez diplomas de graduação e pós trariam recompensas financeiras. Nos metemos na política, nos tornamos niilistas. E agora? Inconformados em remissão.

 As últimas três décadas nos parecem paradoxalmente próximas. 2001 foi há dez anos, tal qual 1991. Mas nossas bandas adolescentes já são velharia; nossas roupas, que nunca tiramos do corpo, voltaram à moda - nos deixando com milhares de interrogações. E estamos em vias de perceber que nós e nossas JBLs de alta potência, somos bregas.

 A contragosto das nossas próprias ilusões juvenis, estamos aceitando nossa desimportância. Mas é um processo dificílimo! 

Ainda nos dedicamos à alta performance nessa corrida louca por um resquício do sucesso. Quantas matrículas em CrossFit, centros de treinamento e aluguéis de quadras de beach tênis investimos para queimarmos todos aqueles toddynhos? Quantos cursos, pós-graduações e entregas profissionais fizemos aos nossos empregadores? 

Foi nossa geração que andou para que o burnout pudesse correr. 

Ao menos fizemos nosso cardio...

Com fôlego, talvez sobrevivamos às IAs.

Pegue seu AirPod e vai pra cima, millenial!

terça-feira, 21 de julho de 2026

Escatologia

Um sussurro parece o grito de uma multidão.

O silêncio parece passos de ladrão.


O riso parece com o choro.

O som da dor lembro o do gozo.


Os fogos de artifício, com mil tiros de aviso.       

A broca que fura o chão, com aquela que tira o siso.


Os berros da euforia com os berros violentos.

O batuque do relógio com o fim dos tempos!

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Poetria XL

Esse é meu jeito 

assim é que sou

não faça estardalhaço

não corte o meu voo

me deixe quieta no meu canto

dance comigo o rock and roll

baixou a poeira, não se espante

vou bem por onde vou

se me persegue, não me alcance 

pare sozinho, desencane

que volto de onde estou

dou-lhe a mão num mesmo instante

veio a noite, hora do soul.