quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Vai indo a Dete, vai indo eu

 Já não fala nada com nada, os dentes postiços balançando na boca. O cabelo metade raspado, metade embolado - seria isso um erro crasso do cabeleireiro? É falta de habilidade para conseguir cortar os cabelos de uma idosa hiperativa caducando? Minha avó não soube me dizer. Só soube me dizer "É... o tempo tá passando. Vai indo a Dete, vai indo eu".

 Minha avó e suas tantas amigas Betes, Marlenes, Ednas, Suelis, eu considero com carinho, como se fossem minhas avós. Queria poder encarar esse futuro como essas mulheres. Elas vão mais a velórios do que a casamentos e já não cuidam dos netos, mas dos bisnetos. Umas amam ser viúvas, ou queriam ter ido com o marido, ou queriam que o marido se fosse logo... Outra nem sequer se lembra de ter casado. Literalmente.

 Elas estão enfrentando, mais ou menos juntas, desafios já conhecidos da terceira idade. Já conhecidos porque já estão nessa há tempo suficiente para saberem que os joelhos doem com a friagem e que omeprazol é uma vez ao dia. Criança chora mesmo, homem dá trabalho, e que só não há solução pra morte. Apesar de tudo, vivem com humor. E se não humor, com carisma... ou só vivem, que já tá bom.

 Uma ou outra amiga veio perdendo uns parafusos nesses muitos anos de vida que se empilharam e as que não, já estão bem cientes que possuem mais passado do que futuro. Desparafusadas ou não, reúnem-se para um tereré ou chimarrão, sentadas nas cadeiras de área. Falam da igreja, da célula, do passado, dos netos e daquela mulher ali passando na rua com aquele vestido esquisito. Ainda fazem suas apostas sobre o mundo espiritual: nos braços do Pai.

 A Dete perguntou mil vezes se minha avó quem cortou cabelo dela. "E eu lá sou cabeleireira, Dete?". E a Dete perguntou se a minha avó sabia quem tinha trocado o lençol da cama. "Ah, agora sou camareira?". E a Dete, confusa, sorri, e olha o movimento da rua.

 A Dete foi minha professora substituta por uns meses, quando eu estava lá no ensino fundamental e ela não tinha nenhuma manchinha no eletroencefalograma. Acho que foi ensino religioso. A aula consistia na leitura da bíblia para os alunos, mas para mim e ela: conversas fiadas. Ela chegava e eu já puxava a minha cadeira para a mesa da professora. Até hoje tento buscar sobre o que tanto conversávamos naqueles dois tempos de aula. E ainda voltávamos a pé, para casa, papeando sobre deus sabe o quê. Ah, se nem eu me lembro, quem dirá ela...

 A minha avó também tem as Marlenes. A cada interação que presencio fico entre anotar a conversa ou me entreter. Até hoje só me entretenho. Metade da fofoca eu nem entendo, não sei quem é Magali, filha do Salvador da loja de estetoscópios, mas o jeito que elas conversam me faz imaginar vividamente que a Magali seja magrela, esquálida, mas de um olhar bondoso e o Salvador alto, meio careca, pele bronzeada e gago. Era bondoso, porque o funeral estava cheio. Deve fazer bem conhecer gente que conhece gente que quase ninguém mais conhece. 

 Já diz a ciência que os bons amigos, casamentos estão ligados à longevidade - talvez tanto quanto a boa alimentação e o exercício físico. E fica provado que de nada adianta correr por 42km sem poder contar com amigos por 42 anos. Mesmo que com uns desentendimentos aqui e ali, isso é bom gerador de assunto. Não há árvore que pare em pé sem suas raízes.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Céu

No céu da minha memória,

moram os mortos da minha história

Lá vivem, sorriem e amam

Conversam, vigiam e chamam -

Uns até mesmo oram.


No céu da minha memória

nunca envelhecem, nunca choram

Ironizam a tragédia -

O terreno é da comédia.


Fecho os olhos 

a saudade me fecha.

Feito uma flecha,

o amor me consola.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Fernanda

 Nos últimos dias as pessoas me perguntam duas vezes se eu estou bem. A primeira é por protocolo; a gente sorri e respondo que sim. A segunda vez é logo em seguida, é aí que vem o nó na garganta e os sorrisos apagam. 

É ali que me lembro dos cachos de cabelo dela encostando na minha bochecha direita. Ali é quando lembro do nosso último abraço - que jamais, jamais, pensei que seria o último. Não imaginava que, lembrando da minha amiga, ela me tiraria a alegria e a vontade de viver. Essa foi a terrível e única vez que ela me machucou sem nenhum arranhão.

Se fosse eu quem tivesse ido, o mundo estaria bem melhor representado, isso eu garanto. Às vezes penso que tudo não passa de um pesadelo. Na verdade, ela está lá na casa dela, tomando chá, relaxando ao lado da janela, folheando o vade mecum. 

A Fer nunca terminou de ler O Corcunda de Notre Dame. Eu não a convenci a gostar de poesia. Eu dizia que ela entenderia poesia quando se apaixonasse. A fiz prometer que me contaria sobre o primeiro amor e jurei que ela logo se casaria. Nós não viajaremos para São Paulo juntas para visitarmos os museus. Ela não virá comemorar meu aniversário no dia 16. E o presente que ela me entregou 3 dias antes do acidente fatal está ali na minha estante.

Ano passado, todos os amigos se reuniram na casa dela no dia 21 de dezembro, apesar do aniversário dela ser no dia 19. Menos de um ano depois, estávamos todos lá, sentados em volta da mãe dela, esperando o pai trazer a Certidão de Óbito. Uma amiga da família foi passando o documento no círculo de visitantes, um a um lendo, relendo. Politraumatismo. 27 anos.

Penso que se fosse para realmente escrever algo decente sobre a Fer, eu teria que dispor dos meus dias para criar um livro de vários tomos. Começaria com uma ironia fúnebre: eu dizia a ela que não sobreviveria aos 27 anos, porque me identificava com os astros do rock que partiram nessa idade. E foi-se a Fer aos 27. E eu aqui, aos 30, sem ela. 

É surreal a morte. Até o dia 21 de outubro de 2025 eu pensava que quem morria eram os outros, e nunca quem eu amo. 

Como a Fer era uma pessoa muito sóbria, inteligentíssima, dona de uma coerência ímpar, eu ando lutando para combater meus demônios. O maior presente que ela deixou foi o exemplo. Ativamente luto para agir como ela agiria. Ela conversaria com os amigos para ver se estavam realmente bem; se moveria para prestar as homenagens devidas, teria uma palavra de conforto para a família, e ela seguiria bem e sã pelos muitos anos da vida tranquila que ela teria.

Para me confortar, gosto de pensar que ela nunca sofreu realmente, justamente porque valorou as coisas certas de serem valoradas: o amor, a família, a amizade, a aventura, a intelectualidade... A Fer sempre andava por um caminho de retidão. Ela sabia separar o certo do errado intuitivamente e de forma bastante adequada. E essa intuição foi se apurando cada vez mais, desde que a conheci, quando tínhamos 13 e 15 anos. 

A Fer era tudo (e infinitamente mais) porque teve uma criação amorosa - e até mesmo por isso guardo um grande carinho pela família dela. A Fer é a mãe dela, é o pai, a irmã, a avó, o primo. E eu gostaria de poder fazer algo por todos eles. Mas não sei o que fazer.

Quando respondo, pela segunda vez, se estou bem, 

respondo que ficarei.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Mindinho

 Presumir é como tatear um cômodo conhecido com as luzes apagadas. Não é saber, é achar que sabe. É usar um conhecimento velho, consolidado, como régua do porvir. É acordar de madrugada para fazer xixi sem acender a luz porque, veja bem, você mora na casa há 25 anos. 

Você sabe que a estante está ao lado direito; dá os passos com firmeza. O armário está há trinta centímetros do ombro, a cômoda por volta de um metro, a cama está logo ali, o osso do cachorro largado no tapete já estava mais do que previsto na trajetória. 

A peça de Lego também não foi esquecida - essa não me pega jamais! - a mesa está logo a... 

Ai! 

E foi-se o dedo na quina do sofá. Santa paciência, desde quando essa droga de sofá está aqui?!

A dor não nos permite concluir, no máximo culpar. Então ela passa. 

Quanta coisa a gente aprende no cotidiano... 

Bater o mindinho é um exercício de humildade.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Lá se vai a carruagem do meu passado

Lá se vai a carruagem do meu passado

entre os idos da violência, 

a asma do cigarro

os trilhos da cocaína, 

os beijos ensanguentados


os anos que se arrastaram, 

uns homens que se arrasaram

as virgens que não casaram, 

algumas viúvas, alguns bastardos


E uns amigos antigos, 

estampados no noticiário

ora o astuto, ora o degolado


Quem diria... 

Vai-se o mundo, descarrilhado.