quarta-feira, 4 de março de 2026

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Divórcio

Sentaram-se lado a lado. E então viraram os rostos. Ela olhou para o chão. Ele, para ela. Ela para ele. E ele para o chão. Ruborizaram.

 Ela quem tomou o primeiro fôlego:

- Como posso te dizer?

- Dizendo-me. - As mãos dele suavam.

- Então te digo: Eu te amo. E sinto...

- E eu já não sinto mais o mesmo.

- De me conhecer? - respondeu, surpresa.

- Não, do início, do nosso primeiro beijo, aqui, neste mesmo banco.

- Mas... nunca nos beijamos. - disse-lhe, confusa.

- Sabe como é... na minha mente, já nos divorciamos.

Ela riu.

- Sim - ele prosseguiu - Foi tudo muito bonito. Nosso primeiro beijo foi logo aqui, após confessar que me ama e eu retribuir com um beijo. Guardei esse beijo por tantos anos, desde a primeira vez que te vi. Sempre soube que nos casaríamos, mesmo antes, quando não passávamos de estranhos. Deste banco, te levei para tomarmos sorvete, uma coisa leva outra, então para um lanche, para alugarmos nossa primeira casa, juntarmos nossas vidas, conhecermos nossas famílias. Fomos muito felizes.

- E como é que essa felicidade toda aí foi embora?

- Bom, eu queria casar no altar, você em alguma noite embriagada de Las Vegas. Eu desejava filhos, e você não queria nem mesmo mudas de plantas, entende?

- Mas você disse que nos casamos.

- Nós casamos.

- Onde, afinal?

- No altar. 

- E como é que troquei Las Vegas por isso?

- É daí o nosso fim. - disse, segurando a mão dela com firmeza - E sentados aqui, já percebo a razão. Acho que você foi a primeira a não sentir mais.

- Como é isso?

- Eu queria filhos, então essa foi sua concessão à minha felicidade. E a minha concessão à sua felicidade foi sentir um grande vazio, sem nunca poder ver nossa prole brincando pelos jardins que não tínhamos em casa.

- Em que momento lhe dei um filho?

- Olha só, você adivinhou... Bom, alguns anos depois, quando já não conversávamos mais sobre qualquer coisa além de impostos.

- E conversamos por meio de nosso filho por quanto tempo?

- Por tempo demais.


Levantaram-se. E nunca mais olharam para trás.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Bem criancinha

Quando me dei conta de ter nascido, percebi que eu morava na casa da minha avó - na verdade, eu não pensava como 'casa da minha avó', eu sentia o que era 'casa' antes da palavra e da propriedade. É difícil explicar como eu entendia o mundo sem saber o que aqueles barulhos orquestrados, que saíam da boca dos adultos, significavam. 

Um dia fez sentido, para mim, que minha vizinha respondesse ao som de "Bia". Eu a vi através das grades. Agarrei-me ao portão e resolvi testar a teoria. Tinha vontade de vê-la, porque ela era legal e me deixava brincar de boneca. Gritei aquele som a plenos pulmões! O "bê" era difícil, saiu "Pia". E essa foi minha primeira palavra.

Num primeiro momento, os gigantes se encantaram com a minha tagarelice, mas depois que aprendi a formar muitas frases, o fato de que eu verbalizava não demorou para se tornar notícia velha. Eu não era lá muito ouvida, porque tudo o que eu estava conhecendo já era conhecido, então achei legal o fato de falar para dentro: A grama é do chão de terra, a noite é escura, o louva-a-deus não canta hino louvando Deus.

Eu fui subindo nos armários, nas mesas, então nas árvores, nos galhos cada vez mais altos, nos muros, no telhado e passei a fugir de casa com uma boa frequência.

Lembro-me razoavelmente, como num sonho, de esperar meus pais tirarem a sesta para poder abrir o portão e fugir. Talvez por isso a minha empatia com os cães domésticos. Não é que eu não gostasse de casa, mas puxa vida! Um mundo inteiro lá fora, as risadas das crianças brincando na rua, os carros voando no asfalto, os gatinhos bonitinhos desfilando e os adultos lá, descansando a barriga! Eu dava é no pé. E já tinha um pouco de astúcia. Era gatuna e curiosa. 

Minutos, ou horas, após andar e andar até a Avenida Campo Grande, senti ter sido içada por um gigante, que me apoiou nos ombros. Era o vigilante da rua. Estava me resgatando. 

Com a idade, fui ficando mais sábia e não ia mais às avenidas perigosas e movimentadas durante as minhas escapulidas. E eu já contava até 10 e, se forçasse, trinta e dez, noventa e dez, até duzentos e noventa e dez! Ficava tentando contar mais alto só para provar que eu conseguia chegar ao último número dos números (ficava logo após o mil cento e alguma coisa que eu não tinha aprendido).

A idade nos traz desafios cada vez mais complicados: o da vez era que as crianças da rua eram mais velhas e já estavam na 1ª série. Senti uma grande aflição ao ser deixada para trás com a minha amiga Bianca. Ela me disse que, na escola, ia para aprender a ser mais inteligente, que se contava até o infinito e que se via mais crianças ainda do que na rua.

Eu e Bianca ficávamos olhando da janela da casa dela as crianças com suas mochilas bonitas, uniformizadas, como se fossem heróis indo ao combate. Eram elas tão maiores e mais inteligentes que nós! Não muito depois, fui traída pela minha amiga. A mãe a matriculou na pré-escola e fui deixada para trás.

Lembro de pedir à minha mãe para ser matriculada também, mas ela me disse para esperar, que eu estudaria já, já. E esse já, já que não chegava nunca? Nos terríveis tempos letivos, a rua ficava triste e deserta. Mas assim que eu conseguia pedalar muito rápido minha motoca, esquecia de tudo. Eu vivia num eterno presente.

Alguém me contou num certo dia que, quando se cresce, a infância todinha é esquecida. Tentei forçar a memória para pensar no útero da minha mãe e, horrorizada, constatei que falhei. Bem criancinha, um pensamento mais longo representava 2/3 da minha vida. Tive medo de não recordar de mim mesma.

Daí é que passei a lembrar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sísifo no RH

 Para obter recursos para sobrevivência e para o lazer, é preciso se submeter a certas coisas que só ficam toleráveis mediante certos valores modernos que fariam Aristóteles hiperventilar. A vida feliz no capitalismo exige o valor da ganância, coisa que eu não tenho. Eu não acho o valor ruim, aliás, preciso de um pouco disso para desandar para o sucesso. Ando incluindo na minha rotina uma parte para meditar sobre: o que quero para o futuro? Aonde me vejo daqui a 5 anos? Tenho plano de carreira? Qual o meu salário ideal? Não me julgue. Perguntas de RH são tudo o que sei sobre essa questão tão essencial à vida moderna, e são o caminho que encontrei para pensar sobre planejamento.

 Meu irmão caçula tem aulas, veja bem, de "Projeto de Vida"! Ele já sabe que existe um mar que não está para peixe aí à frente, e desde os 8 anos já está sendo programando para o futuro. Sabe onde aprendi a projetar a vida? Clube da Luta. Eu não queria ser o Narrador. Eu tinha uma ojeriza em me tornar um adulto mecanizado, classe-média, orientado ao trabalho, dopado por antidepressivos, assistindo TV, sozinha, no meu apartamento próprio e razoavelmente bem localizado em Los Angeles. Não! Pelo amor de Deus! Qualquer coisa, menos isso. 

 Em retrospecto, percebo que queria ser o Tyler Durden - mas não tem plano de saúde. Por quanto tempo vivi sob essa esperança de não ser um grão entre as massas e poder sair por aí dando socos e fazendo negócios ilícitos? Agora, pra lá dos 30, sinto como se fosse eu um bebê dando os primeiros passos na disciplina. 

 Disciplina é, justamente, robotizar-se, fazer o mesmo todo dia, é se incomodar em passar o natal com a família porque eu deveria estar fazendo um revisaço de Direito Civil. Penso que, com a ganância, com a vontade de ter mais, ser mais, mostrar mais, tudo isso serve de motivação para se manter ali, naquela rotina exaustiva de estudos, depois de 8h de CLT.

 Assisti a um vídeo de uma menina jovem adulta que estava aos prantos porque percebeu que não seria atriz e que teria que se dedicar a um emprego normal, o que mataria aquele tipo de sonho que deveria ter sido abortado, mas foi deixado para nascer com má-formação, aos berros do sofrimento. Já me vi no lugar dela, porém sem nenhum sonho. Zero. Mesmo. E por isso, na época dos meus vinte, eu nem consegui chorar. Chorar por perder quê? A liberdade de beber 12 litros de cerveja mensalmente? Fala sério...

 Um grande problema é que eu não vejo o labor como a parte da minha vida que me completará como ser humano, e muito menos penso nas minhas paixões como fontes de renda. O trabalho é só um meio para a finalidade de comprar lápis de cor profissional. Apesar de ser muito saborosa a sensação de ver minhas pinturas comissionadas circulando por aí, trabalhar diretamente com arte está muitíssimo fora do meu alcance, além do que meu timing já passou, com a vinda das IA's.

 Eu me aprumei na vida por não ter outra coisa a ser feita dela. Além disso, já estava entediada com a rotina antiga. Nos últimos anos venho tentando ter a tal da ganância, desenvolvê-la sem medo de ultrapassar a justa medida. Por indicação de um amigo, numa certa vez, colei o salário da carreira pretendida em frente ao meu campo de visão da mesa de estudos. Não deu certo. Tenho a sede de vencer de um afogado. O que anda dando frutos é pensar que um esforço aqui, me poupará, lá na frente, de passar tanto perrengue - e que, novamente, não há outra coisa a ser feita.

Dentro do possível, mentalizo que darei conta, sim, de administrar situações difíceis da vida, como a de me focar numa certa carreira, com suas responsabilidades e tal. E uma forma boa é pescar, na memória, situações em que consegui me safar por ser engenhosa ou espertinha. A confiança depende do percentual de acertos no site de questões. Ultimamente, baixíssima. Ando cansada, de um período de esgotamento físico, e me pego sonhando com gloriosos tempos de aposentadoria por idade que conquistarei.

Há que se imaginar Sísifo lendo o Vade Mecum. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

TV

 O mundo me foi apresentado pela tevê de tubo, antes do livro ter uma chance. Foi num canal chamado TV Cultura que descobri que eu era analfabeta, que existiam as ciências, que existiam cientistas que faziam mágicas com seu engenho e que o mundo era infinitamente maior. Ali que soube que tinha gente que dançava sincronizada, que existia sapatilha, bailarina, música clássica e instrumento musical. Eu não tinha nada disso no auge dos meus 5 anos de idade. Ou tinha, mas não notava. 

Foi a tevê que me fez notar a estante de livros, para além da estante. E por não saber ler, eu subia, pegava um livro, via a imagem, cheirava as páginas. Eu brincava com a caneta, fingindo escrever em letra cursiva, e torcendo para ter escrito algo, de verdade, por acidente. Mas eu mostrava meu eu lírico para o adulto, e ele só sorria e abanava. É... não foi dessa vez, eu pensava.

A ficção foi-me apresentada, também, primeiro com narrativas simples, personagens doces, éticos, nerds, curiosos, assim como eu queria ser. Mas que baita contraste comigo! Bem ao contrário do Smilinguido, eu perdia a paciência, mostrava a língua, jogava a chave da casa da vizinha no mato, beijava o meu coleguinha na boca, era egoísta, brigava com meu irmão, me desentendia com os moleques da rua, furtava remédio de tutti-frutti do armarinho de primeiros-socorros, quebrava os brinquedos para ver o que tinha dentro, comia sabão, caca de nariz e sentia inveja. Que horas que eu iria evoluir se levava bronca e surra todo dia? 

Os anos 2000 vieram, os canais mudaram, e tive acesso à MTV. Num primeiro momento, em que vi homens adultos com roupas de couro, maquiagem e todos aqueles sons estridentes das guitarras, eles me causaram um estranhamento enorme. Chocaram meu mundo. Percebi que as coisas poderiam ser diferentes, chamativas, contracultura, dramáticas e... legais. 

Foi algum acorde alto que me gritou o que, até então, eu não tinha percebido: os personagens monocórdicos de outrora, só eram possíveis naquele mundo ficcional preto e branco, em que as leis sociais eram rígidas como as físicas. Tudo era harmonioso e inalcançável! Nem sempre o adulto quer te ouvir, seguindo o roteiro da expectativa, nem sempre você não quer mostrar o dedo do meio para ele!

Quanto mais o rockstar era estranho, mais eu me esforçava para ultrapassar a estranheza, porque eu sentia (muito mais do que sabia) que neles habitava esse tanto de ódio que eu tinha. E como eram raras as representatividades de rebeldes nas novelas, nas séries e na vida! Eu os admirava tanto, que trabalhava com o material que me era fornecido. 

A certa altura acreditei que o estilo era a única alternativa a uma vida patética, no meio das massas. Se me punha à frente da TV numa sexta-feira chuvosa, o Matanza me vinha aos ouvidos dizendo que era deprimente, com tantas caixas de cerveja, barris de whisky, carne vermelha e cheiro de bagulho do outro lado do portão. "Vai ficar aí, mané?". E lá vem a memória de Bom é Quando Faz Mal tocando na maior altura, dentro da brasília dos pais de algum amigo.

Por um bom tempo, eu emulava aquela ideia de rebelde, com o que eu sabia da rebeldia. Só para testar. Só para saber a sensação de conviver amarrada aos meus defeitos e longe daquele medo do conflito, tão induzido nas criações femininas. Às vezes me colocava em perigo, às vezes em depressão - mas se me mantive naquele estilo de vida por tantos anos, é porque antes de ficar massante, era massa. 

Mas o arquétipo da rebeldia inconsequente chega a ser mais ingênuo que o das princesas encantadas. Primeiro porque depende do mundo inteiro sendo tolerante com os erros. Segundo, é que a raiva é sintoma de alguma esperança em ser. E nossos fígados só aguentam até um certo ponto. Há que haver um meio-termo! 

Não tem uma só versão anterior minha que não ficaria absolutamente indignada com quem sou hoje.  Puxa, quantos defeitos venho carregando de lá para cá! Quanta coisa deixei de fazer, planos que mudei, oportunidades que recusei, desafios que desisti. Estou entre as massas, não mudei o mundo. E esta sou eu, em toda a minha presença.

Consigo ver aquelas tantas caras decepcionadas através do espelho. Para algumas eu dou razão, para outras, o dedo do meio. As tevês morreram!