terça-feira, 28 de setembro de 2021

De 1 a 10, o quanto dói?

   Todo aquele que sorri está alegre, quem chora está triste, quem franze o cenho está nervoso. Tão simples. Quando são os outros, tudo é simples, e dessa forma simples fomos ensinados a compreendê-los e assim, simples, tornaram-se em nossas perspectivas. Usamos esse conhecimento como máscaras, e reconhecemos nos outros essas máscaras como sendo suas reais facetas... mas é tão fácil manipular nossas máscaras no cotidiano, e parece tão fácil que os outros a manipulem, também! 

  Nunca se saberá, com certeza, mesmo que se observando com todo cuidado, se o sorriso esconde uma tristeza, se a tristeza esconde uma raiva ou mesmo se há um misto vultuoso de sensações ocorrendo por detrás de um olhar indiferente. 

  Mesmo que se acerte o sentir, ainda assim não se saberá a real proporção daquele sentir no outro, e de modo contrário, o outro não saberá a real proporção do sentir em quem o observa. Não há coisa mais íntima que o sentir, portanto. O sentir tem uma restrição ao mundo exterior, é algo que ninguém além do próprio ser pode conhecer. Pode-se encontrar as justificativas para as gamas de emoções, mas nunca será possível tocá-las.

  Por óbvio, conseguimos comunicar aos outros que estamos felizes, tristes ou doloridos, mas somente nós sentimos a felicidade, a tristeza e a dor. Os outros as dosarão às suas maneiras. Ainda, note que as palavras estão limitadas às regras externas, a um certo padrão universal de como funcionam os sentimentos. O machucado dói, o beijo dá prazer, despedir-se também dói, e amar também gera prazer. O ralar de um joelho é tão distinto de uma despedida, e o beijo é tão distinto do amor - e ainda assim a primeira distinção se trata de dor, enquanto a segunda se trata de prazer. Todas sensações são complexas e distintas em seus âmagos, ao passo que se coincidem nas palavras e consequentemente na nossa percepção com relação ao outro. Curioso é o âmago pessoal de cada palavra que expressa um sentir.

 Talvez a felicidade machuque o outro, e pode-se encontrar justificativas para uma sensação tão dicotômica quanto essa, mas o quanto ela alegra e o quanto ela fere, é algo que é sentido apenas e tão somente por quem se alegra e se machuca, ao mesmo tempo.

  Há raros momentos em que se sente uma conexão com o outro, de modo que as emoções parecem fluir entre si, como se fosse o existir indivisível. Chamam de empatia, e sente-se a empatia. Envolvem-se dois em uma só gargalhada ou um só choro, num momento em que humores aparentemente se tornam uníssonos em sentimento e proporção. Mas a empatia nada mais é que uma sensação, nada mais é que um sentir individual. Cada qual sente o que é de si e nunca o que é do outro. 

  As sensações íntimas são uma linguagem que não tem real tradução. E é isso que nos faz únicos, e é isso que nos faz tão solitários. Sempre sozinhos, dentro de si.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Remói

Felizes memórias

acabadas histórias

Cruel fantasia,

é tão alto teu custo!

E ingênua rega o que te asfixia


Imerge no líquido embriagante

Vai! Rememora!

Mergulha fundo

e afunda

Bem longe... distante do agora

E ainda mais adiante,

sem que nunca lhe baste 

a triste alegria


Imerja na sola história! 

Ensope de felicidade genuína

Submerja em sorrisos que cessaram

e em esperas ansiosas

que não te esperam mais

E rindo,

se afoga


Alto o preço da memória!

Se remóis,

te estorva

Se aconchega, 

te devora

E ainda, teimosa, afliges a água fria.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Apatia

Onde meu corpo descansa

não resta uma só gota de sangue

A madeira - úmida - me ama

e acolhe com temperança


Ouço-lhes abafado, e lamento

Fétido unguento!

Todos tão vivos e sorridentes,

e o meus dentes se desprendem

e minha pele se consome.


Sentem o sol, a tristeza e o agora

Enquanto mal sinto a terra -

essa, impaciente

me devora.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Embrionário hinário

 Quando se ama, o outro se torna o epicentro dos sentimentos, e portanto o nosso mundo, a nossa casa, a terra em que (re)nascemos e ali formamos a nossa nova vida. O outro torna-se, de uma só vez, nosso lar e criador, e dele retiramos a validação da nossa própria existência como suas criaturas. Afinal, o que somos nós sem as leis físicas e as reações químicas do cosmos que nos forma? E no momento em que o outro ganha tamanha proporção em nosso coração, quando o outro é, de repente, o universo, a sensação é a de que alcançamos o nirvana, que somos um com o outro e unos, um, "tudo está bem, tão bem!". Meditamos nisso, nos encontramos nele, e nele nos acolhemos "esse é o incrível Cosmos". Observamos o céu em seus olhos, e é tudo tão belo nesse mundo! "Belo Cosmos!". Vai-se o sol, que esquenta e cai a noite, que aquieta e nos acolhe, vem o frio, que ameniza e então chove, molha-se o solo e nascem as flores e suspiramos "assim é o belo Cosmos!". 

 Tanto admiramos "Belo Cosmos!". Admiremos O Cosmos, "Belo Cosmos!" onde as brilhantes estrelas colidem, "belo Cosmos!", e então gloriosamente implodem "belo cosmos!", transformam-se em buracos negros que a tudo sugam "cosmos!" e em que os planetas se formam e as galáxias se misturam, e o tempo se confunde entre gravidades diversas, e novas formas de vida surgem e ressurgem aos montes, algumas florescem e então morrem, e outras sequer desabrocham "se ninguém as viu, foram sequer vida?". Assim é O Cosmos, assim distante, assim indecifrável, assim imprevisível, assim caótico, assim indiferente "cosmos?!".

  "Indiferente cosmos!". Fantasias e delírios narcísicos à parte, o cosmos é o que é, ele existe e é tão menos sentimental e humanizável! O cosmos não se revela tido que nada tem a esconder. O cosmos não dá ou retira ou retribui, não cria ou destrói "indiferente cosmos!".

 Reconheçamos! No cosmos há tudo que há "e todos aqui habitamos!". É o tecido leve, onde está costurado meu lar "nosso lar!". Nele em que existimos tantos anos antes, em que até então não deixamos de existir e em que existiremos (e hei de existir!) tantos anos além, até nossos dias acabarem. Nesse cosmos em que de fato existimos, em que somos a criatura indesejada de um criador sem desejos, onde nasceu a terra em que apoiamos nossos pés, esse cosmos findará em si, também, num dia qualquer, seja noite fria ou no alto sol do verão.

 E nessa, exatamente nessa realidade, em que apoiamos os pés e formamos pensamentos, é onde nos validamos como seres da existência, "aqui!" nesse cosmos "nesse cosmos!"... que é tão diferente de mim, e com tanto em comum à você.

 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Vagueza

 O momento passa, e nenhum que o segue se assemelha ao anterior, e assim por diante. Quantas vezes já falei sobre isso? Muitíssimas. Falo muito do óbvio. 

                                          Repito. 

Volto. 

                     Reanaliso. 

  Aqueles pedaços da história, antes tão vívidos, foram se misturando e se esvaindo e se distanciando do tempo em que estou agora. Tudo que me lembro, aqui, embaçou-se. E como há de embaçar!

 Vejo nossos dias como vejo meu reflexo no espelho do banheiro úmido: encobertos por um tipo de vapor. As cores ficaram em tons azulados. Aquela camisa... não teria sido ela marrom? Bordô? É injustiça que minha memória tenha escondido os detalhes, mas por outro lado, as sensações, essas ao menos conseguiu preservar. 

 Quando me reconto pela décima vez sobre aquele dia quente, esboço um sorriso, e quando me reconto sobre o dia chuvoso, esboço o choro. Como eram tristes os dias chuvosos, como eram felizes os dias de sol, e como foi agridoce aquele dia quente e chuvoso... E assim, a depender da memória que se fixa, meu dia é conduzido pelo sentimento lembrado. E todo dia sinto algo antigo misturado ao novo, é uma alquimia! Todo instante sinto. Ainda sinto sentimentos que deveriam ter se embaçado junto com o reflexo do espelho. Em mim ainda habita um incômodo sentir que não se transformou em memória. Para que isso aconteça, resta mais esperar.