domingo, 6 de novembro de 2022

No berço do abismo

 Certo dia despertei

despertei com outros olhos

o real é ilusório

agora, nada sei


Tudo é transitório

os instintos se revoltam


Da vida tive ódio

só a morte é real

Espetáculo fantasmagórico 

Sem aplausos ao final


Inicia com a sina

ao nascer já se termina

um suspiro fatal


Aqui jaz o material

da qual se fez meus olhos

Jaz meu peito de animal

a vida é sonho irreal


Imergi em loucura

as coisas finitas - a fissura

Mortas enquanto paridas

no grande esquema frugal


Circulei espectro entre os espectros, em carne

nada realmente dói, nada realmente arde

Eis que o medo me invade!


No pânico o pensar imerso

na mera poeira do Universo

O céu me assusta - não o impeço


As estrelas me ofendem em seu infinito

Me doem na pele, resta o grito

Encarando a morte

quase não a sobrevivo!


Cansei-me... cansei do perigo

Troquei minhas lentes e achei abrigo

O que sinto é real, apesar de finito


A carne que arde é onde me exprimo

Eu sou! Eu vivo! Ao choro e riso!

Há amor, há pranto e sigo

Embalando no berço do abismo.



quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Etimologia


Ninguém sabe bem 

de onde a saudade vem


Há quem diga que vem da solidão

Da negra bílis, uma melancolia

do sangue pisado de um coração


Que do latim vem a escrita

como a bíblia do cristão

Ou dos belos traços de estilo

de letras de alcorão


De soidade vem saudade

ou da saudade vem solidão?


Não se encontra na fonética

a fonte e explicação

da moléstia que se cura

com uma só conjectura:

A moléstia, em questão.


Pensa

Não pensa em mim...

Não pensa em mim?

Não pensa em mim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Poetria X

Te quero? 
Te quero.

De corpo nu
e alma despida

De olhos abertos
e mente destrancada

Ouvir tua voz
não de fantasmas

De pés prontos
a mil lances de escada

Da tua própria versão
- detrás da fachada

Se não isto
Então, nada.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Inundação

 Não consigo espremer uma só lágrima deste par de olhos. O sofrimento flui todo em mim, inundando as memórias com seu líquido agridoce. São águas tormentas nascidas na calma alegria. Não haveria aqui tamanho sofrimento sem antes uma grandiosa felicidade. Eis que a tristeza passou a gotejar e esta é a medida: uma chuva de felicidade para uma só gota de infelicidade. E talvez, só talvez, seja essa tempestade o que chamam de saudade.