sábado, 28 de fevereiro de 2026

Divórcio

Sentaram-se lado a lado. E então viraram os rostos. Ela olhou para o chão. Ele, para ela. Ela para ele. E ele para o chão. Ruborizaram.

 Ela quem tomou o primeiro fôlego:

- Como posso te dizer?

- Dizendo-me. - As mãos dele suavam.

- Então te digo: Eu te amo. E sinto...

- E eu já não sinto mais o mesmo.

- De me conhecer? - respondeu, surpresa.

- Não, do início, do nosso primeiro beijo, aqui, neste mesmo banco.

- Mas... nunca nos beijamos. - disse-lhe, confusa.

- Sabe como é... na minha mente, já nos divorciamos.

Ela riu.

- Sim - ele prosseguiu - Foi tudo muito bonito. Nosso primeiro beijo foi logo aqui, após confessar que me ama e eu retribuir com um beijo. Guardei esse beijo por tantos anos, desde a primeira vez que te vi. Sempre soube que nos casaríamos, mesmo antes, quando não passávamos de estranhos. Deste banco, te levei para tomarmos sorvete, uma coisa leva outra, então para um lanche, para alugarmos nossa primeira casa, juntarmos nossas vidas, conhecermos nossas famílias. Fomos muito felizes.

- E como é que essa felicidade toda aí foi embora?

- Bom, eu queria casar no altar, você em alguma noite embriagada de Las Vegas. Eu desejava filhos, e você não queria nem mesmo mudas de plantas, entende?

- Mas você disse que nos casamos.

- Nós casamos.

- Onde, afinal?

- No altar. 

- E como é que troquei Las Vegas por isso?

- É daí o nosso fim. - disse, segurando a mão dela com firmeza - E sentados aqui, já percebo a razão. Acho que você foi a primeira a não sentir mais.

- Como é isso?

- Eu queria filhos, então essa foi sua concessão à minha felicidade. E a minha concessão à sua felicidade foi sentir um grande vazio, sem nunca poder ver nossa prole brincando pelos jardins que não tínhamos em casa.

- Em que momento lhe dei um filho?

- Olha só, você adivinhou... Bom, alguns anos depois, quando já não conversávamos mais sobre qualquer coisa além de impostos.

- E conversamos por meio de nosso filho por quanto tempo?

- Por tempo demais.


Levantaram-se. E nunca mais olharam para trás.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Bem criancinha

Quando me dei conta de ter nascido, percebi que eu morava na casa da minha avó - na verdade, eu não pensava como 'casa da minha avó', eu sentia o que era 'casa' antes da palavra e da propriedade. É difícil explicar como eu entendia o mundo sem saber o que aqueles barulhos orquestrados, que saíam da boca dos adultos, significavam. 

Um dia fez sentido, para mim, que minha vizinha respondesse ao som de "Bia". Eu a vi através das grades. Agarrei-me ao portão e resolvi testar a teoria. Tinha vontade de vê-la, porque ela era legal e me deixava brincar de boneca. Gritei aquele som a plenos pulmões! O "bê" era difícil, saiu "Pia". E essa foi minha primeira palavra.

Num primeiro momento, os gigantes se encantaram com a minha tagarelice, mas depois que aprendi a formar muitas frases, o fato de que eu verbalizava não demorou para se tornar notícia velha. Eu não era lá muito ouvida, porque tudo o que eu estava conhecendo já era conhecido, então achei legal o fato de falar para dentro: A grama é do chão de terra, a noite é escura, o louva-a-deus não canta hino louvando Deus.

Eu fui subindo nos armários, nas mesas, então nas árvores, nos galhos cada vez mais altos, nos muros, no telhado e passei a fugir de casa com uma boa frequência.

Lembro-me razoavelmente, como num sonho, de esperar meus pais tirarem a sesta para poder abrir o portão e fugir. Talvez por isso a minha empatia com os cães domésticos. Não é que eu não gostasse de casa, mas puxa vida! Um mundo inteiro lá fora, as risadas das crianças brincando na rua, os carros voando no asfalto, os gatinhos bonitinhos desfilando e os adultos lá, descansando a barriga! Eu dava é no pé. E já tinha um pouco de astúcia. Era gatuna e curiosa. 

Minutos, ou horas, após andar e andar até a Avenida Campo Grande, senti ter sido içada por um gigante, que me apoiou nos ombros. Era o vigilante da rua. Estava me resgatando. 

Com a idade, fui ficando mais sábia e não ia mais às avenidas perigosas e movimentadas durante as minhas escapulidas. E eu já contava até 10 e, se forçasse, trinta e dez, noventa e dez, até duzentos e noventa e dez! Ficava tentando contar mais alto só para provar que eu conseguia chegar ao último número dos números (ficava logo após o mil cento e alguma coisa que eu não tinha aprendido).

A idade nos traz desafios cada vez mais complicados: o da vez era que as crianças da rua eram mais velhas e já estavam na 1ª série. Senti uma grande aflição ao ser deixada para trás com a minha amiga Bianca. Ela me disse que, na escola, ia para aprender a ser mais inteligente, que se contava até o infinito e que se via mais crianças ainda do que na rua.

Eu e Bianca ficávamos olhando da janela da casa dela as crianças com suas mochilas bonitas, uniformizadas, como se fossem heróis indo ao combate. Eram elas tão maiores e mais inteligentes que nós! Não muito depois, fui traída pela minha amiga. A mãe a matriculou na pré-escola e fui deixada para trás.

Lembro de pedir à minha mãe para ser matriculada também, mas ela me disse para esperar, que eu estudaria já, já. E esse já, já que não chegava nunca? Nos terríveis tempos letivos, a rua ficava triste e deserta. Mas assim que eu conseguia pedalar muito rápido minha motoca, esquecia de tudo. Eu vivia num eterno presente.

Alguém me contou num certo dia que, quando se cresce, a infância todinha é esquecida. Tentei forçar a memória para pensar no útero da minha mãe e, horrorizada, constatei que falhei. Bem criancinha, um pensamento mais longo representava 2/3 da minha vida. Tive medo de não recordar de mim mesma.

Daí é que passei a lembrar.